Postagens

Mostrando postagens de dezembro, 2009

Fim ???

  O beijo de água da tarde já gasta chegou. Fim de tarde inicio de noite, fim de noite inicio de dia. O fim não é mais do que um princípio. É um ciclo. Esgota e conclui. Cíclico como tudo. Tudo é feito de inícios e finais. A vida vive-se nos intervalos. Vive-se entre o fim e o princípio do que quer que seja. Esse é o conceito verdadeiramente de tempo. A vida vive-se e faz-se de um conjunto extremo de emoções. A vida é uma dádiva que oferecemos a nós mesmos e que aceitamos de quem nos oferece. Como os anos, não existe final de anos, senão vejamos. Meia-noite, zero horas, zero segundos…. Final. Meia-noite, zero horas zero minutos e um segundo… Inicio. Pode lá ser, um início e um final ser separados pela respiração, um beijo ou um abraço. Tontaria pura. Início é nascimento. Final é morte. Mesmo assim dúbio o conceito. Quando os meus olhos se assentam levanta-se em mim intempérie. Não ser conhecido pelas palavras é o desconhecimento do meu conhecimento feito de mim próprio, ca...

Raiana

  A alma a "coisa" que eu desconheço mais silenciosa de um ruído que conheço.... A alma não tem direcção porque sabe o caminho… A alma não dói, no entanto tem chagas incuráveis e dolosas vontades… A alma é infiel na felicidade da fidelidade…. As vontades da alma são sempre isentas de dolo, pelo menos as almas puras.   As almas são árvores e têm raízes que proliferam na terra. São férteis. As árvores têm seiva como sangue que as mantêm vivas e possuídas de um recanto sombrio. A cúpula é o início da alma das árvores que juntas fazem uma floresta, onde os raios de sol irrompem de sinónimos e de igualdade regrada. O silêncio administra os meus dias, a tua face desconhecida, o conhecido e exacerbado sorriso excêntrico quedo e tranquilo. A fresquidão adormece dentro do meu peito fervente de ideias, sonhos e inspiração. Os vernáculos pensamentos e eróticas melodias baixam em mim. Treme-me o timbre imaginado de uma vez escondida. Sossegado, acomodo-me arraigado a ...

Mais um dia e findo o ano

  Mais um dia e findo o ano.   Sou como os demais faço o balanço: - O resultado deve ser liquido e de saldo positivo, a diferença entre o deve e o haver terá que ser inquestionável, o investimento e o retorno também, o empreendedorismo, a inovação, o lucro final que deu toda esta trabalheira durante 365 dias, o levantar e deitar de madrugada, os kilometros percorridos, a esperança, a solidão, os resultados, o empenho, a preguiça, a saúde, a doença, os sucessos, a raiva, o medo e a fé ……… Fizeram o ano   Como os demais projecto o próximo ano que terá inevitavelmente que ser diferente: - O resultado deve ser liquido e de saldo positivo, a diferença entre o deve e o haver terá que ser inquestionável, o investimento e o retorno também, o empreendedorismo, a inovação, o lucro final que deu toda esta trabalheira durante 365 dias, o levantar e deitar de madrugada, os kilometros percorridos, a esperança, a solidão, os resultados, o empenho, a preguiça, a saúde, a doença, os...

hibridamente

  Sinto-me inquietantemente fértil. Entendo-me como um ser híbrido. Híbrido entre a vida e a morte, o querer e o desquerer, o prosaico e o eclético, o simplista e o complicado, o verão e o Inverno, o mar e praia, as estrelas e a lua. Não existe meia estação, com aquelas blusas suaves que assentam na pele, como um beijo suave e desejado. Tudo é fogo, guerra e luta. Sinto-me de olhos vazios prostrados numa imensa planície cheia de vida, mas desiludida pelos Homens.   Sinto-me hibridamente homem na minha pele e mulher na pele da mulher que gerei e amo. Arquitecto sonhos, pinto fantasias e jogo com as ondas do mar uma igualdade inexistente. Se nem as ondas são iguais e todas têm sal, como podem as minhas expectativas serem esperança?   Mordo-me os lábios e deixo-me marejar dos olhos. Sinto o corpo pisado e a areia que recebe as ondas, encarnada de vermelho esquerdista. Sou híbrido, sou vida e sou morte. Em miúdo ia para a escola pelos carreiros enfeitados de silvados que prendiam amoras, a...

