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Mostrando postagens de agosto, 2010

Sou fã dos rudes !....

Era um aluno daqueles ansiosos pelo toque que abria as portas do jogo de futebol no campo de basquetebol nos intervalos das aulas. Quem chegasse primeiro jogava. Ainda o toque se adivinha e já corria para o campo. Driblava bem e chutava de pé esquerdo. As notas orbitavam entre o satisfaz assim-assim e o satisfaz bem. Era referenciado com um: “podia fazer mais”, por parte dos professores. O satisfaz para mim era bastante. Acreditava que o futuro seria a ajuntamento das experiências e por aquele momento o satisfaz era suficiente. No liceu joguei, beijei pela primeira vez e pela primeira vez também, dei a mão tremida a uma rapariga. Voltei a estudar anos mais tarde, já disponível para não ser um satisfaz assim-assim ou bastante e passar para o nível de satisfação pessoal que já entraria no bom mais, esforçado e empenhado de recuperação do tempo encontrado, mais do que perdido. Viajei, morri e ressuscitei. Encontrei-me mais do que me perdi. Reinventei-me. Sobrevivi à vivência escolhida. Ga...

Os amigos são velhos como nós

Encostei-me para descansar. Estava quente a noite. Soprava uma aragem ainda mais quente do que a noite. Estava difícil suportar o que me queimava cá dentro. Tudo era quente. O mundo estava a ferver. Afagou-me e cabelo e perguntou o que eu tinha. Disse-lhe que um velho amigo estava a sofrer. Um amigo daqueles que não se vêm diariamente nem se precisa de ver. Amigos únicos e exclusivos, especiais e diferentes, umbilicais. Como sabes que está a sofrer? Perguntou. Respondi-lhe: “não sei, sinto”. Era como se aquela terra quente debaixo dos meus pés me inundasse de certeza. Como se eu tivesse que parar e deixar sentir o que me distanciava. Amando-se uma vez, não mais se deixa de amar. E eu amo aquele amigo e sei que o espírito dele não está sossegado. Sei que está ansioso, com medo, em busca de respostas, tenho a certeza. Estas coisas não se explicam a quem não tem amigos velhos. No monte da alegria saí de mim e voltei. Fiquei sossegado. Agora sim, sabia que a estrada era sinuosa mas que ser...

Cortaram o trigo, os meus olhos agora vêm-me melhor…

… Cortaram o trigo, os meus olhos agora vêm-te melhor. O velho armário cheio de pó tem riscado o sítio por onde os livros passam. Está desgastado. É como se a mobília tivesse um calo como o que se tinha outrora, no dedo que pegava o lápis, na época em que ainda se escrevinhava. Um velho carvalho faz sombra e autoriza selectivamente alguns raios de luz de sol a entrar, bem como assim alguns clarões de sombra padecerem, naquele primeiro andar de chão encerado em tiras de madeira. Cobriam-no velhos tapetes gastos e descoloridos. Ali me embriaguei, dias seguidos de noites, embrulhado numa manta aos quadrados que mantinha o frio longe.   Li o mesmo livro quatro vezes, obcecado pelo que se escapule numa primeira leitura. Não sei quantas vezes vi a chuva cair pela janela nos campos perdidos de vista e quantas vezes vi o sol enterrar-se na terra trocado pelo erguer da lua. Sei de cor o ranger do soalho ás minhas passadas. Conheço as aranhas pelo desenho das teias. Estou a libertar-me dos destr...

Tem-la

… Quando eu não existir mais, a saudade será como um barco a navegar nos momentos, comentei. A recordação será uma maré viva de emoções. Recordarás os momentos feitos de nada cheios de tudo. Recordarás as mãos dadas. Os momentos vazios de olhares. Quando eu não existir recordarás a penumbra e a luz. O luar e a madrugada, as estradas de pó de terra batida, desenhadas e acidentadas nas florestas que traçamos juntos. Recordarás as vezes que nadámos juntos na albufeira e fizemos amor nas margens das noites quentes de verão e acordámos cegos pelo sol. Recordarás a casa do sol nascente.   Há três noites atrás fez lua, disse. Redonda com cara de boa pessoa. Apetecida noite de cheiro rubro de vontade. Recordarás o chão. Aquele chão que adormecia connosco. A passarada chilreante e o firmamento. As vozes do outro lado da barragem em eco como se estivessem ali ao nosso lado. A noite faz da distância presença. A noite junta. A noite afasta. A noite ama.   E a cidade? A cidade vagueada e vazia. As ...

