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Mostrando postagens de abril, 2016

Excerto de palavras por ver o sol um dia XXXVI

No dia em que me perguntaste o que eras para mim ainda não sabia responder-te. Depois partiste. Agora sei-o.   Relativizaste os meus segredos com a normalidade que lhes dás, Já não sou eu agora sozinho nesta vida, Já não sou eu agora sozinho neste caminho, Os dois normalizámos a nossa existência.   Mesmo não sabendo de ti, Onde vives, Que música ouves, Que mar frequentas, Ou se apenas e ainda vês a lua da tua varanda, Um dia foste a minha solidão, O meu deserto, A minha paz, O meu desejo, A minha amizade, O meu amor sem medo.   Relativizaste os meus segredos em normalidade, Pelo tanto que foste, serás sempre a saudade presente. Declamei ao vento estas palavras que o vento te entregará ….

Em quantos quartos de lua já pernoitei?

Em quantos quartos de lua já pernoitei?   Ao certo, ao certo não sei, Aproximadamente os mesmos em que acordei inundado de paz, Em que igualmente adormeci embalado por mil sonhos.   Nesses adormeceres e acordares, Pernoitei num quarto de quarto de lua, Julgo eu. Sinto eu.

Espero sempre

Espero sempre que seja a tua voz como espero sempre que seja o mar, Espero com as mãos cerradas nas grades invisíveis que desenhei, Espero sempre e não me importo que nunca sejas, porque nesta espera, tenho-te.   Espero sempre não acordar e acordo, Interrompo o sonho para ir trabalhar, Injusta esta vontade na minha vida.   Continuo de mãos cerradas nas grades invisíveis construídas no sonho, No mar, e na tua voz que não fala, Assim sendo, escuto a tua voz que cala e calo a minha voz na tua.   Cerro mais as mãos que se soldam a esta espera, Espero mesmo sentindo que a espera é demorada, Enquanto espero demoro-me na saudade, e esta saudade é presença real desta espera.   Esta saudade, esta espera, tem a tua voz, Tem os fios do teu cabelo, o teu sorriso, o teu jeito, a tua companhia, o teu beijo, a tua convicção, o teu cheiro, Esta saudade feita de espera tem-te, por isso continuo de mãos cerradas nesta invisível grade do sonho.

É sempre dia

  Aguardo num dia o dia, Aguardo a manhã amanhã, Outra noite como a d´ontem, Outro dia que finda, Outro dia que nasce, E é sempre amanhã, É sempre ontem, É sempre hoje.     É sempre dia … é sempre abraço.

Transversalidade

Transversalidade por inteiro, Nas lágrimas, Nos bancos perfumados da primavera, Nos jardins enfeitados de outono, Nas crianças, Nos sonhos, Nos direitos, Na experiência, Nos cravos, Nas ideias, Nos ideais, Nos continentes.     A transversalidade a plantar de vida.

a 25 Abril de 2016

Outro Abril, Parece-me menos Abril que o ultimo, Menos ainda que o penúltimo, O sonho já não explode no Maio maduro, A liberdade já não passa por aqui, Abril demissionário e divido, Sem sabor e conquista, Promessa que já não é promessa, Povo que já não sai à rua num dia assim.   Resta-me sentir que tenho em mim todos os sonhos que Abril me deu, Por teimosia, resisto à desistência de me render ao futuro que quero livre e igual.   Os cravos já não abundam no Abril de outrora por aí, Continuo com Abril na alma, Até existir primavera em Abril.   "não há machado que corte a raiz ao pensamento”.

