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Mostrando postagens de julho, 2011

A subsequência anterior

A meio da década dos quarenta para os cinquenta, começo a entender o trabalho como uma atitude que não se ausenta às 17h de um dia inacabado, ou numa sexta-feira de inicio de descanso semanal. O trabalho é a desordem entre o desempenho e a necessidade do empenho. O trabalho é-o a qualquer dia ou altura, desde que as ideias surjam como complemento de resolução. O trabalho é cognitivo e emocional, e é um privilégio senti-lo assim. A perspectiva transformasse com a mudança pessoal. Os interesses alteram-se e os objectivos preenchem-se. O trabalho é auto-motivação, capacidade permanente de reinventar o prazer, e o prazer em aprender que tudo se transforma, e que provavelmente existe sempre outra forma válida de o modificar. A resistência à mudança aniquila a reinvenção emocional. A amotivação é o piloto automático em que se vive. Conceitos velhos e sórdidos de que já nada há a fazer. Velhas mentiras, destroços da alma. Longe vai o tempo em que a depressão de segunda-feira era viva. Hoje o ...

O moinho da tua varanda

Caiem-te pregas de sorrisos do olhar. O tempo farto está parado pela escassez de correria. Prova-se que o sossego é isento do tempo medido, logo a felicidade é eterna e sem contagem. Descontado é o recomeço, esse sim, efémero. Mil pessoas não nos retiram a individualidade de estar. Imprevisíveis os acordes brotam numa dança cúmplice e sentida. Envergonhas-te ao dançar. Pseudo comprometida, descritiva de descrição. Amas a deus e ao diabo. Os gregos são os teus Adónis e os troianos os teus guerreiros. Existe em mim uma massa a que me dás esse ajustamento, onde existe uma mão cheia de tudo, silenciosa, e uma cheia de nada e ruidosa. Alvitro pensamentos coloridos de sonhos já inventados. Do alto da tua varanda há um moinho. Um moinho que ouve da torre sineira, as badaladas da madrugada acordada e desperta, um mar de sorrisos e afectos. Os lençóis transpirados são parte de um todo feito de vida, feito de mundo. O sossego do empedrado, da praça que vive em frente à tua janela, testemunha o f...

Quero assentar o meu azul por aí.

A mãe das dores é a saudade, Filha de pai incógnito, Sem irmãos, Tem a mágoa, Distância e verdade, Ausência, Aprendiz. Por vezes, Fui feliz, Outras homem apenas, Morte assistida, Anunciada vida, Quero assentar, O meu azul por aí.

Luzinha

Descalcei-me e atravessei o rio semi-vazio, empedrado de seixo enfeitado de musgo, enraizado no leito. Na outra margem sentei-me e fixei o espelho que me presenteava o outro lado de mim. Revi-me, revisitei-me, avivei-me. Há uns anos atrás, tinha iniciado ali a minha viagem. O silêncio apenas despedaçado pela água a correr, é como a fantasia do teu vestido de cetim, na tua pele a nascer. Esta paz, é de um tamanho tão desmedido, que procurei esvaziar-me de mim e encher-me deste momento. Fechei os olhos e reparei numa brisa que não tinha percebido e pensei: - fechar os olhos faz-me sentir mais, descobrir maior beleza e uma satisfação soberba, feita desta mistura natural dos elementos que o ruído me rouba e distrai. Pensei em todas as vezes que me zanguei por estar alheado, em todas as vezes que me maltratei por não ouvir o silêncio gritar dentro de mim, por todas as ocasiões em que me desgastei por não entender a escolha que a natureza nomeia em meu nome. Pensei em todas as vezes que inic...

Aos "baltasares" cá do burgo

A tarde põe-se com o sol. A noite jorra abruptos sons estonteantes que aclamam aquela voz doce vinda do céu. Alguns festivais decorrem momentaneamente. Festivais para não pensar, nem sentir. Não são três dias de música, são três dias de alienação. Filmei um pedaço momentâneo de felicidade e publiquei numa rede social, esta adesão inevitável de contacto e pertença ao mundo. Um dia, deserto adentro, ouvi música na sua forma  rudimentar, uma forma mágica que as palavras não sabem entender, mas que o coração sabe explicar. Um sitio onde Robert Plant se encontrou, um sitio longe, um lugar chamado Mali, onde o calor do dia sucumbe ao frio da noite. Um sítio onde a areia é do tamanho de uma duna que cresce de altura a cada passada. Um sítio onde a música se reúne, onde não existem polícias, seguranças, barreiras, ou vedações da alma. Um sitio que fez de mim outra pessoa, e me recuou à essência humana descapitalizada e honesta. Que me devolveu à forma mais genuína de ser, e me confirmou a desc...

