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Mostrando postagens de novembro, 2010

Carreiro

Acendo um cigarro no caminho a que chamam carreiro das cobras. Não sei se alguma vez o sol o visitou. Caminho sombreiro doado aos amantes e com tecto feito de velhos e imponentes carvalhos. As paredes são silvados que dividem um ribeiro que passa mais em baixo. Quando miúdo atravessa num desafio e aventura este carreiro que me levava à escola. Entrava na escola com a sensação de vitória, de ter enfrentado o medo da sua passagem. Era espirituoso sentir isto ás oito e meia da manhã. Sentia-me um pequeno herói enfrentando o medo de ir pelo caminho que os meus pais me diziam para não fazer. O medo é do nosso tamanho, vai crescendo connosco. Em contrapartida as vitorias vão diminuindo em dimensão. O cheiro mantém-se, o enlameado do Inverno também. É uma pequena floresta de cinquenta metros que aos meus olhos parecia um mundo. Gostar sem conhecimento é paixão e paixão com conhecimento é amor. Também se amam pedaços de bocados de nós, de florestas e mares, de nuvens e por do sol, de céu e lua...

“Vim bem psicologicamente”

Estive na Guiné na guerra. “ Vim bem psicologicamente” , mas as marcas estão cá. Tenho sessenta anos. Vocês os de quarenta não sabem o que é a vida. Não sabem o que é encarar cada dia olhos nos olhos com a morte. Esse binómio vida morte, morte vida, morte morte, vida vida. Não sabem o que é a desconfiança na sua nascente, a desconfiança no seu crescimento, a desconfiança da sua confirmação. Vocês não sabem o que é ser órfão de uma nação, não sabem o que é ser preparado para matar para não morrer. Não sabem tanta coisa. A guerra está cá, existe nos meus sonhos que são pesadelos, no meu acordar e adormecer, ao dobrar de cada esquina, nos rostos das pessoas, nos movimentos apressados, nos ruídos, nos cheiros, nas gargalhadas, na noite, no dia, nos rios. Em todo o lado ela coexistiu comigo estes quarenta anos . Mas “vim bem psicologicamente” porque sou forte. Muitos não ficaram assim, outros até tiveram a boa ventura da morte. Vejo muitos por aí na televisão a falar de guerra, da guerra ...

Edmundo

O Edmundo é ateu, Esteve preso neste mundo, E foi livre na prisão, Nasceu numa escada, Num vão. Sua mãe infiel, Gerou-o num bordel, O Edmundo já na rua, Ouvia: “que mãe é a tua”. Já na escola observava, As letras e os números, A raiz e o quadrado, Jogava bem à bola, E sabia de matemática. No entanto não namorava, Era descriminado, Por ser filha da Laura, Uma mulher de mau porte, Pagava a factura, De uma vida sem sorte. O Edmundo acabou preso, Nas ruas estranhas da morte. Vive agora uma vida nova, Com os amigos dados pela sorte. O Edmundo tentou, Conduziu um camião, Andou nas obras e fez, Estiva em pleno verão, De cada vez que se endireitava, Logo algo o derrubava. Culpou disso o mundo, De ter sido ladrão, Por ter nascido, Numa escada, Feita de vão.

Barbado

Agasalho-me de vento neste chão de solidão. Os meus cabelos puxados em remoinho não me deixam avançar. Nos recantos escuros jazem vivos meio mortos homens. Barbados e assustados com a sua própria presença, amedrontam a presença de outros homens, como se todos os homens não fossem homens também Este fosso entre o mundo e a vida não escolhe a crueldade com que se demonstra a existência. Fazem cobranças os homens e deus não interfere. Esse ente amantíssimo que se distrai com a miséria sempre dos mesmos. Fazem cobranças os homens na terra e deus no céu. Há quem nasça para pagar sem nunca nada receber. E este nada é tanto e tão pouco. Um nada feito de abraço, de beijo, de um café quente, de uma manta, ou de um pão. Enquanto na esquina dos barbados a vida é falecida, passam rápidos carros potentes com uma vida que parece vida sem a ser, talvez. A minha vizinha de baixo geme de noite, não sei se é a ressonar, de sofrer dormindo, ou se se masturba a noite toda. Oiço-a ao fumar nas madrugadas d...

Natal !

