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Mostrando postagens de novembro, 2012

Vida incendiada

Dão-nos uma vida incendiada, Três cabazes de alegria, Mil pedaços de tristeza, E uma esperança fugidia.   Pregam-nos sermões na lapela, Boas maneiras decoradas, Uma escola onde não se aprende, E uma alma degolada.   Abotoam-nos com botões de escravos, Televisão e publicidade, Mas não nos ensinam a forma, De viver com a verdade.   Permeiam-nos a alma erma, Saturam-nos de representações, Mas na esquina da saudade, Oferecem-nos ilusões.   Abastam-nos de covardia, De salários cheios de fome, Dão-nos redes sociais, Com frases de outros disformes.   Retiram-nos o pensamento, As lágrimas e o sentir, Escurecem o mundo de rosa, Ensinam a mentir.   A crise morre solteira, Não tem culpa o lavrador, Compensa o topo de gama, A poesia do trovador.   E assim se mascaram os ditadores, Da alienação colectiva, Sobrevivem os pensadores, Desta besta selectiva.   E assim faço da palavra, Como o Zeca fez do tormento, Não há machado que corte, A raiz ao pensamento.   Não me prostituo ou castro, Dos meu conce...

A transposição das almas

A insónia de ansiedade, na procura do meu eu de verdade reconhece-me. Não antes ainda, havia reconhecido no meu ser, a poesia do amor. Os seres apaixonados discutem e passam por crassas e dolorosas formas de sentir, mas, ultrapassam tudo isso porque querem seguir apaixonados a senda que os une. Os não apaixonados não pretendem o desgaste da não recompensa do amor. A isenção de querer pela troca física de ter, esmorece e varre o trabalho que dá construirmos em nós, a projecção do nosso eu adiado. Verosímil carregado e confiante, as muralhas derrubam-se e erguem-se a pulso nas ruínas que o ter, houvera construído em prol do ser. O sono da inquietação e a agonia intelectual do ajuste alcança as asas do universo, e, momentos há, em que o mundo parece ser um lugar aprazível e coerente. Por cada transformação metafísica alterada, uma subjacente luz se enche de energia e caminho, de dádiva e de presente repleto, de bonança e confiança. Os delírios cerebrais permutam-se em lírios e açucenas, a...

Sofazando

Pudesse eu desigualar o vício que em mim sucumbiu e já seria mais do que eu mesmo. Formas redondas acariciadas por vozes centram-se no meu âmago ferido já sarado. A monumental orquestra rege-se a cada compasso que a pauta inquieta solta. No meu peito um embalo pertence-me.   A vida não é o dia em que se vive. A vida é: a soma dos dias em que vivo. A vida é a demonstração que vivo, existo. É a melodia que me encaminha. São as teorias erradas antes das certas e das aperfeiçoadas. São as minhas fundamentadas mentiras transformadas em verdade. São os meus enganos desenganados. São meus conceitos de nada e de tudo o que não sabia pois, isento de vida, não se achava experimentado. A vida aprende-se arriscando lágrimas e sorrisos. A vida não é o dia de hoje. O dia de hoje é apenas o dia de hoje.   Se o dia de hoje fosse vida, a vida não seria uma vida, seria apenas um dia. No entanto, um dia pode valer uma vida. Há dias feitos de uma vida, esses, recordamo-los como dias de alvorada. A vida, r...

O que experimento tempera-me

Foi demasiado amor naquele prado de verde prado. Foi danada a saudade dentro da barcaça feita de amor e mar. É tanta a maresia a cada madrugada de insónias que se libertam sonhos durante o meu sono. Foi, era, e é, são o acordado debutante dos meus dias. A liberdade dá espirito e vontade ao libertino pensamento anunciado. A invisibilidade do que me é essencial aos olhos atropela-me a acção descomandada do coração. As escadas que subo antes e até ti, sôfregas, ainda me espancam o coração. A cada degrau o meu grito ensurdece-me num vulcão que me segreda: espero-te. Os teus olhos embriagados nos meus cederam. Embebedamo-nos juntos, rebolamos, e soltamos palavras voluptuosas e suaves, acerca do nosso enfeitiçamento. Gememos de amor feito por nós e de nós, e, adormecemos a sorrir em cada noite passada. As árvores que se erguem à altura da tua varanda já me escutaram e balançaram, num vigilante comprovativo de alma. Rompe-se o silêncio calmo da cidade que já não é. A serra espreguiça-se e, nã...