Cristal

  Entre bruma e nevoeiro Alcancei. Alcancei ventos e tempestades, Bonança, esperança, esperei. Moinhos brancos de vento, Lavaram as palavras, entenderei?   E a formula cegamente A deus a disse e não guardei. Espuma branca rebentada, De uma onda que gerei. Um mar meu, Preso, sonhei.   Altíssima fonte Guardada. Gerada na rocha cinza, Verde mente desaguada. Vidente podre adivinhada, Uma fé desconjugada.   Perdi deus Na encruzilhada. Pelos homens dele amados, Mensagem, pecado obcecado. Amantíssimo amor verdade, Pelo clero justificado!

Des-graça

  Gosto de trabalhar naquilo que não trabalho. Devia ter a coragem de comprar a minha auto caravana e ir. Por aqui a coisa esta feita. Já me chega de bom dia, “faz favor de sentar”, e do “obrigado sempre ao seu dispor”. Chega porra. Não tem a ver comigo, muito menos aquele engalanado fato e gravata que mais me faz sentir um vendedor de religião de porta a porta. Faz-me confusão receber ordens de um idiota com um título académico duvidoso e inferior ao que detenho. Vale o que vale. Sinto-me arrogante em dizê-lo aqui escrito e aberto ao mundo, mas a dor de pescoço que adquiro numa sinalética de aprovação ou negação, justificam-no. Ouvir um tipo que se adora ouvir a dizer baboseiras e dizer constantemente, sim senhor e pensar de mim para mim “és cá um urso”, e dizer não Sr. engenheiro e pensar igualmente “ranhoso”, faz me mal. Não engulo assertividade com facilidade, fico com azia e diarreia, mas no mesmo minuto penso que tem que ser, porque ...

A ver se passa ou se me passo

  Pesa-me a cabeça nos ombros. Sinto os meus braços separados do corpo e as pernas presas. A minha cabeça é desobedecida pelo meu corpo. Sinto pelo corpo fora pontadas crispadas na pele como se os ossos se quisessem descolar e romper pele afora. O sono espreita longe mas não desagua em mim. Os músculos enrijecidos, sucumbem ao desencontro com as dores. Os dedos engrossados e disfuncionais encolerizam-se com a alma, o adiamento de um novo dia normalizado teima em vir. Aguento. Enquanto isso, os afazeres normais são pronunciados por mensagens de esperança que são o único alento possível. As posições esgotam-se com as madrugadas e os finais de noite, tanto quanto os inícios dos dias. Crispa-se o olhar em paisagens iguais percorridas por passadas desiguais. Não rezo por falta de fé. Espero, construindo pedaços de paciência retemperados, não sei que parte de mim mesmo os engendra, mas faço minutos, horas e semanas de e com o tempo. Sei simplesmente ter uma aliviante parte tentada de uma pág...

Sábios de humanidade

  Existem pessoas iletradas extravagantemente sábias de humanidade, ao invés existem pessoas cheias de títulos académicos desumanizadas de vida. Os processos longínquos no tempo, afagam os seres em sabedoria, experiência e vida. Os outros, os rápidos e escritos nos livros, apenas são sinais que pressupõem ensinamento, o que não quer dizer que se atinjam os objectivos proscritos, é necessário experimentar para se ser sabedor de tamanha obra engendrada de, e para a humanidade. Desconfio sempre dos calados, sorridentes e bonzinhos. A humanidade habita a alma, a humanidade esta cheia de atitude e boa vontade. A humanidade não tem dias, muito menos tem dádivas programadas. A humanidade é um apelo, uma figura de estilo e por vezes o contrario dela própria como conceito. A humanidade povoa a alma mais do que a mente, por vezes são apenas lágrimas e questões. A humanidade é as mãos entrelaçadas de coração, são as crianças sem frio e com um baloiço para andar. É estar lá por, e por vezes apenas...