Opera

A luz encadeia, Misturada com as palavras, Jardim de jazz, Mal a noite anunciada, Sabia da espera trocada.   As letras somadas, Não são o meu nome, O meu corpo dentro do teu, Não existe espaço, Nem o pecado é teu.   Acontece sem esperar, Noite não dormida, Pior que matar, Testemunha feita de rio, Uma opera sem tocar.   Não eram as tuas mãos, Não eram as minhas, Estava só, não pensava, Confiança desconfiada, Flamejou-se em mim o que acreditava.

A possibilidade para falar das coisas

Quando se escreve um texto, se ficciona ou observa, existe uma tentativa proeminente, avançar em direcção à verdade, e avançar em direcção à verdade, não significa a verdade absoluta, que é um termo que nem sei sequer se existe.   A verdade que se quer alcançar pode ser faseada, pode ser a verdade do momento, a verdade conseguida, a verdade percebida e/ ou a mensurável.   A verdade transforma-se com as pessoas, os contextos, as prioridades, tal como os termos, sempre ou nunca, são demasiado definitivos, a verdade é adaptável e adiável, especialmente neste País preconceituoso e “distraído”.   “Quanto mais nos elevamos menor parecemos aos olhos daqueles que não sabem voar”, bem como, ser “filho de um deus secreto e selvagem”. Nietzsche.   A verdade pertencente a Heidegger na sua essência remete-me para as não “verdades” que temos como verdade. Aquelas supostas verdades que recebemos todos os dias desde o início de nosso entendimento, a verdade como um todo, a verdade nela mesma, como pr...

Malemolência

Sentir dor é inevitável. Sofrer é opcional. A escolha de dor é-me, ou não infligida por critérios que não os meus, logo desresponsabilizada. Devolver a dor, é ter uma alma pequena e contraria ao que acredito, já sofrer é opcional. Sofrer tem intrínseca uma decisão. As minhas decisões valem muito mais do que a desonestidade intelectual não pactuada. Estes pensamentos gemem em mim, depois da intensidade profícua e descontrolada do entusiasmo da entrega. Vergo-me às escolhas que a vida tem e acredito no entendimento lá mais à frente. Ficar preso nas escolhas de alguém, é impedir o meu próprio crescimento. Nasço todos os dias renascido, sou um ser mutável, atento, perspicaz e de boa leitura social por necessidade. Não ressinto, muito menos quero ser ressabiado, ou perder a ironia dos momentos no ajustamento da insistência adulterada e profiláctica. Pensamento divergente é uma escolha que me faz sorrir, no meio de um campo de milho verde em crescendo. Socorrer-me das estradas de pó molhadas...

... “não há nunca nada para mudar”

A simetria angular do prédio sugestiona-me ver as sombras agitarem-se. Os velhos e altos choupos pelo menos tão velhos quanto eu, alcatifam o relvado verde de amarelo feito de folhas, emudecem as passadas e calam os movimentos. Tenho uma planície perdida de fim no meu olhar. Descubro-me nestas viagens doadas de tempo completo, nesta metade de País sossegado, que me ocupa e frequenta. Não sei se no litoral troveja e aqui está seco, e a terra em pó. As notícias quando me chegam já são azedeiras. Não sei a Sandra foi mãe, ou a Zulmira enviuvou, se o padre se casou, ou a Palmira do alto dos estorninhos se converteu do malévolo comunismo ao venturoso catolicismo. As minhas noites são as minhas notícias e a minha actualidade é esta metade de País que me ocupa e despreocupa. Uma fase de mim acabada, logo outra iniciada. Estar activo é o meu antídoto anti-dormência, afinal, a minha boa vontade é ainda do tamanho da, “da década de oitenta”, da mesma espessura, mas com um peso diferente e uma me...