«Quando morrer voltarei para buscar os instantes que não vivi junto do mar»

No sossego da morte visitarei com os anjos que me carregaram e os mafarricos demoníacos que me importunaram. Farei as contas. Escolherei lugares fora de muros, entre serras, cristalinos e energéticos. Serei muçulmano, cristão e budista. Libertador. Liberto. Serei dialecto universal. Um dia quando eu morrer voltarei. Voltarei já com tudo feito. Voltarei com tempo.   « Quando morrer voltarei para buscar os instantes que não vivi junto do mar» Sophia de Mello Breyner Andresen  

Aqui IV

A onda mais bela é última, a que ainda não deu à praia. A minha alma é feita em partes iguais de maresia, nevoeiro, mar e sal. Este é o meu momento. O momento em que não me prendo. O momento em que me liberto, em que me deito e descanso. O momento onde sou eu. Onde me encontro sem a procura de coisa alguma a não ser de mim por dentro. Onde encontro o que existe em mim e descodifico com palavras feitas de pensamentos, conceitos, e estímulos que entendo e aceito. Aqui posso ser mar, viagem, montanha, céu e arco-íris e sei lá mais o quê. Posso ser o que me apetecer. Posso ser a minha cara toda, por inteiro. O meu peito pode-se abrir e navegar por onde lhe apetecer, tem a rédea solta. Aqui não necessito de entendimento, nem social, nem interpessoal, nem conotações em jeito de adivinhação. Aqui sou em contra-luz, com a intensidade da luz e a penumbra que escolho ter. Aqui sou eu com a música que escolho ouvir para ser embalado, com a roupa e os brincos pendurados onde melhor me convir. Aqui...

A tua voz

Perturba-me já a paz adquirida sem o veneno salgado e avinagrado do teu ser, ontem tanto como hoje, durmo o sono leve do pesadelo amontoado. Leva-me mar dobrado pelo sufoco das noites acordadas. Esta sede de me ter mais que morto carregado. Alma que me entusiasma e traz de um poço sem fundo tão profundo raiado de luz.   Agora que o silêncio é um mar sem ondas, E que nele posso navegar sem rumo, Não respondas às urgentes Perguntas que te fiz. Deixa-me ser feliz Assim, Já tão longe de ti como de mim. Perde-se a vida a desejá-la tanto. Só soubemos sofrer enquanto O nosso amor durou. Mas o tempo passou, Há calmaria... Não perturbes a paz que me foi dada. Ouvir de novo a tua voz seria Matar a sede com água salgada... Miguel Torga

5 sentidos

Nós temos cinco sentidos: São dois pares e meio de asas. - Como quereis o equilíbrio ?   David Mourão-Ferreira   A manhã inteira, a tarde toda e a noite completa. Mesmo depois da noite toda não deixa de explodir em mim estas palavras. Sentidos, asas e equilíbrio. Desequilíbrio, voar e sentir. A complexidade explicada pela simplicidade. Se impar desequilíbrio, se par equilíbrio. Penso em pessoas impares e o que sinto. Penso em pessoas par e em equilíbrio. Equilíbrio, estabilidade, comedimento, moderação, harmonia. Sou impar…vou ao jogo no escuro, com o que sinto, com dois pares e meio de asas.