Estranho! Estranho-me. Sou tão feliz por vezes, aos bocados. E não me chega. Penso na morte e não a temo. Talvez o desconhecido me fascine e atormente. Aqui também não se faz nada. Agora vem aí o Natal. Não me fodam com o natal. Nem as luzes me cegam, nem os discursos apinocados e prenhes de uma hipocrisia latente me faz vir. Já não ejaculo.   Lá tenho eu que receber a merda das peúgas aos losangos com pêlo que o meu primo Carlitos me vai dar pelo vigésimo quinto ano consecutivo. Faço má cara e a minha mãe diz:   “Não liguem, ele não gosta do Natal”. E a puta da Francisca com tom hipocondríaco na voz, diz: “Então Jorginho, não gostas do Natal porquê?”   Nesta fase já estou com a tensão arterial a 14 / 20 e vale-me a cumplicidade no olhar da minha filha. Antes o FMI aterrar na portela que o natal, e o menino Jesus, e a vaca e o burro, e o José, e os reis magos e por aí fora. Porra não há paciência. Vá lá, para não ser tudo mau há as azevias, vale por isso. As azevias.   Estranho! Estran...

Nem é trabalho, nem hobbie, é paixão.

Nem é trabalho, nem hobbie, é paixão respondi. São braçadas de beijos aos molhos. São moitas verdes e sombrias. São pássaros migrados e pertences sazonais de vida aqui. Nem é trabalho, nem hobbie, é paixão. Estar por aqui sentado a ver a vida das pessoas passar, apressadas, devagar, muito decidas, inseguras. Sabias que pelas passadas vejo as pessoas? Nos olhos colados no chão ou enfrentados, vejo o doce e o azedo da alma, a dor e o contentamento. Nem é trabalho, nem hobbie, é paixão. A medida de aferição são as crianças na sua genuína e espontaneidade. Estar por aqui é ver-me de fora para dentro. É ver-me de dentro das passadas dos outros. Embora os pés sejam os meus. Os que me mantêm na terra, os que empoeirados e sinuosos me descansam à chegada e me enfeitiçam sempre à partida. Os que também pensam em desistência nunca anunciada. Nem é trabalho, nem hobbie, é paixão, este ler e pensar neste fundo escrito por letras vagabundas, emergentes e sensoriais que me estrangulam se as deixar v...

Olho-te com tamanha cegueira que cego em ver outro alguém

Olho-te com tamanha cegueira que cego em ver outro alguém. Desassombro este, excluído de mim. Transformas as cores em sabores e os sabores em cores. As certezas em incertezas e as incertezas em espera. Uma espera agonizada de um momento por encontrar. Espero-te. Não sossego enquanto não te vir dobrar a esquina em silhueta. A noite traís-te e o dia assumiste. Encontro-me chorando e vertendo lágrimas que só tu podes secar. Prendes-me a respiração e sinto tonturas, o teu cheiro tira-me esta ressaca, como se a privação de um químico tu revolvesses. Preciso que me enchas o peito de ti. Que me percorras o coração e me lambas a alma. Preciso de voltar a ver e a ser dono de mim. Penhoras-me os sentidos e num leilão anuncias a minha existência. Vivo o teu viver e falece a minha existência na tua. És feita de uma rebelião dura e rude e patética em mim. A frequência com que me invades é desumana e servil. Vou tomar um ácido que me faça mentir e voltar a ver rosa o mundo. Não tenho vestígios de ód...

Matei o caminho

Levantada vejo a poeira içar-se na passagem pelo trilho. Percorro os montes que me elevam íngreme, ao lugar onde sinto o mundo bem longe, onde me sinto afastado e distanciado. Amo esta serra feita de picos onde a paisagem muda e a perspectiva é incessantemente diferente. De um lado vejo o mar galgado como que assustado e apressado. Do outro, vejo o rio e as torres da basílica voltadas e erguidas para o céu. Oiço o ressoar de uma música antiga. Gosto. Declarei o meu afecto a esta música. A sua forma e plasticidade continuam actuais. As músicas que me fazem sentir emoções são intemporais. Esta é uma delas. A simplicidade é o que a torna bela. A existência feita de simplicidade é a sua complexidade.   Adorno de afectos as paredes da minha sala. Tenho fotos penduradas protegidas pelo pó. Tenho cores e estores que levanto ou baixo, mediante a luz que pretendo que governe aquelas horas da minha vida. Deposito a minha fidelidade nos momentos que traduzo em especiais. Ontem vi fotos e vivi tod...

Dezanove de Novembro

Fazes sentido na minha existência. Dás-lhe sentido. A obra mais perfeita e concluída da minha vida. A passagem de conceitos é a fortuna que te deixo. Gosto do teu ar arejado, da tua mente aberta, da forma como cuidas de mim e deixas que eu te cuide. O teu olhar terno e vivo. A tua voz, o teu dormir sossegado, o teu cheiro, a tua preguiça, a tua gargalhada, a tua integridade. És o meu prolongamento, a semente que por cá ficará e procriará. Tu sozinha és a minha família. És o meu amor incondicional, sem medo de te amar, por inteiro e completo. Nasceste num dia como o de hoje. Chuvoso. Os primeiros pingos de água que colheste caíram do meu rosto e sabiam a sal. Era tanta coisa junta nas minhas tripas, estômago, mente e coração. Era tanta decisão adiada e tanta obra por fazer, tanto caminho por percorrer e tanta mudança por executar. Uma esperança do tamanho do medo que me paralisava. Um caminho sinuoso e tanta força escondida e dissimulada dentro de mim. Bastava um dia apenas. Somente pre...

