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Mostrando postagens de julho, 2017

Ilha de mãos

Nada como as minhas mãos serem uma ilha, e nelas poder até escolher o mar.  

Há equações que resolvem três incógnitas

Por cada incógnita há uma equação. Há equações que resolvem três incógnitas. Como devem ter sido felizes todos os poetas que não tinham facebook, blog´s, instagram, etc etc etc.   Assim não foram alvos de terapia de bolso, de quem acha que entende muito bem a cabeça dos poetas. Assim: - Pessoa, Breyner, Espanca, Torga, Andrade, Queirós, e tantos outros livraram-se da análise de personalidade e delírio, em prol do gosto pelas figuras de estilo, a musicalidade das palavras, a mensagem do que na verdade tinham para dizer, em troca de consultas baratas acerca da obsessão de quem lê e, não entende o entendimento da poesia.   Terá obrigatoriamente um poeta que se suicidar? Ou ser o que os outros querem que seja, no desentendimento da sua própria existência? Terá um poeta que - alguma coisa -?   Um poeta não tem coisa nenhuma Um poeta tem no seu refúgio tudo o que lhe assenta e precisa. Humor. Medo. Companhia. Amor. Realidade. Ficção. Observação. Amigos. Solidão. Mundo. Mundo. Mundo e mundo. ...

querendo-te

"... maior do que a força humana, vil e terna poesia com que me castras, feres e encantas, perduras nos gritos que emudeço, louca e virgem, possuída e amada, ferida, ensaguentada no delírio de nao te querer, querendo-me, querendo-te..."

uma mãe e amor.

Ser feliz até onde der, por um dia, só um dia, mais um dia, outro dia, dias de vida, vida de dias,   “prego a fundo”, sem limite para a alegria, e o abraço que me leva o medo, e me devolve as lembranças, que me habitam o coração, essas, só as mostro a quem me vê os prantos, porque o meu amor são as lágrimas que escondo, na altivez de quem me descobre, una, especial, de quem vê musica em mim, um bailado, uma flor, uma madrugada, uma giesta, um mar, um oceano, uma mãe e amor.

desassossegado momento

“… uma forte bátega de ar quente abraçou-me. Foi como me senti. Abraçado por uma chuvada de vulcão quente, que me queimou mais por dentro do que por fora. Tu, na sombra da árvore que pensei ser tua propriedade a gozares o meu estado, a sentires que o chão que eu piso me tortura a sola dos pés, que do meu peito está prestes a sair um rinoceronte, e que dos meus olhos está para sair uma cascata. Tu, na parte de baixo da tua sombra, esperas que o efeito dos meus olhos em ti sossegue, para me convidares a sentar, sabes que este momento é para aproveitar, e que um dia serei apenas a recordação da minha atrapalhação, e tu serás o desassossegado momento…”

livre não

livre não me entendo, nem por livre o pensamento, o homem da fila, lá atrás, empurra, a mulher à frente diz: - não empurrem, a canção não diz coisa nenhuma, e a que diz já não se ouve. não posso ser livre se a vida não o é, nem nas filas do supermercado. conheço músicos que não o são, e cantigas que não entoam. pianos que têm coros e clarinetes lá dentro, acordes que não se dedilham, e sou enganado sem que o seja, num sítio estrábico de mulheres nos meus olhos, e os poemas são palavras sem mensagem, importadas, inorgânicas e vulgares, o perfume não tem perfume, e pergunto-me a mim mesmo:  - se está tudo bem comigo? - não seria melhor falecer meia dúzia de meses e voltar depois a mim?

palabra (s)

" ... é a palavra que traz o ódio, é a palavra que traz a paz.   Por mais estúpido que pareça, a palavra pode ser a mesma. será a palavra? será da palavra? será o acolhimento à palavra? será a forma e não o conteúdo? será o conteúdo e não a forma?   Quando não se quer que a palavra vigore, mesmo que se escreva e se reconheça notarialmente, a palavra jamais será palavra, será ubiquidade, é como estar e não estar, ou ser o impossível, a mentira, o acontecimento. A loucura confirma que se está onde nunca se esteve.   Não é da palavra …Não é a palavra…”

Árvores e mulheres

Em cada árvore da estrada tem uma mulher encostada vendendo pedaços de amor. Têm nos olhos a ingenuidade perdida no treino da sedução, verdadeiras e genuínas, envergonham os homens que de olhar raiado, pagam bocados de namoro, a cada mulher, de cada árvore da estrada. Respeito cada fragmento de dor que as constituem.

Livro (s)

" ... pego no livro mais do que uma vez, apalpo-o, desfolho-o; olho a capa, a contracapa, leio um parágrafo desgarrado a mais de meio do livro, pouso-o.   Repito o movimento: pego no livro mais do que uma vez, apalpo-o, desfolho-o; olho a capa, a contracapa, leio um parágrafo desgarrado a mais de meio do livro, pouso-o.   Depois, preparo uma cadeira de plástico na minha varanda, torce-se quando me sento, ou é fragil, ou estou com peso a mais. deve ser como eu, fragil e com peso a mais.   Alinho a cadeira com a lua e dou luz à minha leitura, fico absorvido pela madrugada, leio até o dia me dar com o sol na cara e me lembrar que a noite já se tinha plantado do outro lado do mundo.   Não conseguia parar de ler, até que leio um ajuntamento de palavras que diziam: - és no fundo tu o teu mundo, a tua líbida vontade de viver sem corpo, a mulher que vem passar a ferro e o peito avantajado pelo segredo do teu olhar, a senhora que te faz a baínha das calças, se ajoelha e te olha de cima par...