Cegueira minha

  O feno está molhado e amontoado. Montes de feno escurecido no verde e viçoso sombreado das arvores de cúpula redonda e rasante. O céu acordou deprimido e tem cor disso mesmo. Está como a cor cinzenta de um par de olhos desventurados Passeiam-se nas ruas os assocializados. Nas esquinas do deslumbre existe cheiro a café quente acabado de fazer.   Dezembro é um mês gasto a precisar urgentemente de ser substituído por sonhos, promessas e delineamentos de vidas novas, de um fazer de contas e um desenhar velhos futuros. As estradas estão desertas como espíritos. As casas estão adormecidas como almas. A serra encobriu-se envergonhada, não se vê do sítio do costume. As músicas são mais melodiosas e compassadas. Os telejornais dão as mesmas notícias do anterior e anunciarão as mesmas notícias nos seguintes. É como se este dia não existisse e apenas se esperasse pelo próximo sem pressa.   Tenho as mãos trémulas e a minha guitarra calou-se. Caminho com passos desenquadrados, sem saber qual o pé...

Não mais !...

  E “prontos”. Amanha os contentores estão cheios de comida desperdiçada de restos de um dos pecados capitais, a gula. Papeis coloridos e laços. Matéria endossada mais do que partilhada. Sentimentos desalvoraçados e histeria colectiva partilhada com grau alcoolémico a condizerem. A obrigação está feita, fomos todos muito amigos e comemos à fartazana. Amanha é  ressaca e cara disso mesmo. No dia seguinte abre a guerra e tudo está igual, tirando o empaturramento da noite chamada de natal. O natal afinal, são seis horas e muitos dias antecedidos de luzinhas pirosas e frases feitas, de dedicadas palavras elaboradas e de apelo comercial colorido. São os minutos de êxtase que o presente mais caro e inútil oferece. Enquanto isso, Africa está miseravelmente sem medicamentos, água potável, vacinas, paz e saúde. Enquanto isso, a guerra existe por mais um barril de petróleo, porque temos um credo ou preferência sexual diferente. Enquanto isso, a miséria prolífera nas ruas de Bogotá e a...

Boas Festas

  Acho que o mundo está feito para mudar os outros. Está apinhado de emissão de juízos de valor. “não deves ser assim”, “não podes fazer isto” ou “não é bom fazer aquilo”. Fazem-no de uma forma sublime, hoje em dia. Fazem-nos os psicoterapeutas, os psicanalistas, os psicólogos, os psiquiatras e uns mais não sei quantos, não sei o quê, psico qualquer coisa. Fazem-nos “os média”, os nossos amigos, mulheres, namoradas e amantes. Fazem-no o governo da nação, a religião, as raças, os poetas e os cantores. Fazem-no em discurso directo e indirecto. Com frontalidade e disfarçado. Com conceitos éticos, normas, leis e regras, sem moral e com. Pior, fazem-no por comparação com um discurso tipo exemplo do: - “eu cá faço desta e daquela maneira, acho que devias…….” Não há pachorra, a liberdade individual cabe a cada um decidir. Mais, a liberdade termina onde começa a do próximo. Ser certinho não é sinónimo de fazer bem, ou mal...

Solta-me !...

  Solta-me! Solta-me das amarras, Palavras são liberdade.   Solta-me dos julgamentos, As palavras não se avaliam, Deixa-me meu bem-querer neste barco velejar.   Sem rota, Sem direcção, Solta-me nas madrugadas.   Deixa-me ancorar quando o vento amainar, Não dispas de mim as palavras, Peço a deus que não me seque de vocábulos.   Amo-as, Prende-me meu bem-querer por não me entenderes, Prende-me por não leres o que escrevo.   As palavras são pedaços de letras amontoadas, Aglomeradas de vida, Destino.   Musicalidade, Roupagem, E direcção descontrolada.   Seca a tua cara das palavras que não te escrevo, Sorri das palavras que te digo. Meu bem-querer,   As palavras são amor mais que ódio, São querer, mais do que bem-querer, São amor, amor, amor.  

Espera-me !...