Recolho-me

Minúsculas e apressadas, as pessoas passam umas pelas outras sem reparem que passam. Sem reparar que são pessoas. Fiquei ali sentado e deixei-me levar pelo movimento que me desassossega. Burburinho em contra luz, claridade e paixão. Versos aos milhares não param de me invadir o peito. Contorço-me de dor nas palavras que não me esvaziam. Um homem com trinta anos e poucos quilos parece-me doente, mas calmo. Duas mulheres em cochicho contorcem-se em conversas, risos gargalhados, olhares, e medem-se uma à outra quando se despedem. Percebo a falta de genuinidade da amizade feminina. É como se houvesse uma competição descrédula de sensibilidade.   Recolho-me.   O amor pelas coisas sonhadas são a vida, pouco importa como se alcançam, desde que se alcancem. O sonho não é a vida, mas a vida é feita de sonhos. Horas imperfeitas estas. Sou crente e não crente num deus maior e menor. Momentos existem em que por defeito existencialista ou de consciência, nos lembramos dele e nos aquietamos. A razão...

Marear de olhos rasos

Tinha um ar aristocrático. Diziam que tinha sangue real. O bigode retorcido era com a linha de água numa nota de quinhentos reis que dizem existir. Nunca me cruzei com nenhuma. Era de uma família abastada de campos e terras. Tinha um pedaço de rio que atravessava o monte. O rio era o sangue da terra e a terra vida. Tinha saído em pequeno para estudar na cidade. Voltou boémio segundo diziam. Do cimo daquele ar nobre, carregava no olhar bondade e simplicidade. Falava com todos e todos falavam com ele. Tinha o mundo no sorriso. Um sorriso aberto e franco. Usava roupas como as nossas que lhe assentava bem nos ombros largos. Conhecia países que ficavam longe e mulheres ousadas e joviais. Tinha gozado a vida, voltava agora à terra para gozar as cinzas da morte. Dava-se bem com as crianças que o ouviam nas escadas de pedra fria do cruzeiro horas a fio. Qualquer criança sabia mais dele, do que qualquer um de nós. Um dia o meu pequeno disse-me:   Pai preciso que saibas o que decidi e começou. A...

Destinatário

Leve desce a neblina e suave agasalha-se o sol. Juntos enrolam-se no mar, numa quietude que se pega aos meus olhos. Embalo-me. A serra rochosa sombreia a praia num descanso que promete retemperar. Ao redor de uma fogueira cantamos versos que juntamos a uns acordes. Dizemos alto o que não se pode dizer ao mundo. Saberemos que a mensagem chegará ao destino, mesmo sabendo que o destino é uma direcção que se ajusta ao momento.   O destino é um acontecimento. O destino não é uma escolha e não sabemos se existe antes de o ser. Os versos fortes e musculados têm palavras sentidas e doces, amargas e aventuradas, sonhos e descrenças, caminho, partidas e chegadas, amor e traição.  “Destino-te o meu coração” dizia um homem sábio. Durante toda a vida destinou-se mas o destino não quis saber do seu destino. Ignorou-o.   Foi-se então ajustando ao destino e aos acontecimentos. Tal como o amor, a angustia, o prazer, a verdade, a mentira, a fé e a frustração que são coisas do destino. Mesmo sabendo que ...

E... como as conversas são como as cerejas...... olha perdi-me.

A década de setenta é sequência da de sessenta. Os homens começaram a vestir-se com cores alegres, as mulheres a fumar livremente, a usar mini-saia, o amor a ser livre, o rock and roll e as drogas numa proeminente e avassaladora invasão prenderam as mentes.   Enquanto isso descem avenida abaixo bandeiras cor de cravos. Soltam-se gritos de revolta e liberdade. As palavras ditas em prosa de tão coerente mensagem, soam a poesia. A poesia para mim é como a musica. Ouve-se em silêncio.   Ironia do destino. Surge no dicionário uma nova palavra. Retornado. Retornado segundo a explicação é aquele que regressa. É regressar. Recordo naquele tempo a qualidade de vida que os meus amigos regressados descreviam da terra donde vinham, onde no meu conhecimento só existia guerra e mato. Era assim que a entendia.   Ao lado da minha avó analfabeta lia os telegramas do meu primo Tó que estava na guerra. Não entendia. Como descreviam os regressados um País desenvolvido e belo, se não era isso que vinha esc...