Valdemar II

Não me consigo esquecer da cidade, dos  bairros, das ruas e ruelas, das mulheres de decote generoso apregando-se, os policias a fazerem-se de ladrões, e os ladrões a fazerem-se de policias.   Não me consigo esquecer dos homens das esquinas coçadas, lisas e polidas pelas calças amontadas em anos de esquina miltante, onde todas as notícias antes de impressas, passavam no crivo do que ao mundo havia ser anunciado.   Não me consigo esquecer, das músicas entoadas, das gargantas afinadas, da poesia vivida do massacre, das vielas mal iluminadas onde os beijos custavam quinhentos escudos, um olhar.e uma mexidela de peito.   Não consigo esquecer a saudade, nem lembrar-me da recordação, do Val de Mar que me fez homem. O Valdemar.  

Amigos III

Já tive um bairro cheio de amigos Uma casa cheia de amigos Uma sala cheia de amigos Amigos feitos de bairro, casa e sala E os amigos que sobraram São muitos menos do que uma mão tem de dedos Mas são... São brisa, naufrágio acompanhado  Resgate e conexão 

Mais fresco

imóvel a sala cadeiras empoeiradas a mesa a fazer canto com o canto da sala o canto do Zeca como companhia Alentejo saudade noites perturbadas de brisa dias de anseio pela noite o campo a perder de vista sempre igual mais  nunca igualavel fresco amor refrescado nos corpos nus no ribeiro que se avassala entre as árvores imóvel sonho ver a tua sombra de luz regressar a tua silhueta entrelaçada nas minhas mãos

Sonho de alma

Já nem o corpo(s) alivia a alma(s). Agora, tudo se reduz à mísera condição de já não existir sonho(s). 

Canção

O sol amarelou a seara que o vento generoso refresca. Assim é o meu velho amigo. Refresca o que numa noite o sol queima. 

Só por hoje

" ... Depois, a ressaca não me deixa dormir, o medo não me deixa viver, a saudade não me deixa recordar, o bairro não me deixa de seduzir e a angústia não me deixa ser.   Não sei se algum dia o dia, será construído por paz em jeito de fortuna que nenhuma riqueza me dará.   Não sei, se o que me sobrou da morte de onde nasci, alguma vez será a normalidade de que ouço falar e o sonho a construir-se somente por sonhos.    Não sei o suficiente mesmo que abstinente, para descansar de mim mesmo, cinco minutos que fossem só por hoje .. "  

Morte a declarar

Em cada dia existe a morte declarada e uma forma de a declarar, que se preenche em papel timbrado no dia em que declarada a vida expirar, e é só nos funerais que perdidos de remorsos achamos, não valer a pena a vida enquanto esforço, e é só nos tórridos torrões lançados ao corpo, que a vida afinal se glorifica, e toda a gente valeu a pena afinal, o burlão, o mendigo, o doutor, o drogado, ninguém morre de pecado, essa mentira anunciada num jesus crucificado, inventado pelos homens que te querem ver castrado.    Em cada dia existe a morte declarada e uma forma de a declarar, que se preenche em papel timbrado no dia em que declarada a vida expirar.  

Poemas

Um poema sangra e ri sozinho, cresce por ele próprio nas noites de prata e lua, cresce com as lágrimas que prendo, com as suaves lambidelas do cão vazio que me adoptou, com a sombra onde me sento de pernas cruzadas em frente ao rio azul, cresce e envelhece sozinho, o poema que me escolheu para viver.   

Sorriso II

o sorriso louco da minha mãe envelheceu com ela. Ficou menos mãe. Mais louca. Com o mesmo sorriso.     

Mar do Sul

foi o mar em pranto a sul, a notícia, o hábito e a ousadia da pele queimada, a surdez e a cegueira, o anti-mundo e a quimera, as vozes descrentes e a crença, todas as madrugadas e o corpo.   foi o verbo ser e as mãos que demos à vida, que trás à saudade: - recordação -      

excerto de palavras por ver o sol um dia (178)

" ... Deixo-te um bilhete com uma palavra que desejo que construas. Aceito a tua loucura e todas as noites em que não estavas quando cheguei. Bem sei que chegava tarde e perfumado de um aroma que desconhecias. Bem sei que que só voltava porque te sabia ali, ausente na espera que me fazia sentir que não existias na tua espera.   Deixo-te um bilhete com todas as palavras que conheço numa só que te escrevo. Aceito o teu desamor. Aceito a tua grandeza. Aceito a palavra que te deixo escrita.  Partir.   Partir é o nome da tua boca, a rua que vou fundar, o país em que vou naufragar. Partir é a maldita sina que o destino não tem, onde eu sempre me achei pertencer. Partir sempre foi o sonho da eternidade. Partir nunca foi sair sem ficar. Partir foi sempre partir sem sequer ter que ir.   Um dia, acho, acredito, que voltarás para encontrares o bilhete que te deixo escrito, e depois sim para partirás. Até lá fico..."