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Mostrando postagens de dezembro, 2019

Dispenso

A mais dolorosa prisão é a consciência. A segunda maior prisão é a inconsciência de querer justificar a consciência em malabarismos manipuladores. A terceira maior prisão é: - não sei porque não sou juíz, nem compactuo com a prepotência do julgamento. A minha imperfeição não me permite. Logo, nao creio em prisões muito menos enumeradas por ordem de grandeza. Acredito na consciencialização da consciência como um processo de crescimento. Tudo o resto é muito pedro chagas freitas. Dispenso.

Bom ano bla bla bla

Não tarda e as redes sociais ficam cheias de “balanços”. Já cheira. Já cheira a balanço do género: “este ano foi assim mas para o ano vai ser assado” e, na realidade, não foi bem assim, e não vai ser diferente coisa nenhuma, porque os dias continuam com as mesmas horas, as semanas com os mesmos números de dias, os meses com as mesmas semanas, e o ano com os mesmos meses. A velocidade com que se vive quiçá aumentará, e o adiamento será o mesmíssimo. A doença proliferará, e o tempo esgotar-se-à da mesma estúpida forma, e, diremos o mesmo daqui a um ano: “Este ano foi assim, para o ano será assado”. O diferente na verdade é uma necessidade, nem que seja apenas dita pela necessidade de se dizer ou purgar uma espécie de culpa pelo mau uso do tempo, e assim parecer-nos-à que se libertará de nós na consciência da palavra dita, mas, na realidade, a diferença far-se-à no retirar de: horas aos dias, dias às semanas, semanas aos meses, meses ao ano, tempo para nós, para fazermos coisa nenhuma e o...

Apenas

Serei sempre poesia, serei sempre fonte e deleite da ventura que me tornou regressado à humanização da vida. Já fui subúrbio de mim. Mudei-me. Agora sou. Apenas.

Degraus

Extracto de palavras por ver o sol um dia IV (2016) Oiço o ranger dos degraus de velha madeira em cadência. Pelos passos é o Lacerda. Deve querer recordar em mim e comigo as velhas aventuras da cidade. Bate devagar de mão aberta à porta encostada. - Entra, permito-lhe eu. Senta-te quase lhe ordeno ao mesmo tempo. Respira fundo ao sentar-se e diz-me: - Estava adormecido ao fogo que me aquecia enquanto a saudade me torturava a alma e decidi vir revisitar-te. Tenho contigo e por ti uma saudade que nunca deixa de ser saudade. Lembras-te daquela mulher com quem me romantizei perdidamente noites a fio? - Aquela mulher do sul? Perguntei-lhe. - Sim essa. - Lembro sim, tinha uma bela voz, o que lembro das mulheres são sempre as coisas que a maior parte dos homens não recorda, disse-lhe. Recordo sempre, as mãos, a brado, o andar, muito mais do que o corpo em si. Recordo muito mais a alma e a paz que sinto, do que a excitação momentânea, rara e esquiva. Mas diz-me, interrompi-te, desculpa. - Sabe...

Desafio ao tempo

O tempo não se acrescenta. O tempo não é inviolável. O tempo e a morte são parceiros.   Um e outro têm na génese a semelhança inexplicável da vida. Têm ambos a diminuição e a quase cobardia de não haver mais tempo, mais morte, mais explicação, mais oportunidade.   O tempo com a impossibilidade de se viver o mesmo fragmento mais do que um momento, e a morte com a impossibilidade de acontecer repetida, apêndice que é da vida, fa-la análoga a si mesma.    Esquizofrenico e desafiador este pensar com tempo e vida.

24 de todos os meses

Não é esta noite. Nem a próxima. Nem a anterior. Nem há noite que ceda igualdade. Nem noite que aproxime a fraternidade. Nem homens que da noite façam pão. Ou noites que da solidão façam presença. Ou da guerra façam paz.   Nenhuma noite se transforma de vida por ser uma data. Uma data nao é noite nenhuma.   Não me apoquentem com noites de data preenchida e antecipadas luzes para me lembrar.   Eu nao sou esquecido. 

Tão bem que me sabe companhia

De memória em memória colo todos os felizes pedaços de noites em que me soube bem companhia. De pedaços de noites e dias, recordo todas as memórias em que a melhor companhia de mim, fui eu, mesmo tentando não a ser. Não dispenso o silêncio enquanto necessidade e vida em mim. Tão bem que me sabe acompanhar-me. Tão bem que me sabe companhia.

Excerto de palavras por ver a luz do dia, um dia

Desajeitadamente sem saber onde colocar os olhos, as mãos, as vísceras até, perdi-me em ti precisamente pelas vísceras revoltadas, as mãos suadas de saudade, e olhos cegos de luz, desajeitadamente que eu não tenho jeito para me deixar amar.  Desarmaste-me com um: "és como eu, ainda bem que és desajeitado como eu" . Senti ali o ajuste de mais de 50 anos desajustados.   

a lágrima suportada

O caminho, o céu, as nuvens que embranquecem a madrugada, a noite que se põe num outro firmamento, o caminho novamente, a manhã e a madrugada, os corvos que espiam em debandada, o caminho e a saudade, a distância e a planície, a lágrima suportada.

desejo enlameado de coração

O que me rodeia já não é o mundo vigente, Rodeia-me um mundo construído de reconstrução, onde habitam todos os meus sentidos e os sentidos de todos os meus sentires.   Habitam-me combinações sem data fixada ou por afixar de encontros no pinhal que conhecemos tão bem quantos os nossos corpos, Melhor do que as nossas bocas e a lama transpirada com pele que faz de nossa cama.   Habita-me quem me pode habitar que por descoincidência é quem eu quero ocupar, Os abraços testemunham a vigência do meu mundo sem determinação de festejos.   Os meus amigos e os meus amores unem e libertam abraços de braços por ligar, É o diário vínculo do amor no desejo enlameado de coração.