  Espera-me. Espera-me por detrás do mosteiro velho, junto ás ruínas onde nos beijámos pela primeira vez. Lembras-te? Espera-me junto ao silvado de amoras frescas que me picaram do teu sangue. Até hoje sangro. Não saro esta ferida de amor. Espera-me com esse desejo alucinado, de mãos suadas e frias e o coração descompassado. Quando eu chegar, molharemos os pés na ribeira embelezada de seixos e rebolaremos desordenadamente os dois na relva da encosta, debaixo da ponte. Obra feita por Deus aquele naco do mundo. Espera-me, não te vás de mim, assim sem mim. Quando os ponteiros do relógio da torre que desabou se cruzarem chegarei, chegarei a tempo, o tempo é nosso. Dançaremos sob as nuvens e voaremos de mãos dadas por aí, sem destino ou direcção. Iremos até à beira Tejo e falaremos aos peixes do rio sem nos olharmos. Depois voltamo-nos um para o outro e abraçar-nos-emos sem tempo, como se o mundo fosse desabitado e um lugar deserto e único, só nosso. Enlaçaremos no tempo como se ele fosse u...

Conhecimento

  No fundo dos teus olhos existe conhecimento, existe vida. O teu olhar vê e lê o que de mais profundo há em mim. No fundo dos teus olhos há pranto e encanto, há saber e querer. No fundo dos teus olhos que são os meus, existem os meus que são teus. Existem intermináveis conversas feitas apenas e tão-somente de palavras sem som ou expressão, existe uma cúmplice e tremenda alegoria, um bailado e uma poesia. Existe uma saudade arrebatada de falta e destituída de preconceito, desamarrada no cais exonerado. No fundo dos teus olhos, de soslaio empreendo uma obra que irá sempre ser e ficar inacabada. Do fundo dos teus olhos prendes-me e pedes-me. Do fundo dos teus olhos existe presença e coerência, ritmo e melodia, uma forma erudita de me saber e de me entender. Os teus olhos mentem quando não me queres, e brilham sorrisos quando me recebes. Os teus olhos vagueiam pela luz que deles emanam caminho, vertem agua quando no escuro adormeces. Os teus olhos são da cor do arco-íris e mudam em cada f...

A noite é um lago

  A noite é um lago.   Meu amor, quando eu morrer veste encarnado e vermelho no teu luto. Pede para me queimarem bem queimado. Faz as minhas cinzas voar ao vento de um morro voltado ao mar. Quando ele vier na tua direção e anunciar o seu rebentar na rocha onde estiveres, desfaz-te delas. Acena ao céu e agradece por mim a viagem.   Meu amor, quando eu morrer dança nessa noite ao som da música que ouvimos e gostamos. Acena à manha e bebe o café que beberíamos. Celebra-me com um poema que tenha escrito, escolhe-o. Abraça gente. Abraça as pessoas de quem sabes que gosto, por mim. Adorna-te do mais esbelto sorriso que conseguires nessa tua boca beijada de cada vez que fizemos Amor. Passeia-te pelos campos cheirosos de amoras e toca o nevoeiro pousado nas madrugadas dos prados verdes, abraçados e pungentes.   Meu Amor guarda umas quantas gotas de orvalho numa caixinha zincada e oferece-a a um qualquer citadino distraído com a vida, sem dizeres coisa nenhuma ou nenhuma palavra. Apanha uma flo...

Os teus olhos

  Olho para dentro dos teus olhos E vejo a minha vida, Olho para dentro da vida E vejo os meus olhos em ti.   Olho para as tuas mãos E vejo o teu coração, Olho para os teus olhos E vejo minha, a paixão.   Olho só por olhar E fico enfeitiçado, Não sei a cor dos teus olhos Mas neles leio o fado.   O fado é meu amante Os teus olhos a perdição, Leio, canto e sinto Amor nesta canção.   E vejo o teu caminhar Descer abaixo pela rua, Menina de peito aberto Que carregas a alma nua.   E sem saber ler o que vejo Faço uma rima que não dança, Por ti mulher ausente Tens no cabelo uma trança.   E esta noite sonhei Vivi uma grande ilusão, Sonhei que eras a chuva E as poças o coração.

Ufaaaaaaaaa!.......

