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Mostrando postagens de abril, 2017

casa III

forrei as paredes e o tecto, os degraus e o céu com os teus beijos, violei a fechadura da porta de entrada, podes entrar, o teu cheiro está espalhado pela casa inteira, por mim todo. o chão do corredor mantem-se suado, com os nossos corpos por ali espalhados, como a mesa, que continua despida e as cadeiras tombadas.  

2075

Enraizada turbulência recorrente e primaveril, de tudo o que sei e sinto, de tanto que digo e minto, no disfarce e tentativa, de não sentir o que sinto. Traição mais do que traição, é não saber a virtude, não entender as minhas mãos, o destino e o caminho, não saber a direção, dos meus passos e ilusão, no recomeço diário, das noites que não adormeço, não ser eu a tempestade, a angústia e a coragem onde faleço.

Maio 17

Maio mineiro, siderúrgico, camponês,  Terra arada de luta, Sol que queima de dor a esperança,  Sempre promessa, Sempre adiamento, Sempre o medo de vida igual para os filhos, Sempre o silêncio presente e a prisão como ameaça, O burguês empanturrado, A mordaça como palavra, Vil cabrao ditador sem sangue que te corra nas veias, Sem sentir que te esfaqueie o sono, Sem remorso, culpa ou alma Profeta domingueiro engravatado,  Doador de esmolas roubadas ao meu salário, Pedinte do ceu habitante do inferno.   Agora chegou Maio,  O povo saiu à rua, Bondosos, perdoámos a revolução.       

Coração

" ... Só podia mesmo adoecer do coração. Tentei bastante. Pratiquei. Testei. Coração em obras. Não pisar ..."  

Mundo (s)

Estás de costas voltadas  para o mundo? Perguntou-me. Nem respondi. Apenas pensei. Não há ninguém de costas voltadas para o mundo. Isso não  existe, é impossível. Se o mundo é redondo, tem céu e chão, mar e luar, jamais estarei de costas para o que quer que seja. Estarei com certeza e, penso que seria essa a pergunta, "de peito aberto para o mundo?" e, assim sim, responderei: - estou de costas voltadas para a ignorância, para a idiotice, a maledicência, a realidade aumentada, o ajuste de interesses e a renegação da essência, - estarei de peito aberto sempre para o amor que me avassalar, tendo em consciência a especialidade que tem que possuir o ser que me tocar. Não. Não estou de costas voltadas para o mundo. Estou de peito aberto por encher. 

Ode ao equilibriozinho

Gosto de pessoas desequilibradas, crentes e cientes delas próprias. Sou igual. Já o contrário fere-me. Pessoas desequilibradas apregoando moralismos caducos, sempre com as mãos cheias de pedras para arremessar e equilíbrios esvaziados de ego e (des) conhecimento. A liberdade fanática da escolha do pensamento não construído e próprio por permuta com as correntes equilibradas do pensamento, são a confusão entre a liberdade de escolha e a escolha da liberdade . O chamado pensamento encarneirado ou invés do pensamento divergente. Um, oferece pertença quase "prostitucional". O outro, solidão e a verdade pouco "numérica" da amizade.  Bendita seja, senhora do desequilíbrio; da ilusão e da revelação.  

Abril com cada vez menos Abril dentro

Mais um Abril com cada vez menos Abril dentro, menos gente, menos sonho, menos poesia, menos canção, menos sentir, menos emoção.   Mais um Abril com cada vez menos Abril dentro, onde parecendo que não, de desilusão adoeço.   Podes voltar Abril sem medo, que Maio continua a florescer,  nalguns poucos resistentes de nós.