Lavrar, erigir e desobstruir,

Um fio de luz irrompeu a penumbra clareando a escuridão. Irrigou e amanheceu as ideias, convertendo-as afirmativamente. O trabalho de que disponho desemaranha-se como um pião de madeira lançado num vertiginoso rodopio. Viver dá trabalho. Pelo menos viver pensando, decidindo, caminhando, não subestimando, não vendendo e esculpindo o caminho traçado. Lavrar, erigir e desobstruir, falece e anima a alma no minuto seguinte do outro, anterior à lágrima e subsequente ao sorriso.   Gosto de dar as mãos. Gosto de mãos. Mãos desenhadas e acabadas. Gosto das mãos que me fazem adormecer sem medo. Gosto do sono bom de bem acordar. As mãos são limpas. Uma vez sujas, jamais voltam a ser limpas. Como a mente. Uma vez conspurcada jamais deixará de o ser. E a amizade é igual. Uma vez seca, jamais será verdejante, tal como a colheita de uma sementeira ou uma fonte enxugada de água. Como a desilusão. Sendo, não mais deixará de o ser. Como o desamor que não mais voltará a ser amor. Estas “coisas” que sinto...

sou um pássaro livre e velho descansado pelo voar

  sou um pássaro livre sem gaiola e sem vida,  apátrida da felicidade, sem outros mundos que não o mundo, sem livros de auto-ajuda que eu não posso ser descrito em nenhuma escritura que não a do coração, sem drogas que me aliviem ou me façam ser feliz por um tempo, sem mulheres que me convençam de uma qualquer especialidade, sem homens que me façam competir comigo mesmo, sem nada que me mantém com tudo, e com tudo o que me mantém sem nada,   tenho os rios e os ribeiros da minha terra, a ousadia, uns olhos que vêem o que se esconde depois da serra, depois do mar, uns dedilhados que me abraçam a solidão, em acordes noite adentro, e tenho alguma gente que me enche o peito de gente mesmo.   sou um pássaro livre e velho descansado pelo voar.

Só se morre uma vez em cada vida,

Só se morre uma vez em cada vida, mas em cada vida a oportunidade de renascer, nascer, viver outra vez, dura uma vida inteira. É assim de cada vez que se reinventam as manhãs, é assim em cada pedaço de tristeza que se transforma em vida, é assim com cada momento só, em cada momento de felicidade, em cada momento de vida.  Só se morre uma vez em cada vida,

e uma filha mais do que filha, a amar

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Nunca o mar teve tanto mar, o céu tanta vida, o dia as horas de um dia e um abraço a esperança toda. De construção em construção, renascido a cada seis de Dezembro, .... e uma filha mais do que filha, a amar.  

Estranhando

És estranho disseste-me. Não te agradeci num tom firme, mas num silêncio estoirado no meu cérebro ecoou um obrigado, que se repetiu na alegria imensa da estranheza. Ouvi um obrigado, obrigado, obrigado em crescendo. Na verdade, estranho. Não sou estranho à minha estranheza acerca da vida e de outros temas oriundos da natureza humana, mas estranho bastante a falta de agilidade mental, estranho as mudanças súbitas de opinião sem consubstanciação analisada, estranho a intensidade do amor semanal na velha máxima que os anteriores não foram amores e que o desta semana é que é. Estranho a malévola maledicência e a incapacidade introspectiva, estranho a não relação intrapessoal, estranho a incapacidade de estar só, estranho-me tanto, e sim, estranho. Estranho as flores não serem reparadas, o mar ser moda. Estranho a falta de tempo e o desinteresse nos poetas fingidores. Estranho a as mulheres terem que se erguer pelo que devia ser adquirido à nascença. Estranho os homens justificados e os nec...

Posso enviar-te

Posso enviar-te por um pássaro do céu a cor de que mais gosto para te enfeitares, posso enviar-te pelo vento a primeira música que ouvimos, posso segredar- te pelo mar o poema que te dediquei na nossa madrugada primeira, posso enviar-te o meu cheiro pelo luar, posso enviar-te a maresia da margem do lago onde penteaste os teus cabelos no dia em que te amei o corpo, depois de me abencçoares a alma. Posso tanta coisa que não posso, tanta coisa que não pude, tanta idade que deixei no tempo que foi tempo

Adormeço observando a natureza humana

Quando os teus olhos fingem cegueira e o teu corpo se denúncia escondido do que sabemos ser vontade de trocarmos de abraço. Quando a tua cor ruboriza e os teus passos trocam desajeitados a cadência do que outrora foi eterno sorriso. Quando o teu olhar não geme felicidade eu entristeço por dentro do que fui pelo que sou. Adormeço observando a natureza humana entre a madrugada e o nevoeiro