Postagens

Mostrando postagens de fevereiro, 2011

“vou ali colher uma braçada de sorrisos para ti”

Sonho com pomares de abraços e sementeiras de afectos. Sonho com a expressão “vou ali colher uma braçada de sorrisos para ti” ou “semeei hoje de madrugada abraços frescos, daqui a seis semanas, quando os colher envio-te um ramo deles, para que não te faltem”. A terra fértil aos torrões no regadio colhe as lágrimas que me caem. O adubo é a minha confissão nas tardes sentidas onde me sento e recolho. A passarada no seu voo giratório observa-me e faz-me senti-los ali, presença. Ao longe vislumbro o céu cada mais escurecido e a noite cada vez mais clareada. Clareada de uma luz meia ofusca, que me sombreia o regresso. As chaminés deitam fumo com cheiro a aconchego. Vejo um vulto que sei ser da Hermínia, tusso, e ela diz-me:   - Entra Josefa, podes entrar, tenho sopa acabada de fazer, puxa uma malga do armário, senta-te e aquece a alma, anda.   - Não quero incomodar deixe estar, respondi.   - Não incomodas nada, o que me incomoda é ver-te de negro esse olhar assim, olharento. Sabes, entro em...

Saudade é uma tristeza sonhadora

Saudade é uma tristeza sonhadora. Sonho todas as manhãs com uma mão cheia de reencontros. Tenho as algibeiras recheadas de prendas e abraços que esperam a sua hora. Aos domingos a saudade é mais aguda. Nos restos dos outros dias igualmente. Distraio-me com acordes soletrados de rimas e cantarolados pela minha alma e pelo meu espírito. A tristeza tem o cheiro a saudade. A solidão alivia-se com a recordação de uns lábios pintados de sorriso. O meu reformatório interior tem regras claras e não me deixa rimar a poesia em conceito de loucura. A saudade inventada pela tristeza é a ausencia. Submerge em mim a vontade. À tona dilacerado o meu peito aguarda. Átomos mais que partículas sufocam-me por inteiro. A ausência cheia de tudo e vazia de ti esmaga-me de encontro ao adiamento. Como é possível a esperança não comandar este hemisfério onde pertence a emoção? A inteligência e a troca de vocábulos de nada me valem. Oiço as passadas acordadas de madrugada desta vida desdita e apartada. Já é dia...

Invisíveis fontes

Quanto mais inventado mais verdadeiro. Invento um miradouro nos teus olhos, uma viagem imaginária. Os teus dedos apontam-me a presença. Sei que é primavera pelos teus passos e noite escura disponível para amar. Sinto refugiada em mim uma vontade guardada de ti. Os meus olhos vêem em arcada, outras vezes plenas e distorcidas grinaldas. Semeio pérolas que não colho, invisíveis são as fontes onde bebo alegria. Sábado tarda a tarde de anteontem. Desiludo-me no promontório quando não avisto nem Maio, nem cravos. Os cravos transformaram-se em escravos e a greve em sacrilégio e pecado mortal. Boicoto o silêncio com um grito. Viva a liberdade. O romance ledo e frívolo que devoro em páginas degustadas chegou ao epílogo. Recapitulo os adjectivos e sinónimos escritos de mim.   Como pode o autor me ter descrito se nunca nos vimos? Será que existe uma matriz? Um tipo padrão destinado a mal amar? Será que o nevoeiro que me enche os pulmões é azul?   Ontem as borboletas poisaram na mesa do meu quinta...

Retorno

Ambiciono retomar a inocência do olhar. Despir-me de toda a sabedoria e voltar a ver as coisas como em criança. Com a ingenuidade e o conhecimento por adquirir. Pretendo apreciar a luz, a contra luz, a claridade e o sol pela primeira vez. Desejo apreciar a espuma das ondas que escorrem da rocha e a lua que se levanta e põe com o meu acordar. Quero-me isento de opinião e sentir-me extasiado com um prado verde repleto de folhas caídas de Outono. Quero pisar pela primeira vez o amolecimento das minhas passadas, imaginando as nuvens. Quero ouvir o estalar seco do sol. Oiço ao longe o rio que se queda de aqueduto em aqueduto, de açude em açude, levando no seu leito quem nele se quiser deleitar. O rio não escolhe, aceita. Entendo a sua decisão. Aceita-se a maior parte das vezes, escolhe-se a ínfima parte sobrada. Aquela senhora idosa espera sentada no jardim o fim. Do fim não tem medo. O fim levou-lhe os que amava e tem-nos com ele. Sabe que lá estarão à sua espera. Candidamente deixa o sol ...