Beijo Sandra

No nosso último abraço senti que seria o último. Não estou triste. Sei que não eras pessoa para viver sem ser por inteiro. Foi cedo ? Sim foi. Injusto?  Sim foi. Dá-me raiva ? Sim dá.  Estas questões praticamente filosóficas não reajustam o que preciso ajustar. Guardo-te em uníssona sintonia junto ao mar, a fumar na minha varanda, na planície onde passeámos, nas viagens que fizemos, nas risadas que promovemos, nas vezes que nos zangámos (e ficavas tão gira zangada), nas vezes que nos unimos. Partiste. Estavámos unidos. Juntos. Fiquei contigo. Levar-te-ei  quando for, como me levaste a mim Beijo sandra   

Ruas

Disforme. Vulnerável. Condicional. Musical. Elegante. Raciocínio. Desejo. Saudade. Medo. Fuga. Cheiro. Flor. Mãe. Mar. Madrugada. Passado. Sedução. Tesão. Lua. Noite. Planície. Rio. Foz. Perfume.   Na rua onde cresci levar-te-ei a cada beco de mim... 

Passos e voo

estas asas são os meus pés, o voo os meus passos, o sonho a antecipação da vida. 

Ofellia

Não poderei nunca ser nada ou o tudo que me ordenas que seja; mesmo que o peças de mansinho e pareça não ser uma ordem. Sabes, essa desgraça para mim não o é, nunca o foi, nunca o será. Para ter pena de ti, teria que a ter por mim igualmente; que é essa a disfarçada ordem que me pedes. Não dá. Não quero. Juízo gaiata, Saudades de ti pessoana Ofélia.

Sapiência

Reparo amiúde em homens cheios de respostas, que tudo sabem, menos viver.  

Mendicidade

Não suporto a mendicidade humana, não a afecta aos mendigos, essa é genuína e necessária pelos mais diferentes factores humanos e sociais, escrevo, falo,  da mendicidade manipuladora e narcicista emocional, tentativa descontinuada e disfarçada da culpa que não existe. Detesto. 

Adiar

suave, sem que me despertasses do cansaço com que me adormeceste,  senti o teu cheiro a cantarolar nos teus lábios, os meus, ensonados, cantaram o poema que embalava a tua boca, dizia assim: - adiar a felicidade é matar a vida que não repete o que se adia -      

Fuso horário

Deixa todas as tentadas palavras que te disse assim como estão: - sossegadas, - não percepcionadas. O mundo em alguns mundos tem fuso horário diferente, gira ao contrário e as flores têm perfume díspare. 

Velho e visceral amigo

"... Sabes aquele velho amigo que não vês há três meses e quando o revês, parece que a vida em noventas dias caiu de uma só vez em cima dele, albarroando-o, talvez assim rapidamente doa menos para todos, para ele, e para nós. Irreconhecível com pacotes de exames mais e menos sofisticados debaixo do braço, lá vai adiantando o que nao quer falar e solta aquele velho e terrível "está tudo", e seguimos em despedida com um terno "paz em ver-te". Sabes quando revês aquele teu velho e visceral amigo que és praticamente tu? ... "  

Partida

nem todas as horas são de partida, a hora em que partiste sim, foi de partida, foi a hora em que a planície escureceu com o céu, foi a hora em que o meu olhar morreu no teu.

questão evolutiva de consciência e sonho

Não sou hoje o que serei amanhã, é a minha consistência que provoca a minha solidão, tem a ver com a essência do que creio, com a estrutura de pensamento, com a ausência de conceitos duradouros e solidificados do conhecimento que não foi amizade, compreendo que não poderei acompanhar-me hoje, com quem me acompanhei ontem, é uma questão evolutiva de consciência e sonho.

escrevinhado (09)

Escrever não é o meu forte, mas é o refugio mais seguro e fiável que tenho. É o sitio onde tudo pode ser o que eu sou.

sinfonia de rosas no canteiro

sinfonia de rosas no canteiro, púbere manifesta intenção, o mar? distante madrugada, lua espelhada, turva noite, e as rosas ensanguentas, dançam espinho com espinho, sem cor, sem cheiro, em sinfonia, as rosas no canteiro.