Sofazando XXXIV

"... como se um rio devorasse tudo o que sou em cada palmo de terra onde estou, edifico e preservo o que sobra do que sinto, No céu existe a sul escarpadas encostas da minha saudade, onde a angustia se abraça na paz, e o mundo existe como um sonho que teimo em crer. Recordo a pequenez simplicidade que torna tudo o que necessito suficiente. Já faz tempo que o sol que doura o mar me espera e as nuvens se embriagam carregadas de esperança..."

há quanto tempo já eu parti de dentro de mim?

há quanto tempo já eu parti de dentro de mim? em número de anos não tem tempo, que o tempo não tem anos, iguais aos que me ausentei.     não há barco, não há porto, nem alma para ancorar, que em cada peito de marés, levantei ferro e fiz-me ao mar.     que lá viverá por ventura, o tempo em que parti de dentro de mim.

Desculpo e invento e o amor

Invento e desculpo o amor, Perdoo, Gero, Digo ser rebelião, Descontrolo, Paixão e até doença, Digo tanto e tão pouco, Do escasso saber que sei, O muito que sinto num pranto. Sem amor nada seria tanto, Do tanto que eu sou, Caio e levanto.   Depois: - Desculpo e invento o amor -

demente eleição

Eterno cheiro que me devora, acorda e não me deixa adormecer, oiço os teus gemidos num constante ecoar das tuas mãos, na penumbra dos meus sonhos estás em mim enlouquecida, eu sou apenas eu, tu, és tu mais eu, quase que me torno devoto, nesta remota esperança de te revisitar, sem sequer ter que te dizer o meu nome.   fundo-me nesta louca vontade, e nesta demente eleição me entendo.

Fado

Uma guitarra tem dentro de si a voz do fado, A voz? Geme a saudade, O fado? Acolhe uma lágrima.   Numa guitarra há um país, O encontro de duas bocas, Ser triste e ser feliz.   Na madrugada rebenta um fado, Nas mãos que choram numa guitarra, De um destino abençoado.   Soluço brando no meu peito, emoção, Num silêncio só e secreto, Lamento de uma guitarra em sussurro nas minhas mãos.

Extracto de um diálogo por ver o sol um dia

  “…A vida rebuscando em toda a experiência adquirida, não me avisa ou informa. Não escolho o que elejo, não decido o que determino.   Em qualquer beco ou esquina, sou eleito ou adaptado, e aí mesmo sou morto ou avivado.   Assim, organizo a memória no arquivo da minha existência, mal codificado como escolha, se sou somente presenteado.   A vida invade-me como as noites, vem, usa-me e parte.   Nada experiêncio. Tudo vivêncio…”

Pode ser

Pode ser: Luz, Penumbra, Feitiço, Assombração, Até saudade.   Pode ser: Motivo, Loucura, Acerto, Erro, Até amor.   Pode ser: Desejo, Beijo, Chilreio, Fantasia, Ou primavera em mim.

mil palavras

mil palavras não valem por uma atitude, uma atitude não precisa de mil palavras,   ambas, acompanhadas podem ser muito felizes, mas não é condição para que o sejam,   uma atitude sem palavras é sempre uma atitude, mil palavras sem atitude são só - mil palavras  -.

ubiquidade

adoro estar em sítios que não frequento, conversar com pessoas que não converso, falar de assuntos que que não são tema, e de temas que não são assunto, de ver pessoas que não me vêem, e de ser visto por gente que não vejo, ... é a insignificância do "desabraço" Tenho o dom da ubiquidade .... sem saber que o tenho.

Breviário

Breviario ensaio sobre o anoitecer e o fim do horizonte no mar.   Infinita indecisão. Sem possibilidade de viver amanhã ou repetir o dia de ontem, sobra a hora corrente e a música que escolho para celebrar o anoitecer e o fim do horizonte no mar.   Pertence-me o dia de hoje e a hora corrente.

Pão

Terra sem gente que a falta de pão rejeitou, Filhos que ficaram com a saudade da espera dos pais que tardam em voltar, Mulheres obreiras da solidariedade da terra da ausencia, Esta terra é o mundo e, crê-se nao existir mais mundo para além deste universo, O rio é a alegria que renasce em cada olhar de esperança, Hoje, é somente mais um dia de saudade dos pais que tardam em voltar à terra rejeitada de pão.