Lucas 7, 36 – 50

Chegava com aquele ar místico que o caracterizava. Toda a gente o conhecia sem ninguém o conhecer. Ninguém sabia donde vinha, se tinha família, o que fazia. Era uma pessoa gentil e com um bom ar. Entrava, saudava, bebia o café, desfolhava o jornal como que distraído, como se não lesse qualquer noticia ou assunto e saia com o aceno simpático. Não se demorava mais que o tempo necessário. Tinha um ar meio distraído de quem nada repara e tudo absorve. Usava umas roupas confortáveis e sóbrias, dando-lhe no entanto uma diferença que não se conseguia saber qual era. Alto, bem constituído era uma figura despretensiosa mas que não se conseguia, não reparar.   Uma manhã ainda mal nascida, na passagem de Setembro para Outubro, vieram uns homens e levaram-no. Eram da polícia certamente. Tudo muito rápido. No café nesse dia tudo se falava. Que era ladrão de bancos, que tinha morto uma mulher, terrorista, traficante. Já toda a gente tonta, opinava. Uns que achavam que a “coisa” não batia certa, outr...

Situação-fronteira

Quente quente aquela manhã em que o País ia a votos. A expressão “ir a votos” tem a mesma conotação que a expressão “ir a banhos”, especialmente porque ambas partem e chegam a um pressuposto comum. A agua. Pode até afirmar-se com alguma margem de segurança e confiança que se irá mais tarde ou mais cedo meter agua. O epílogo será um género de foz que desaguará na miséria do povo e no seu empobrecimento brutal. A nascente politica deste mar constitui-se na campanha eleitoral, feita de festas e jantaradas despropositadas e miúdos com cabelo arredondado e de cores garridas que vão gritando de dedos eriçados em V de vitória por um nome, apenas um nome. Um nome feito de cores. Os vermelhos são-no pela atracção física da cor, os laranjas, os amarelos e os verdes também. Poucos se importam pela direcção, todos se preocupam com o divertimento eleitoral.   Enquanto isso eu vejo as caravanas eleitorais passarem. Também se adapta a expressão, “os cães ladram e a caravana passa”, existe muito rebul...

Céu III

Convidei-te para irmos ver o céu. Simplesmente olhá-lo. Olharmo-nos. Pensei e não te disse nada, mas talvez a olhar o céu te roubasse um beijo. Ou que tu me o oferecesses sem sequer ter que te o roubar. Imaginei-nos sentados numa pedra no alto da serra de Santa Marta a enchermo-nos de paisagem. Pensei e não te disse, que achei que me acharias vulgar ou doido.   Porque não tinha eu desejo de te levar a um restaurante elegante e caro?   Porque não desejo eu, deixar-te de ver para te mostrar?   Quando te penso sinto-te como mais um elemento da natureza, meio agreste e forte, incontrolável e surpreendente, como tal desejo ver o teu cabelo ao vento, os teus olhos ao luar, a tua voz desenhada no silêncio da noite imperturbável, como um quadro do Amadeo Sousa Cardoso. Lembro-me a noite em que conheci este artesão de livre pensamento, mentalmente evoluído. Desfolhei um livro dele numa casa especial, decorada com a singularidade e sensibilidade de uma artista. Também tinha Jorge Palma pintado n...

Vivi dentro dos olhos que me viram

Mística aquela paisagem enfeitada de choupos e enfeitiçada por aquela mulher morena e esguia esquiva no olhar que soltou intensamente ao passar. Difícil entender aquele olhar. Altivo e doce, distante e quente, forte e suave, trémulo e seguro. Um simples olhar descrevia-me. Ofereceu-me e retirou-me uma fortuna com o olhar. Foi o início e o extremo. O mar e o deserto. A seca e o dilúvio. Soube-me a corpo na minha boca. Há quanto tempo não me sabia a corpo. Aquele doce agro contorcido pelo inicio de um espasmo que nunca o é. Os corpos contorcem-se prometendo espasmos que se adiam sem se realizarem. É esse início de loucura que me seduz e repele. Ver-te desaparecer no empredado sombreado pela noite de choupos, foi como sentir uma cascata descer do alto de uma colina e estatelar-se no lago, compondo uma neblina ensurdecedora que me varre o físico e me devolve a emoção. Liberto de cercas, não me sinto cercado de praças, bares e pessoas distraídas que não se vêem e não são vistas. A cobardia ...