  Uma sala fria bordada a azulejaria barroca. Tecto alto modernizado com um imponente ar condicionado. O reinado de D. João V correspondeu a uma importante renovação decorativa dos espaços do Colégio do Espírito Santo, expressa nos azulejos, mas também nas cátedras, no tecto da Biblioteca e na fachada da Sala dos Actos da Universidade de Évora. Linda, mas por si só intimidadora.   Se juntarmos ao facto, uns senhores de ar sisudo e julgativo que nos ouvem com os olhos, e nos dilaceram com um ar distante, não será nunca fácil iniciar um discurso representativo, apoiado pelas novas tecnologias, que os convençam do nosso comprometimento e competência.   Os minutos iniciais parecem horas. A nossa voz não parece ser a nossa voz. De repente, de olhar vazio e fixo primeiramente em nada, e depois nuns olhos sem expressão, a voz fica reconhecida e parece nossa. As mãos tomam forma e ganham gestos apropriadas. O árduo trabalho apresentado num silêncio ruidoso de expressão, dói.   Minutos depois s...

Por mim, sim !....

  Mágoa é o acto pressuposto e resultante de acto de entristecer pela tristeza causada e ofendida, o acto de melindrar ou ofender, de pisar ou contristar. Diferente de magoar, uma figura por si só feita de tristeza ou desgosto, dor de alma, amargura ou condolência. Ambas são explícitas e com uma obvia ligação, diferenciada apenas no acto que causa ou é causada. O detonante não sendo igual atinge o mesmo fim. Simples palavras, um acto, ou um trágico acidente ou perda, fazem sentir a mágoa de magoado, no físico e no sensorial. A dor não se mede ou pesa. A forma de lidar com ela em nenhum caso ou todos, poderá ser igual. Os sentimentos que o fazem sentir são diferenciados de igualdade. Neste domínio ninguém pode avaliar ninguém e muito menos as causas ou consequências serão identificáveis no mesmo sujeito. Entra-se então no campo ético, cultural e comportamental. As necessidades básicas e o bem-estar necessário a cada individuo ou objecto. A felicidade ou infelicidade, o choro, o riso, a ...

Resultado liquido

  A névoa tem candeeiros de luz amarela exaltados num manso soluçar. O jardim sossegado, deixa pousar-lhe a transformação gasosa da água do rio e do frio, aquietar-se na relva tratada, verdejante e clara. O bar de madeira tem um ar quente e confortável. As sombras reflectem os passos permitidos pela lua. É uma noite já adiantada de noite. Imóvel, não há olhares. Fumegam brancas as chaminés das lareiras que enfeitam o ar de um saboroso perfume com aroma a fumo invernoso. As palavras dilaceram-se em pensamentos coadjuvados de sentimentos. A passarada enrola-se nas asas feitas de calor. A calçada coberta de uma humidade intocável brilha à obra do artista que desenhou um cavalo de restos de ferro. As quintas sobranceiras descansam na noite desaparecida de gente. O rádio emite uns sons imperceptíveis mas coloridos. Rasgado de pensamentos e promessas por fazer, caminho em direcção a casa que aquecida me espera. O silêncio nem sempre é de ouro e a lua não é toda de prata. Levo as mãos ao meu ...

Palavra de enxurrada

  Traço riscado com o teu nome, Num sorriso distante.   Madrugada avassaladora, Amor presente.   Homens que ferem os homens, Irmãos que não o são.   Abril criou os cravos, Desalentados entrementes.   Desplantadas ilusões, Cravadas de realidade.   Sacro santo popular, Liberdade protelada.   Palavra riscada pelo teu nome, Lavada.   Levada numa enxurrada, De lama e miséria forçada.   Em Novembro, Não no Abril, das aguas mil.

Entretanto

  Numa correria alucinada vou em direcção a uma bola de fogo que me cega. Luz brilhante e plácida. Ferro-me no peito uma espada de lâmina encerada. Penitencio-me dos meus pecados. Sou parte de mim mas não me tenho. Sou e não sou. O meu corpo ainda não me reconhece. Corpos compram-se e até se alugam. A alma e o espírito ou se entrega, ou não existe troca, compra ou venda possível. Respiro baforadas de esperança que se desprendem em sopros únicos e exclusivos. A dor dorme no meu leito na confiança de me embalar e desaparecer com o acordar. Alegro-me em conseguir caminhar somente, mesmo desconhecendo o caminho que me espera no dobrar da maré que se forma, desconforme e desordenada. Desconexas as minhas passadas titubeiam em escarpados sentires que resultam sempre no adiamento do dia de hoje, trocado pelo amanha esperado, esperançado e sereno. Ordeiro submeto-me e obedeço à impotência de não saber caminhar. De não saber adequar o caminho aos passos que tenho por confiar. Amanha em terras l...

