Vida incendiada
Dão-nos uma vida incendiada, Três cabazes de alegria, Mil pedaços de tristeza, E uma esperança fugidia. Pregam-nos sermões na lapela, Boas maneiras decoradas, Uma escola onde não se aprende, E uma alma degolada. Abotoam-nos com botões de escravos, Televisão e publicidade, Mas não nos ensinam a forma, De viver com a verdade. Permeiam-nos a alma erma, Saturam-nos de representações, Mas na esquina da saudade, Oferecem-nos ilusões. Abastam-nos de covardia, De salários cheios de fome, Dão-nos redes sociais, Com frases de outros disformes. Retiram-nos o pensamento, As lágrimas e o sentir, Escurecem o mundo de rosa, Ensinam a mentir. A crise morre solteira, Não tem culpa o lavrador, Compensa o topo de gama, A poesia do trovador. E assim se mascaram os ditadores, Da alienação colectiva, Sobrevivem os pensadores, Desta besta selectiva. E assim faço da palavra, Como o Zeca fez do tormento, Não há machado que corte, A raiz ao pensamento. Não me prostituo ou castro, Dos meu conce...