Baile das arvores

Sentado num banco de pedra entre o cheiro das flores de Maio entretenho-me numa atitude masoquista de voyeurismo a observar a felicidade dos outros. Andava entretido com um livro que se chamava “Eu hei-de amar um a pedra” do Lobo Antunes. Revia-me na ausência de tempo. Era como se o passado continuasse a acontecer com o presente. Isento de tempo e carregado de um espaço combinado pelos amantes ali me encontrava eu, tentando fazer a ponte entre dois autores que admiro. Ele e o José Cardoso Pires. Era candidato interiormente a devorar literatura. Queria ter o dom de escrever, de fazer sentir o que sinto. Queria deformar o espelho. Não me quero ver assim naquele lado de mim. Diferente do que me via há vinte anos. Estou gordo e de cabelo prateado, até as minhas mãos engrossaram. Vale-me ainda a lembrança do que sinto e seguir uma linha de pensamento coerente com a merda que se passa à minha volta, descrita a cada telejornal.   Fazes-me falta amigo, cabrão do caraças que te casaste e ausent...

Aos retalhos de vida

Acordei e olhei para a janela que tinha dormido comigo aberta naquela água furtada alugada, onde eu sentia o passear das osgas e onde cresciam nas telhas ervas que secavam no verão. Entrou-me o cheiro a roupa lavada e seca que é diferente do cheiro de roupa por secar. Tinha ido da aldeia para a cidade e vivia no quarto de uma velha sábia e sabida senhora viúva há largos anos. A casa estava cheia de homens. Bem sei que eram hóspedes, mas não deixavam de ser homens e com homens ela entendia-se bem, para além de treinar a ausência do seu. Três estudantes e três tropas, dois cabos e um graduado, mais alguns viajantes que ficavam de passagem, embora certinhos eram passageiros. Cheirava a creolina ás terças-feiras, dia de desinfecção geral. Era certo o meu estômago dar duas voltas ao ranger de cada degrau de madeira envelhecida e estreito até ao corredor que me empurrava para o quarto. Roufenho um rádio na cozinha comum ditava as notícias. Era um rádio velho e com a gordura normal de se vive...

Flor não que ela é Rosa

...”O Ricardo tinha-se evadido de Caxias. Fala-se à boca pequena que tinha estado na casa do Padre, que este lhe tinha dado guarida algumas noites, antes que ele conseguisse com a ajuda do pessoal do partido sair do País. Na época a JOC – Juventude Operária Católica tinha ramificações com uma filosofia crescente e humanitária e ás escondidas dos enviados de deus à terra arranjavam uns “caldinhos”.   A mim tinha-me parecido ter o vislumbre do Ricardo numa noite semeada de sombra e frio. Tinha-lhe reconhecido o andar. O bafo frio da respiração. Tinha-lhe visto os olhos fumegantes de cansaço e a luz presente gritando em plenos pulmões, o caminho da liberdade. Escondido, ainda passou na mãe e beijou-a. Pediu-lhe que não chorasse e perdão. Agradeceu-lhe tudo, especialmente os livros que o tinham ensinado a não ter medo, nesse discernimento entre o certo e errado, o pecado e a absolvição. Deixou um segredo. Disse-lhe que o Sá, o canalizador, era bufo e o Joaquim do forno também. Eram da PIDE...

Flanela

A flanela grossa aos quadrados fortes embrulha-lhe a pele. Não entra o frio não entra o calor. Não faz a barba desde que lhe morreu a filha dentro do coração e foi avô. Cuida da neta como se fosse a filha, que a filha vadia ficou grávida de quinze anos. No areal a coser as redes sentado com os amigos de uma vida não se fala do assunto. A dor do Manuel Pexim é respeitada com o silêncio sobre o assunto. O Manuel nos momentos mais dolorosos não aguenta e sente o sabor do sal nos seus lábios entrar-lhe alma adentro em lágrimas teimadas de serem escondidas. Ao final do dia, a Rosa, a sua mulher junta-se-lhe com a neta Simone que não pára de encantar. O Manuel, imóvel e sem expressão no rosto, sorri pelos olhos fora. É o momento dele. Tem saudades da filha que já perdoou, mas não lhe consegue dizer.   Queria matar o homem ainda criança que abusou da sua menina, cortá-lo aos bocados e mandá-lo com a maré. Nunca falou com ninguém sobre esse mar de dor. É um homem e um homem só tem que fazer, o...

