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Mostrando postagens de julho, 2021

Estação mato miranda

Ao longo do linha do caminho de ferro, esperava a cada hora a máquina que te havia de trazer da cidade, eu, o campo, as arvores, e a bicharada por companhia.   Todos, na espera que a próxima estação parasse em mato miranda. 

a hora de praia-mar

Vai de verso em verso, de perfumada em perfumada cor, de sílabas descondizentes e soletradas muito devagar. Vai de canção em canção, de noite após noite, e este jogo - bom - de presenças, nunca mais termina em nossas bocas desejadas. Foi de silêncio em silêncio, de aguardadas horas apetecidas, de tanto mar observado que eu já julgava saber - a hora de praia-mar - Foi, depois, de saudade em saudade, de aflita melancolia, de noites sem sílabas soletradas mesmo devagar - muito devagar - Foi o fim.

Acorda-me de qualquer das formas, voltes ou não

Se mais tarde voltares acorda-me. Posso estar adormecido por opção ou num fingimento de sono para não te sentir entrar. De qualquer forma, quero e não quero sentir-te. Quero e não quero saber. Se não voltares acorda-me na mesma para que esta dor passe, para que se exclua de mim esta tristeza de não te querer, de não me quereres, de não aceitar este desapaixonar que tanto queria, de aceitar este insignificante querer de não querer. Acorda-me de qualquer das formas, voltes ou não.

No meu eirado

A lua sobrevoou cheia, a varanda onde eu a espero. Circunspecta, radiante de uma luz sem parecença, foi andando para o outro lado do mundo enquanto o sono me atordoava. Eu, fico sempre num sonho acordado imaginando salmos do profeta que não creio. Mas é ali que tento o sentido do mundo. A cada espera. Em cada passagem. No meu eirado.

gente é gente, sou gente igualmente

Todos os rapazes que pensam que são raparigas,  e todas as raparigas que pensam que são rapazes, eu entendo, todos os rapazes que sentem que são raparigas,  e todas as raparigas que sentem que são rapazes, eu aceito, todos os rapazes que sentem que são rapazes,  e todas as raparigas que sentem que são raparigas, eu entendo, aceito e gosto, e gosto de gente de cor que não a minha, e dos outros, de todos os outros e outras e de não outros e outras também.   Gente é gente e eu sou gente igualmente.  Igualmente.  

Recomeços em todos os Julhos

Esta época estremece-me o silêncio, os canteiros de hortências fazem-me reconhecer o local, não há mais mar em mim que a descoberta desta praia sem gente, deste mar sem praia, desta vida singular de começo de verão. Recomeços em todos os Julhos.

As feras que o ópio me deixou, demoram mais de uma vida a amansarem

As feras que o ópio me deixou demoram mais de uma vida a amansarem. Preciso saber como crescerem. De que país vieram. Se foi na madrugada acesa ou em fresca manhã revoltosa que se inquietaram em mim.  Feras vorazes e meigas. Prazer redobrado e impostor. Pessoas desfiguradas. Amigos de partida. E eu, esfarrapado trituro os dias todos iguais. Todos com o mesmo caminho. Com igual partida e regresso. Com as noites todas equivalentes disfarçadas de diferença. Depois, o ópio acaba e tudo recomeça com a mesma cega vontade e termina com a igual escolha de dormência adiada. As feras que o ópio me deixou, demoram mais de uma vida a amansarem.

Somos todos a memória de alguém, mãe

Um dia, quando a minha memória já não for memória, nada do que juntei terá algum valor ou relativa importância, assim, dar-me, é como depositar a minha memória na equidistância de outro alguém. Se a memória se prepara para me trair, fidelizo-a antes do episódio espelhado em minha mãe. Ela não tem memória, e, não entendo que seja ou não seja mais feliz por isso. Somos todos a memória de alguém.

Escassos minutos

Que fosse mais d´alma do que d´pranto, esta miserável solidão disfarçada de ócio e peste, no sentido infecioso de todos os poros da minha pele, e da dificuldade de discernimento, do semeio da saudade e cultivo da presença.   Os escassos minutos felizes, atormentam de culpa - |as horas| -

Cuba vencerá

A força de um povo, a garra da liberdade, o direito ao país. Cuba vencerá.

Saudades destas merdas sem importância que são vida em mim

saudade dos cheiros, das tardes de domingo e pão de ló, da sala da varanda voltada ao sol, do sul nascente, do oeste adivinhado de mar e da colocação do sol escondido.    Saudades destas merdas sem importância que são vida em mim.   

Post 3000

Três mil post´s depois, este amontoado de palavras foi-se incorporando na normalidade purgatória do delírio das ideias, das tentativas de poesia, dos ideais aos sonhos, acumulando dias que somam anos. Por aqui diariamente espreito o mundo e de janela entreaberta deixo o mundo espreitar o que eu sou e não sou, o que escrevo, o que eu quero dizer, e sentir o esboço  da pele que há em mim. Três mil post´s de coisa nenhuma a 3 meses de fazer 15 anos. Foi rápido.

Quem dera ter presença que oferecesse à solidão

As sílabas moribundas que gemes agoniam o meu pensamento, quem dera ter presença que oferecesse à solidão.

A tirania dos segredos é o enegrecimento da alma

A tirania dos segredos é o enegrecimento da alma

Extracto de uma estória do averbamento dos anos 80

" ... ao domingo, a ressaca não era do excesso, era da escassez ..."

Afinal as arvores (não) morrem de pé

Entristece-me ver arvores defuntas com trilhos de nome da tristeza. Trilho dos pinheiros caídos não é baptismo que se dê. Afinal as arvores (não) morrem de pé.

Temo que as gaivotas espezinhem o amor que desenhaste

O crepúsculo faz-se ouvir após cada onda se agigantar com a noite, os teus dedos desenham superfícies que inventas com figuras que reconheço, é amor substantivo alinhado com os barcos no cais da baía, invento a tua figura - ali eternamente - ao cair da tarde, ao soluçar da noite.   Temo que as gaivotas espezinhem o amor que desenhaste.

Mais de mil silêncios

A forma, A fonética, O pranto em jeito de sonho, A eternidade que desejo, As mil bocas que desentendo por ditarem mais palavras que as precisas.   O desentendimento, A saudade, O rubro peito a latir, Os momentos, Os mais de mil silêncios que preciso em abraço.