A impotência da modificação estrutural do desejo

O céu enegrecido de nuvens transparentes carregam formas baças que embaciam os olhos de saudade engrandecida. Os portões semicerrados escancaram uma alma seminua e assustada. Branda a impotência da modificação estrutural do desejo. Como eu gostaria de alterar a estrutura física do desejo, como se de uma molécula manietável se tratasse. Como seria o meu corpo se fosse um laboratório e lá eu pudesse decidir ou não este sentir. Vejo uma sala branca e iluminada, com tubos de ensaio e os meus órgãos em cima de uma bancada, mutáveis, numa transformação escolhida. Quero mudar de cor e experimentar ser negro, ter canção e ritmo e um novo soro a correr-me nas veias injectadas de vida, mais que morte outrora injectada. Quero experimentar pensar duas vezes sobre o mesmo assunto, antes da impulsividade de uma decisão adiada ou tomada. Escorreito deliciar-me com um novo oxigénio e uma nova fonte descoberta e límpida de pensamento. Depois vejo-me reconstruído, continuando imperfeito, que não é na pe...

O teu encanto é o meu canto

O teu encanto é o meu canto, Sudoeste, Mar inventado, Canto do teu encanto. Desalvoraçado,   Neste canto, Meu e teu, Nossa vertente, Cascata de cores, Depositada no lago.   Onde me vejo narciso, Esplendorosa, Beleza, Desejo que perto, Me vejas.

Sob o Indico adormecerei

O entrelaçado caminhar a dois é um recomeço diário de uma obra inacabada. Tal qual uma viagem. As viagens não se repetem mesmo repetindo-as. A forma como se sentem é única e primeira. A especificidade do sentir não tem nota explicativa ou sensorial. O pragmatismo da racionalidade é um recomeço diário na forma e no sentido da vida. Vive-se porque se sente, não se vive por se está vivo ou pensa. Enxergo o meu peito de uma visão distorcida do bairro coberto de folhas caídas da época. As árvores despidas não me parecem mulheres nuas. Gosto de pisar as folhas nas madrugadas que humedecem as folhas caídas e escutar os sons que fazem o silêncio. Gosto delas molhadas e da sensação húmida e entufada que me dão. Gosto de caminhar por entre os prédios e saber que alguém me espreita por detrás das cortinas presas em laços. Em breve irei adormecer por cima do atlântico e tomarei o indico nos braços ao acordar. Acordarei naquela terra de areia quente e molhada de blues gemidos pelos escravos. Bebere...

Solto-me atracado

Nos meus dias amanhecidos, Há uma luz que me levanta. Sorrio ao dia espreguiçado, Esta existência que me encanta.   Salto para o dia felino, Margens do rio? … Desafiam! A melancolia e a maresia, No céu carregado se abriram.   Protejo o céu azul cinza, Dispo-me da estrela lá presa. Visto o agasalho da serra, Sufoco o meu olhar de beleza.   Suspenso e intenso admiro, Admito a caminhada. Sou nada feito de tanto, Sou feito de tanto e nada.   Num porto por inventar, Sou uma firme estaca atracada. Sou navio solto ao sul, Vela, vento e madrugada.

Espalho-me

Espalho-me na cama ao acordar. A viagem que me levou ao lago vermelho foi atravessada por uma planície de eucaliptos com aquele cheiro que me entra pelas narinas em rompante direcção aos pulmões, coração e mente. Chego ao lago e deito-me na margem coberto pelo céu estrelado e baixo. Uma tontura invade-me como se sentisse o movimento circular da terra. O silêncio redondo como a lua embala-me. Tempero a vida com momentos meus e precisos. Dou-me bem com a escuridão e o silêncio. Preciso de me encontrar com eles e gozar a sua presença e doçura. O sol mais tarde cegou-me em raios que eu fintei com o olhar. Deixei-me invadir por pensamentos e sonhos. Sonhos claros e cristalinos como música de água a escorrerem em seixos no seu caminho em direcção à foz. Musica, inspiração devota. Percorri um corpo imaginado prolongamento do meu. Masturbei-me no sentido prazeiroso de os meus pensamentos serem reais. A masturbação é pensamentos recordados e saudados. A masturbação tem pouco de acto físico e qu...