Eu para sul, ele sem norte

Um velho, forte, grande e largo carvalho abundava de sombra caída enquanto eu decidia se ia ao jogo. Aquela mesa de pedra já gasta das muitas horas jogadas de gerações não seria mais desgastada por mim. Aproxima-se o princípio que a morte me dará. Sendo crente não faz sentido ter medo da morte ou da sua existência. Sabedor da oferta que a vida me deu, jogo cartas não sabendo se a próxima cartada seja a final. Enquanto eu e os meus amigos jogamos quase em silêncio e falamos numa surdina já de despedida, os catraios saltam, dançam, e gritam estridente energia pelos poros. Como foi veloz e impetuosa esta distância marcada no tempo. Como se esfumaram estes dias num ápice.   Enquanto em surdina me rebenta um turbilhão de ideias, penso se hei-de ir ao destrunfo ou fazer bluff. São praias em que me movimento bem. Já ri quando me apetecia chorar, já parti quando me apetecia ficar. Já reagi quando somente me apetecia agir, já rejeitei quando me apetecia abraçar. Agora o tempo urge e já não adia...

Descamisada

As paredes claras guardam a solidão. Quando a porta se abre e entra o frio sem anunciar a sua intenção. As mulheres na esquina conversam sobre o que olham e a forma como olham. Não há duas mulheres iguais.   Mais ao largo, as motorizadas ganem fumo e os motores esforçados e cansados sobem a encosta. A manhã será passada entre os animais e as plantações.   Os filhos foram à escola no mesmo autocarro que os trará ainda cedo mas já de noite. Hoje espero o meu rapazote com ansiedade, tenho carta da França, do meu emigrado marido. Será que é hoje que o rapazote vai ler nas letras que ele tem uma amante, daquelas de decote ousado e perfume oferecido pelo corpo, lá naquela terra que nem sei ser longe ou perto. Maldita sina a minha que não me faz viúva. Um vagabundo mal cheiroso que me fez a maior fortuna que tenho, o meu João. Já podia morrer o estroina. Não me importava. Melhor era que abrir todas estas cartas que nem sei ler, sem um tostão. Para que quero eu saber se ele andou de elevador n...

Há mil verões

Bailo com os olhos na tua procura, A multidão cega-me, Não encontro a punhalada, Que seria encontra-te, Mesmo com os olhos, Que me querem cegar, Quero-te ver, Não te quero ter, Vento levante, Mar amante, Oriente sentido e fugido, Pés descalços, Marcados, Dilacerados, Sangrados, Lírio perfumado, A tua pele devassada, Como o meu peito, Ausente e saudoso, Foi-se.   Há mil verões que se foram.      

Ausência activa de tristeza

Ausência activa de tristeza. Um conceito, uma forma de entendimento, uma metamorfose, nem sempre clara e raramente evidente. Os dias despreocupados sem despertador e a roupa a condizer são escassos. A ausência activa de tristeza lembra-me a presença colectiva de alegria. Alegria sim, aquele bem raro que não tem tempo ou espaço. Aquela anti-premeditada forma de sentir que vem sem se esperar e se vai sem se querer.   O verão é prodigioso. As noites de verão são sobrenaturais. As manhãs são claras e apetece saltar da cama e abraçar o sol. Passei pelo castelo para rever Africa e umas misturas colectivas de acordes vindos do mundo. Está a ficar na moda e inundado. Pessoas de mais. Imagem a mais. O colectivismo associado e corporativo no seu expoente.   Revi Al Berto e o Vasco da Gama recordado como patrono. O Vasco pode ter sido muito importante, descobriu novos mundos e a arte de marejar, mas o Al Berto descobriu a praia, o azul, o mar mais balançado, as cores mais vivas, a alma de poeta p...