Afortunado
A minha fortuna é o meu pequeno espaço. Não possuo riqueza que me exclua o sono, sou dono de bens que se exaltam em forma de vida. O agradecimento que tenho é recordar-me do que não tive. Não crente, não deixo de rogar. Não crente, não deixo de verificar. Não crente, não deixo de me sentir afortunado. É à natureza que me vergo, com as crianças que me fascino, e com os velhos que me cultivo. Numa prece inventada dirigida e desprovida de entidade, elevo-me numa paz que procuro e perco e, perdida, reencontro. Tenho um rio, um pedaço moreno de mar, passadas do meu caminho, ressaca e ebriedade, sorrisos e amigos, um filho mulher, um pai, e o filho dele, uma data, áfrica, uma canção, um livro, um poema, sal em estado liquido descristalizado pelas minhas emoções. Não tenho roupa cara, um carro grande ou telemóvel pequeno. Não tenho seis assoalhadas ou jóias raras. A minha fortuna habita-me, vive num sítio pequenino dentro de mim.