Gosto de papoilas

A saudade dispendida nos encontros adiados é como o céu imenso salpicado de estrelas, sem a constelação que procuro para desabafar. O meu olhar de saudade inventa faces de sorrisos e a minha alma deposita-se em murmúrios chorosos. Amanhã brilhará por certo o reencontro. O desencontro esgotou as tentativas. Assim sendo só sobra o encontro. Duas almas que nunca se fundiram são almas puras e abertas. O excesso não é fartura. A fartura existe depois do excesso. Fartura no sentido de farto. Entendo que a fartura devia ser abolida pelo quanto baste equilibrado. Sempre vivi no limite de me fartar do excesso. Sempre adormeci cansado. Não descansar de ter, de ser, de ouvir, de ler, de cantar, de tocar, de amar este desamor a mim. Retorna sempre este círculo, esta espiral, este ponto de partida não evolutivo. Cansa-me a falta de descanso. Sobriedade não é sanidade. Não quero este olhar meu sem o teu. Espreguiço-me e bocejo nesta falta de adormecimento, neste soneto interior que me mantém acordad...

As estrelas voam dentro de mim e do mar

Passo a passo, Gota a gota, Destruo o atalho.   Encho de abundância este mar, Pronuncio sílabas desembolsadas, Fatigadas.   Oiço-me estridente noutro lugar, Ausente, O verão ainda não acordou.   As estrelas voam dentro de mim e do mar, A madrugada aperta-me, Solto vibrantes tremores.   Afago-me e invento: “O dia mais cruel e sábio não existe sem razão aparente. Fecundado antes, é avisado pela irracionalidade, parida de paixão”

Sonolência quotidiana

Sonolência quotidiana. Mãos cabisbaixas erguidas nas algibeiras. Silêncio. Reparo em mim e numa espécie de meditação acerca do movimento acelerado das pessoas e do seu olhar, murchado de Outono. Em mesas garridas agrupo-me numa sonolência colectiva e não reparo na vida. Alheio-me à vontade intrínseca de me exilar num xaile debruado, com cheiro a lareira e fumo. Esta modernidade maça-me. Tanto que preciso de mim rodando como um girassol e livre remexendo na terra, soltando labaredas de felicidade por mim afora. Sonho adiado com os meus próprios sonhos. Entusiasmo-me segundos depois de me extasiar de nada. Desentusiasmo-me com o mesmo prazer. Nas mesas garridas agora prateadas de tabuleiros, as pessoas, nós todos, ingerimos as calorias necessárias, para mais uma tarde de sonolência quotidiana e colectiva. A solidão levantar-se-á no instante, em que todos nós nos levantarmos, e sozinhos velejaremos mundo fora. Almoço com três pessoas que se sentaram numa mesa que escolhi para estar sozinh...

E assim se faz o luar

Não entendo a forma, entendo o conteúdo. A contemporaneidade tornou-se quase numa filosofia baseada no medo. Pensa-se quando se devia viver, vive-se quando se devia pensar. Os conceitos não são como a matemática, são voláteis, abrangentes e globais. Os extremos tocam-se e até se poderão complementar. O meio-termo pode ser um atalho, um acerto, ou um erro. Pode ser um desvio. Pode ser padrão. Pode ser um caminho. Viver significa sentir. Significa não ter medo de sentir. Vive-se com o que se sente, e, não com o que se pensa. Engano-me bastantes vezes com o que penso, não me engano com o que sinto. Se sinto, sinto, está sentido. O exercício do pensamento também está fora de moda. Com isto de maneira alguma pretendo retirar a importância à cognição ou raciocínio não lógico e/ou lógico. Pensar é entrar num mundo decisório e emocional divergente. Não dissocio um do outro, mas também não me ajusto com meios-termos, termos e meios ou extremos. Enquanto reflicto o mundo inclina-se e reflecte a ...