As árvores não podem crescer até ao céu,

As árvores nao podem crescer até ao céu, Os rios nao podem secar das lágrimas que suportam, As flores e as florestas, O teu cheiro a mãe, O teu destino, Os lábios que desejo, A cegueira que me alimenta a saudade, Sao as dores do crescimento que não sararam na minha infância.   Esta terra rude e sábia tem no limite a grandeza das árvores nao crescerem até ao céu, e o rio suportar as lágrimas da saudade e do desejo.

vermelho revolucionário

A tua boca encarnada de vermelho revolucionário entregue na minha, tao longe agora está a revolução como ela.   submisso à prisão que me deixaste ja nao danço, e o vermelho que eram os teus lábios, é agora a cor da minha saudade.   entristecerei com o nevoeiro que cai, e feliz serei nesta imposta ditadura que ditei.

É tarde?

Vou agora meia-noite, Já é tarde para o mar?   O mar não tem horas e as minhas horas junto do mar não têm prazo, Refresco-me por lá e sou ouvido, E tudo o que oiço me revejo, A praia sem gente não é solidão, Se não, seria feliz na minha casa, Se o mar nunca me tivesse sido apresentado.   Vou agora meia-noite até ao mar, É tarde?

Não há ais

Desfaz-se o conteúdo antes da forma, Disforme.   Avassaladoramente irrompe no corpo adoecido, Destrói-se a alma antes da morte.   Todos os órgãos cedem, Decadentes, Ao errante caminho.   Não há ais percorridos, Ou choro por palmilhar, Que mate a amargura de um peito arrependido.

na minha infância não existia infância

na minha infância não existia infância, existia urgência em crescer, vontade de escolher, firmeza em decidir, sempre assim foi, em todas as fases de pré crescimento, agora existe somente urgência, firmeza e vontade, de não decidir, escolher ou crescer, a vila cresceu, é agora a minha cidade, mas a cidade continua em mim:- a ser a minha vila -.

noite acordada de acordes maiores

...noite acordada de acordes maiores ... É por aqui que me devolvo ao mundo, entre acordes e o perfume das palavras, da chorada e amena poesia. É por aqui que me afago, e não sinto o medo respirar, é por aqui o meu sonho acordado. É por aqui que a madrugada entra em mim, a noite me beija, e o tempo não vive enquanto tempo. É por aqui que sinto a saudade, e o desejo de ter como eu, quem sei gostar, de estar por aqui.

O que me apoquenta?

O que me apoquenta? Apoquenta-me o "serial" esterismo "facebookiano" de quem crê nas dicas e conjuntos quase matematicos dados sobre as conjucoes de amizade, futuro e personalidade pelo "facebook esotérico", acrescido de adjectivos como: Abreijos, Jinho, Fofito, Lol, Vai lá vai, Gosti, #, kido e etc .... E eu que gosto de abraços    

árvores verdes entroncadas de chão

"... A madrugada trouxe-me a notícia em jeito de boa-nova. Envenenada. Breve. Adivinhada e sentida. Farto de um querer tão farto, como farto de um não querer tão farto de sentir. A intuição nasceu-me com a vida. Passeio-me pelas noites agraciadas de um ar quente, ouvindo este gemido de trompete. Desprover-me é, ter a audácia de perder para ganhar. É ter congruência, alma e fé. A força do que acredito é inesgotável. Desacredito no encantamento de possuir. Encanto-me pelo desprendimento e a facilidade com que a lucidez me enlouquece. Falo neste canto anónimo dos meus pensamentos peculiares, naturais e intrínsecos, que não são entendíveis na maior parte das vezes a ouvidos sãos. A loucura não é escutada nesta dança melodiosa de chilreares, abençoada pelas árvores verdes, entroncadas de chão..."