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Mostrando postagens de março, 2013

Ecos

Não comentes este meu sentir frásico, Que eu jamais saberei dizer por palavras, Que as palavras ditas maduras, Dentro de mim ecoam surdas, Fora de mim soluçam mudas, De silencio e ruído amedrontado, Alta lua, Madrugada.   Jamais saberei soltar-te juras, Cumprimentos, Decisões, Traições feitas de vocábulos.   Apenas sentir-te-ei no abraço, Sem as palavras serem bradadas.          

Desfiladeiro

Se já antes assim fora, Tendo eu a demente ideia, De fazer do mar abundancia, Abrindo assim o mundo, De negada evidência. Os meus olhos vêem os teus braços a enlaçar a lua, Porque teimas tu em dizer-me que não? A minha verdade contempla um desfiladeiro, Um rio revoltoso já seco, Lagrimas que me abandonam os olhos, Combatentes do amor, Flecha dilacerada, Elevada bandeira hasteada, Desofuscada. Sinal de bem-querer, Mutação de desamparo em esperança.   Se na tua fonte gemo em ti mais do que um lamento, pelo mesmo motivo não jorro em ti esta inquietação.

Dias não são dias

Dia da felicidade, do pai, da mãe, do natal, da pascoa, mais do beijo e da amizade e do trabalhador e da revolução e não sei quantos mais dias de não sei o quê, porque na verdade a banalização das datas destes, não é mais do que a insignificância que elas representam. Não há pachorra para tanta celebração de nada. Todos são unânimes no esvaziamento de sentido.   Assinalar para quê e o quê?   Bem sei que a Grândola se vende bem outra vez, que os poetas regressaram às ruas nas bocas dos indignados, que a palavra é uma arma que faz a revolução.   Mas alguma vez deixou de o ser?   A Força do poder de compra trás e leva da mente dos que se aglomeram a importância relativa da luta. A luta baixou a guarda e é o que se vê. Sempre existiram manifestações, estavam eram vazias, vazias de gente vazia que agora acordou e as enche de um significado que não tem. A luta tem em si própria o significado de luta, num país com cinquenta anos de luta, a luta não é nova, a luta é experiente, madura, leal, e...

Frescos singulares

Frescos singulares desprendem-se das árvores vazias. Um homem senta-se de frente para a sua sombra e respira. Deixa ali mesmo o cansaço como se um afago ou um abraço lhe tivesse sido dado. As raízes suportam um e outro inverno e são elas que sustentam a vida. As árvores não acreditam no pecado nem no inferno. As árvores são apaixonadas e constantes.   Ontem, observei uma que estava desnudada como se, se tivesse a despedir, e o outono a estivesse a possuir e embelezar. Sorria e dançava. Sorria de um castanho posto nos lábios encantado de luz. Dançava de corpo solto e peito breve e firme. Um banco de pedra fria e antiga, pequeno e atarracado, permanecia submisso na meia-luz do encantamento da  sua penumbra.   Nas pedras também nascem flores, como no jardim da vida nascem seixos. Nos cabelos esvoaçados das fragâncias elixadas, junta-se um bando de passarada agitado e desconforme, vão rumo a sul num céu de migração. É a época de partir. É sempre época de partir. É sempre época de ficar. Ép...

O pecado, a mentira e a presença, não se dão

Habita-me um “eu” não visível que cuida de mim. Um “eu” que me sinaliza, desperta, previne e informa. Um “eu” que me diz sim e não, como um rio alvoraçado que não se pode desviar do seu caminho e do leito que o absorve. Um “eu” cuidador, amigo, terno, leal, cruel, implacável, tonto, lucido, sábio, ignorante, fugidio e presente.   De cada vez que me adio faleço, “ele”, ressuscita-me. A pressa que os dias e a vida possuem é essa mesma, falecer. A velocidade do tempo nada acrescenta, ao contrário, retira. O pensamento ágil e veloz, ao invés, adiciona e acumula.   Pensar, é o que o meu “eu” que me cuida desenvolve. Sentir, é o que o meu “eu” que me cuida faz, “eles” são residentes e permanentes.   Sou o representante dos dois mascarado e travestido de um. Um que não sente, o outro que não decide. Um está para mim como deus está para os que crêem. Outro está para o pecado, como a mentira para a verdade.   O pecado, a mentira e a presença, não se dão.   O pecado, não sei se existe ou tem pre...

Homenagem

A vida separa-nos sem que façamos nada por isso. Quando se experimenta a saudade existe porventura existência, e, é disso mesmo que sinto a falta, de existir.   Saudade da época em que habitavam músicas nas pessoas, perfumes e serões nas estações, esperança nos sonetos que me endiabravam a alma e a descoberta do sonho e da vida incluídos, pela espírito e o alento.   O sonho jamais termina se me recusar a apodrecer de conceitos e ideais. Pese embora os sonhos amadureçam com a minha existência, a entidade que os regula amadurece igualmente comigo.   Os canaviais já não são bravios como outrora, já não faço amor entre as giestas nas quintas-feiras das eiras e da ascensão, quarenta dias precedentemente da páscoa, onde o feno ainda fresco não secara. O corpo já não me deixa. O corpo já perdura uma manhã soalheira de sequeiro a fortalecer.   O mundo mudou de forma e a forma. Já não existem arco-íris que se acreditem ser os sorrisos do céu. Agora tudo se tenta explicar.   Tenho saudades do de...