Natal ???

  O natal esta aí. Que bom. Posso me encher de sorrisos e pôr umas lâmpadas paneleirosas dentro de uma mangueira, enrolada ao varão da minha varanda, voltada para a avenida anunciando a minha solidariedade natalícia. Posso até pôr o pai natal pendurado na janela com um saco ás costas. Posso fazer de rei mago, menino Jesus, Maria, burro ou vaca que nesta época vale tudo. Posso ser hipócrita e não pensar na fome e guerra latentes, nas mulheres vítimas de violência e até nos bêbedos e drogados. Posso esquecer a crise financeira, o empobrecimento e/ou o enriquecimento de urânio. Posso agradecer aos filhos da puta que nos governam o roubo mensal ao meu salário, e pior que isso o reinvestimento que fazem com ele. Posso agradecer as propinas que pago e as horas que passo num corredor de um hospital à espera de uma puta de uma receita de ben-u-ron que podia ter conseguido numa vídeo consulta. Posso agradecer o simplex e a sua afamada tecnologia de ponta. Posso esquecer os mais de quinhentos mi...

É a vida

  Espanto-me na verificação dos caminhos que não decidimos percorrer mas percorremos porque a vida nos tem reservado estradas desconhecidas, não escolhidas. A alma do nosso ser saltita de janela em janela. As janelas são o que vemos quando chegamos até elas. Nunca veremos a paisagem de uma janela, se nela não nos debruçarmos. A vida é isso mesmo, espreitar de janela em janela e ver a paisagem que dela se avista. Não escolhemos nem a paisagem nem a janela, elas são-nos oferecida por momentos e em situações não escolhidas ou análogas. A doença tem esse milagre de nos ajustar e reduzir ao nosso pequeno e vulnerável tamanho. Insignificantes as nossas decisões. Somos e faremos o que tivermos que fazer, sem escolha. A vida é um caminho feito por passos intuitivos, sem nenhum poder decisório, mas deveras ilusório. A vida é muito mais aceitação e fé do que decisão.

Lagrima suave e serena

  As lágrimas suaves e serenas escorrem quentes e molhadas ardentes. O sabor anuncia os teus segredos inexequíveis. O teu olhar suplica respostas que não existem, respostas que ainda não foram inventadas ou descritas. Perceber a angústia do teu acordar ainda tem vários dias de caminho pela frente. A noite há-de encaminhar a paz. Num jardim à beira de um lago, numa infernal roda brincada, pálida e esbranquiçada, anda de mão dada a concórdia. A tristeza do tamanho da galáxia, bebe-me em goles sôfregos e desordenados, a acalentada esperança de retornar a mim. Uma noite depositada a seguir à anterior, falece. Numa espera desabafada encharco o lençol que me embrulha. Queria mais que existir. As paredes separam as noites e as janelas entreabrem as estações. O sol queima torrado a existência dissimulada. Misteriosa, a marginal iluminada de um nevoeiro denso e pousado, geme agua pela calçada que a cobre. Salpicado por momentos de luz desço em direcção ao norte, em direcção ao porto de abrigo, ...

O tasco

  Gosto do cheiro a vinho, tabaco e petingas, impregnado no balcão de mármore preto da tasca do Sr. Manuel. A peitaça e o decote da Manuela, tornam as refeições mais apetitosas e fartas. Fartas daquelas frases que entornam meias palavras, que não se dizem mas se entendem. O ritmo a que saem almoços, o código da Manuela com o Manuel e as ordens para a cozinha, são qualquer de admirável no processo estratégico e organizativo. As pessoas na tasca no Manuel são mesmo pessoas. Dividem a mesa e as conversas. É magnificente admirar como a Manuela sabe a bebida de cada cliente e qual e a quantidade. Como sabe da sopa e da sobremesa. Como fala com o olhar não saindo nunca da sua postura profissional, mesclada de olhares sorridentes e cúmplices de entendimento, de quem tudo percebe e nada entende. A Manuela conhece os clientes e os clientes apreciam a velocidade e o seu desempoeiramento, é o exemplo vivo de que mulher honrada não tem ouvidos. A Manuela já mete a filha a caminho, uma catraia que ...