Corpo de sonhos

deixo o meu corpo partir, um pouco hoje, outro pouco ontem , e será sempre mais corpo que se desfaz dos sonhos. 

impossivel

não é possivel inventar outra vida mais breve do que esta, mais longa do que outra que não consigo inventar,   não é possivel ser mar se sou o sol,  ou ser campo e alentejo,   não é possivel, o impossivel não desabou.    

Livros fechados

Há livros que não são sequer abertos. É como viver e não experimentar o amor, o cuidado que tem o amor   Devia ser obrigatório experimentar o amor, como os livros que ofereço serem lidos. Sejam premio nobel ou não, são um pedaço de mim partilhado. Quem não me lê, não lê os meus livros também. É como não cuidar de uma flor que queremos muito no nosso jardim.     

se deus me tocasse

já pedi a deus que me tocasse, que me ouvisse ou lesse,   me explicasse as más decisões e as incongruências latentes, espero na pedra em que lázaro se sentou, nao se trata de lepra, é hipertensão e afins. 

Com filtro

"..  Vai, leva as fotos que já não precisas rasgar. Agora basta apagar da memória que trocas a cada seis meses, do dispositivo onde mostras o que seria somente memória sensorial. Tudo o resto se troca e regenera, com filtros para baralhar a realidade. Gosto da descrição do preto e branco, e da pacatez dos momentos..."  

Geme o vento

quando o corpo cede à ilusão do ódio, o amor desvanece-se, fica mórbido e doente,   renasço das trincheiras onde me embalei, mudo de pele, troco de livro,   cantarolo e volto a voar; porque em mim geme o vento sem parar.    

Acervo

Todo este acervo patrimonial no meu peito, ajusta a decisão com que me lanço à vida. São dias miseros e outros não. Dias inacabados e esses são, o passado. Dias de hoje que outros não há.     

Silêncio III

Nao sei fazer poemas que não sejam de poesia, de segredos arrecadados, de gente e melancolia, de minorias abastadas, não me prendo eu algum dia, que sinto mais que miséria, em retratada alegoria, sonho que sou o sol, a cama, o lençol,  linho do mais suave tear, mulher com corpo de mar, segredos escritos para orquestra, e eu, na noite a dançar.   escrevo o que escrevi no silêncio que reconheço, sou ciente que apodreço a cada dia no teu encanto. 

Jardim de inverno

Há zonas da minha vida que são o mundo em mim. O chiado é assim todos os anos no s Luís. Já faz tempo que as mesmas caras se trocam no incomum gosto comum. Celebro o mundo numa das zonas da minha vida. É festa o jazz em mim.   

Nascer ou por do sol?

"... mas quem te disse que quero ser um bom rapaz? quem te garante que ser uma boa alma é aquilo que tu crês que eu seja? Quero ser este caminho que trilho, não quero ir por aí, por ali ou por outra vereda recomendada onde tudo é igual, feito com as mesmas cores e palavras. Eu sou pedaços reconstruídos e reciclados pela dor que me infligi, sou reconstrução, e, cada desamor, certifica e confirma o que decifrei e declamei. Sempre assim o foi. Deixo escrito em cada dia a morte e a vida que vou experimentando, jamais vou acreditar em todos os adjetivos com que me cravaste, ou nas opiniões circunscritas com que vais tentando acreditar na tua própria verdade. Onde foste tu buscar essa ideia de que sou um bom ou mau rapaz, ou se sou sequer uma alma, o nascer ou o por do sol ? Sou uma semente inacabada de uma colheita por semear..."   

Abril novamente

Abril outra vez sem que haja novamente abril. Abril é sempre um sonho. Não se acrescenta abril a todos os dias do ano. Restam meia dúzia de resistentes, duas gerações hipotecadas, uns poemas como lema é uns saudosistas por sistema. O amor, esse continua a ser a causa e a consequência. Sindicalista militante e libertário, sempre.   