Madrepérola, caramanchão

Sou sólido, feio e leal como o Cesário Verde. Tu és bela, frágil e assustada como descrita. Vejo-te pelo meu olhar engravidado pelo volume do meu peito de tanto te querer. Todas as esquinas da cidade anoitecida são mesas, cadeiras e bares onde te encontro sem te querer encontrar. O que eu queria mesmo era matar este pensamento feito de nada e cheio de ti. Malévola sorte entrincheirada entre o fosso recordado e a planície vivida. Má sina esta. Sorte a minha que não muda com as estações. Este verão primaveril nunca mais se mistura com as nuvens carregadas e escuras do dia em que partiste. Ouvir-te em debandada é como a chuva que molha a praia depois de um dia quente que fez morena a tua tez. Nas gaivotas enlaço as mensagens que te quero dizer quando não te tenho, e que não digo quando te tenho a respirar nos meus braços. Fortuna minha cantada neste Lusíadas feito de vida e caminho. Madrepérola, caramanchão, jardim suspenso de cheiro rosas e flores.

DMF

E por vezes as noites duram meses E por vezes os meses oceanos E por vezes os braços que apertamos nunca mais são os mesmos E por vezes encontramos de nós em poucos meses o que a noite nos fez em muitos anos E por vezes fingimos que lembramos E por vezes lembramos que por vezes ao tomarmos o gosto aos oceanos só o sarro das noites não dos meses lá no fundo dos copos encontramos E por vezes sorrimos ou choramos E por vezes por vezes ah por vezes num segundo se envolam tantos anos.   David Mourão Ferreira  

Quantas almas tenho?

Quantas almas tenho? Não sei! Tenho tantas quantas as pessoas que eu sou. E eu sou mil e não sou nenhuma, Mais do que as que represento, Sou as que vejo, Mais do que aumentam os meus olhos. Sou as que beijo, Mais do que aquelas que fujo. Sou isento e abundante, De afectos viajante, Algoritmo e soma, De alegria e afecto. Escuto de dentro do mar a minha mãe, Que chorosa me encomenda, Aos deuses que me torturem, Porque em mim não tem mão. Não me vergo solícito ao seu desejo, Arremessado de boas maneiras, Não sou o projecto sonhado. Nem sabe bem o que sou, Sou poeira como o nevoeiro, Desconhecimento e fantasia, Nem sou o filho da minha tia. Sou desconhecido sem alma, Ou com mais almas que as suplicadas, Quantas almas tenho?

Na mouche

Equilibrei-me de bêbedo sentido e joguei no alvo as setas. No centro um ponto avermelhado acenava-me. Na primeira seta seteie firme na sua direcção, era o arremesso ao significado da mais que palavra, amizade. Na mouche. Acertei mesmo no centro.   Segunda seta. Firmei no alvo o meu olhar e era a hora de acertar moribundo na minha maior vivência passada. Errei. Acertei longe, mesmo fora do alvo. O que tinha vivido lá atrás estava vivido, jamais poderia voltar a viver, não mais acertaria onde outrora já tinha acertado.   Terceira seta era para mim mesmo. Para a minha força, decisão, pensamento, estrutura, e o poder de alterar o que quer que seja, assim o sonhe e decida. Centrei-me ao centro, centrei-me na minha vida e lancei. Quase no alvo. Este quase não é mais do que apenas o trabalho que existe entre o acaso que deus nos dá, a que chamamos sorte. A sorte é o intervalo entre a preguiça e o trabalho.   Quarta tentativa. Quarto lançamento. A minha família. Um pouco ao lado, quer dizer qu...

29.10.2010 - 21h

O coração na garganta embarga-me a voz. Fico rouco e as palavras são difíceis de sair. As pessoas representam-se-me como holofotes dirigidos a mim que me cegam. Sufoca-me e atordoa-me o emaranhado emocional. Revejo as cenas uma a uma, volto a vivê-las no presente e tardiamente ao adormecer. Espasmos acordam o meu sono e as voltas transpiradas na minha cama retrocedem-me a tempos idos, voltados ao pensamento. Sinto um sabor amargo de recordação na boca e um medo explícito no olhar. Abraços reconfortaram-me e trouxeram-me o dia. A refeição quente com amigos. As gargalhadas voltaram e sentaram-se à mesa connosco. O percurso junto e percorrido de um caminho com historia. A conversa simples e banal, fortuna feita disso mesmo. A madrugada que entrou purificada com a chuva que caía abundante e torrencial. O sossego da quadra das três da manhã. É bom sentir. É bom emocionar-me. O mar corre mais em baixo na marginal. Por detrás das nuvens, ilumina-as uns clarões de relâmpagos. Tenho o olhar che...