A inversão do conceito bandido

  A inversão do conceito bandido.   Todos nós crescemos com o conceito de ladrão e bandido, serem pessoas repugnantes e que se evitavam por serem perigosos. Bandidos eram pessoas de má fama, com registo criminal e um cadastro recheado de episódios e danos sociais. Um bom e velho bandido, roubava carteiras ás velhinhas e papossecos aos putos da escola primária, mas não só, gamava as moedas das máquinas de flippers do salão de jogos do Jota, e o silêncio respeitoso reinava de cada vez que a sua presença nos presenteava. Um velho e bom bandido tinha de xis em xis anos uma temporada de cana, ás casas altas.    Com a modernidade dos tempos e dos anos setenta, o conceito de  bandido começou a adulterar, começou a azedar a ficar fora de prazo, senão vejamos. Bandido que fosse bandido teria que ter contactos com drogas e zelar pelas redes que garantissem a sua boa distribuição. Tinha que ter meia dúzia ou mais de mulheres bem tratadas, e namoradas que dormiam com uns quantos gajos diariamente,...

Sete ondas

  Sete ondas sete mares Eu travei por conquistar, Naquela terra distante Mesmo defronte do mar.   Sete ondas setes beijos De uma boca por inventar, Fogo de chama ausente Dois lábios por se tocar.   Sete ondas sete ausências De uma esperança por debruar, Dentro do coração fervente Sete abraços para dar.   Sete ondas sete abraços Mesmo diante do mar, Presença, saudade, vontade Neste enleio por beijar.

Seis de Dezembro de todos os anos

  Mal acordei tinha-te abraçado. Aquele abraço, forte e anual. Apesar de confuso e baralhado, doente e assustado, não te esqueceste do renascimento a seis de Dezembro. Sei o que significa para ti e para mim. Esteve um dia choroso iluminado pela cor de cinza. Espreitei várias vezes o dia, contemplei a estrada brilhante, lavada pela chuva que lhe dava um ar encerado. De quando em vez passavam carros compostos por famílias de vidros embaciados. Foi um dia cinzento de trabalho. Revi dias de vida feliz. Outros nem tanto, mas todos sentidos do sentido que a vida tem. Dias de alegria e de tristeza. Dias dolosos e esforçados, dias enormes e dias pequenos. Dias sem mim, dias comigo. Dias desprovidos de caminho, tempo e direcção. Dias convictos mais que o contrario. Dias decididos e decisivos. Revi os amigos que mantenho e outros que nunca o foram. Revi pessoas cruzadas por mim e pelo tempo, namoradas, amantes e conhecidos. Retrospectivo, assinalei madrugadas e noites isentas de sono. Dei abrigo...

Vou fazer a cama de lavado

  Vou fazer a cama de lavado, Esticada, engomada que te receba, Com roupa suficiente para não regelares.   Vou colocar uma almofada macia, Com fronha de sonhos, E a dobra nos teus ombros.   Vou colocar-me ali, Admirado por te admirar, Para o teu sono velar.   Vou sentir os teus pés macios, Enrolarem nos meus, Fazer do meu peito o teu.   Vou ver os teus olhos dormir, Os teus lábios debruados, O cetim aberto e fechado.   Vou escutar o teu respirar, Fazer a cama de lavado, Para nela te estimar.   Desabotoado o teu peito, Tão doce e feliz descansa, Deitado a teu lado sou bonança.   E o teu cabelo? Está sossegado, eu ao teu lado, Sou amado.   Vou fazer a cama de lavado, Com lençóis a condizer E linho feito de ti,   Vou fazer a cama de lavado, Com a dobra sob os teus ombros, E nos teus ombros, serei eu.      