Excerto de setembro atrasado

"..  Depende disse eu. Tudo é terra. Nem tudo é caminho. Já percorri terra que não foi caminho. Já dei a mão a pele que não me queimou. Já fui aos teus olhos poeta porque o teu corpo ardia pelo meu, mas a poesia nunca a entendeste com a alma. O corpo e a alma, só são caminho, se a poesia e as mãos forem calor. Depende disse eu novamente. Tudo depende. Uma coisa sei. Na madrugada quando quero ser manhã, há possibilidade, mas quando me sinto demasiado composto significa que não entenderás nunca a minha poesia, porque na verdade não sou um poeta, apenas me expresso em poemas que o teu corpo surdo quis saber, mas a tua alma cega nunca viu. Mais cedo do que tarde, sempre soube que o teu corpo cederia à banalidade dos corpos. Eu seria sempre a prisão de que te quererias desencarcerar. Duas línguas, dois paradoxos intangíveis. Não é certo nem errado, depende. Eu entendo. Sou um poço de entendimento. Não atingiste como o não o fizeste com o Torga . Como te digo, não depende mais.  O fascí...

Barba de três dias

Depois de tanta estrada, ali estava, azul, anil, descolorado, com o céu depositado em ti, mar refúgio de mim, distante da agonia que te deixei na cidade. Vim sem os meus órgãos. Deixei o coração numa planície antes de aqui chegar. Fico melhor assim, à mercê da alfabetização do meu peito, barbado no rescaldo desta viagem.   

Flor rasa

Quando acordo e percebo que afinal os meus dedos já não recordam os teus, e a saudade afinal nunca existiu nas palavras que me disseste, ruidas e infundamentadas, apenas confirmo o que te adiantei de cada vez que discordaste do meu amor. Hoje, as fotos que guardava ganharam o rosto que escondeste. Passei a ver-te e, és afinal o que sempre vi, és a flor que deixaste morrer.     

Tecnologia do amor

Nao existe tecnologia para a amor. Não existe control + alt + delete, esc, enter, pf10, ou print screen. O amor é visceral. Imprevisível. Duro. Suave. Doce. Amargo. O amor é a inexplicável vontade de deixar de ser o passado e passar a ser um uma carta em branco, pronta a ser escrita por quem não sabe escrever. É como ser lançado em alto mar e saber que a praia será a nossa noite acompanhada e bem vinda.  É passarmos a ser a música que ouvimos, e as paisagens que nos arrebatam. É trocar o juízo pela loucura e perceber que não faz mal nenhum essa permuta, porque o amor é isso mesmo, a permuta entre nós e alguém, e querer ser essa troca com o olhar vivo e esperançado.  

Permanência

Vivo em permanente atalho e adaptação, de paixões escondidas, surpresas extremas, noites disruptivas e a cada dia, acordo, produzo, ensino e aprendo.   Depois volta o:   - atalho, a adaptação, as paixões escondidas; as surpresas extremas e as noites disruptivas.   Vivo em permanência. Acordo. Produzo. Ensino e aprendo. 

Moralmente

Tenho espasmos há anos sem que seja necessário privação física que seja responsável por eles. Tenho em mim crises criativas e angústia de não ser dedicado exclusivamente à arte. Sinto uma vastidão incontrolável de conceitos por debitar, um delírio avassalador de amor, uma raiva de mim, uma solidão precisada, uma incomum forma de ser, uma inconstante presença metamorfose da ausência. Sinto a minha história no presente sem que seja necessário tempo para que o seja. Sei ser a diferença. Sou o pensamento milimétrico que não se escapa ao sentir. Sou a incompreensão, o bestial e a besta, sou-o para mim mesmo sem necessidade confirmada de quem comigo se cruza.  Sou a moral da imoralidade. 

num jardim escrevinhando

“… as minhas necessidades não as suprimo encavalitando-me em alguém, nunca assim o foi, nunca assim o será, mesmo que no carnaval se mascarem de cavaleiros andantes. Como não aprecio o natal, igualo a páscoa e o carnaval. Retiro o 25 abril, o 1º de maio e o 6 de dezembro, merdas minhas … “   obs: num jardim escrevinhando