Sonho retornado

Se nas minhas vísceras se fundem algoritmos em construção ordenada, Nas minhas veias entranhas de um desconhecido mundo se unem e adequam, No entanto, de que serão feitas estas palpitações sensoriais.   Será da subtracção dos dias ao somatório das horas? Será do intervalo da viagem, da agonia, e do regresso? Ou apenas a vil dor de querer sarar a saudade.   Se a saudade se desunha e fadiga, E se o abraço nos une e apazigua, De que será feita a lua e a tempestade?   Se a lua se espelha calma e luminosa no teu rosto, E a tempestade se declara terrífica no meu peito, Reflecte-se assim sereno, cada momento nosso inventado.     Como a lua e a tempestade se confirmam em nós? A lua num abraço! A tempestade nos nossos corpos!   Assim se coaduna momentaneamente e integram as nossas almas, num eterno e plausível instante de eternidade e sonho retornado, realidade e paixão.

Chove torrencialmente dentro de mim

Chove torrencialmente dentro de mim. Brados sufocam-me a visão e desentendo-me com o desconhecido. Desabituado a desconhecer o trilho, só me resta oferecer a minha mão e deixar-me guiar. Adormeço sossegado nesta turbulência que não o é, quando em presença. Todos os dias menos um, foram iguais na minha existência. Do menos um ao dia decisivo passaram todos os dias, e todos os dias juntos foram iguais. Momentos iguais progrediram em mim em regressão, uns amorfos, outros desencantados, uns feitos de um falso domínio, outros de conhecimento, mas todos eles albergaram a mentira do entendimento e a compreensão da anti entrega.   As ruínas apenas deixaram de o ser, depois da obra nova estar edificada. A surpresa da escolha, do escolhimento, ou apenas da disponibilidade do sonho, tornou real a conversão interior numa alteração partilhada.   Quando o céu se debruça e nos toca, as nuvens irradiam uma fragrância de flor. Quando a terra se rebola e nos atropela não resiste em nós mais o medo, e a ...

Nao ser sem ti

Eu já duvido se eu, nao sou tu, Tal o meu mundo já é teu, E o teu, habito-o como meu.   Eu já nao sei se o meu cheiro nao é o teu, Se a minha boca nao são os teus beijos, E se o teu abraço nao é o meu.   Eu já duvido se sei ser sem ti, Ou se sem ti nao fará mais sentido, Este mundo novo meu, é teu.   Neste meu sentir divido, Enrolado no teu corpo sou feliz, Mas mais feliz sou, ser por inteiro ... amor teu.

Picada

Profano, existe este caminho de mácula e embriaguez na desonrada atitude que se produz sensata e emendada. A vida não é apenas o terreno visível, sensorial, exequível, escolhido, dominado ou reprimido. A vida tem, nos dias seguintes aos sucessivos, o deslumbramento da premonição, ela consome-nos sem adivinhação, julgamento, ou ávido aviso prévio. A liberdade é, não sentir a picada quando se é picado. É fluir numa cor, numa paisagem, ou no sossego de uma cantiga escutada ou dedilhada. A liberdade é, voltar a adormecer no cheiro de um abraço quando, era apenas a insónia que vociferava na noite. É voltar da saudade com um sorriso inebriante. É gargalhar na madrugada e na manhã. É sentir que os que amamos amam connosco. Os pais, os filhos, os amigos, os que não sabemos que nos amam e os descobrimos num olhar, num comentário, numa desmanchada observação, num corrupio de arco-íris embuçado. O processo de amadurecimento não se faz com obra. Com obra faz-se isso mesmo, obra. O processo de matu...