O céu, as estrelas, a luz, a agua e a vida

  Tenho o céu, as estrelas, a luz, a agua e a vida. Tenho dentro de mim um céu plantado de girassóis feitos de estrelas que me tornam sensível. Tenho estrelas geradoras de positividade. São o meu pólo positivo, os meus sonhos, a minha esperança e honestidade. A luz é o caminho, o que projecto e trabalho, a minha generosidade e empatia. A água na minha vida é como a minha entidade, é feita de enxurradas, de vontade, querer, e amizade. Elevam-se dentro de mim rios soltos e livres, que desaguam conceitos muito mais do que preconceitos. O desarmamento de ideias e ideais são processos imperceptíveis ao tempo, mas existentes e vivos, duma vontade arrebatada e irracional de dar, ser e estar. A vida é a soma das partes vivas dentro de mim. Sou eu. São as minhas observações, experiências e comprovadas metamorfoses de que sou alvo. São crescimento e património mais do que fortuna. Tenho tudo. Tenho dentro de mim, o céu, as estrelas, a luz, a agua e a vida. Tenho um ente contínuo, superior e cole...

Noite de fogo feito em mim

  Procuro o vento num vão de escada numa noite em que disse que vinha e não apareceu. Por detrás de uma arca velha e carunchosa procuro e não o encontro. Não valerá a pena procurá-lo mais. Quando aparecer, verei as folhas assobiarem desordenadas e embaladas, por detrás das janelas embaciadas e húmidas de um escorrer de água onde desenho montes e casas e a palavra amor. O lume estala num bailado, dilacerando cada pedaço de madeira soprado. A lenha transpira. Guardo em cada labareda um segredo meu. Confidencio de cada vez que desapareci e não fui reparado. Cada não reciprocidade aos meus sinais. Confidencio guardadas traições, omissões e a desilusão do conhecimento. Confidencio o desconhecimento que me ilude. Guardo e queimo tudo, algures na dança do fogo e em cada labareda alvoraçada. Guardo olhares e desejos. Vontades, pensamentos e poesias. Escondo e pouso o meu olhar parado e enfeitiçado. A vontade de ficar ali eternamente naquela banco baixo que me amolda ao nível do fogo. Quando fi...

Entre o nascer e o morrer existe a experimentação

  Nascer, aprender, viver, experimentar, estabilizar, apreciar e morrer.   Nascemos desprovidos de tudo aquilo pelo que lutamos. Guerreamos interiormente e exteriormente para partirmos exactamente sem nada do que lutamos. E nada é nada. Partimos da vida desprovidos de pessoas e bens, tal qual como chegamos.   Aprender ou apreender é o caminho da nossa existência. Aprendemos onde menos esperamos e com quem menos esperamos. Ensinamos sem consciência que o estamos a fazer. A desilusão é vasta e densa e transforma-se em desadmiração.   Viver é um exercicio sem formula resolvente. É um empreendimento unipessoal. É a magia de não saber nada do minuto a seguir que a vida nos oferta. É deus e o diabo no mesmo quarto. É o amor e o odio no mesmo sofá. É a alegria e a tristeza na mesma praia. São as sementes e a selectividade de nos darmos em permante aprendizagem, sem fim.   Experimentar é arriscar e crescer.   Estabilizar é regar de auto-estima, conhecimento e transformação, a mutação constante...

Por lá, mais do que por cá !

  Montes gerados de montanha e serras altivas, sustentam-me, Sustenta-me o olhar cortado de horizonte, Por lá, mais do que por cá, Pendurado curvo-me, Pesado caio, O amor passa imprevisto, Sustenho-o, Acredito na minha vaidade, De saber de amor, Amarro-me prisioneiro, Dou-me estatuto e competência, Sou louco lúcido de pensamentos desprendidos, Para lá da colina já é manhã, Manhã acordada do lado de lá, Por cá adormece uma noite inventada, De acordes, falatório, agua, café e pão,   Como será a madrugada no estrangeiro? E os caminhos? As serras de lagoas dentro? O mar por alto, O baixo mar, E as marés? O frio? As borboletas? E os girassóis, Os cabos de mar? As rochas e a ventania, As poças desenhadas de agua A chuva E o ventre da mulher mãe?   Será por lá como por cá?

Caem folhas aos cântaros

  Caem folhas aos cântaros de um castanho invernoso, amontoando saudade de caminhos aglomerados. Despeço-me de sombrios pensamentos. Flores com cheiro de incenso soltam-se do céu. Antes de ti existe uma fronteira. Passo-a de assalto. Salto forte, sem medo. Percorro uma iluminada luz que me cega. Vislumbro um caminho que faço num fundo de um túnel. A roupa queima-me a pele, dispo-a. Segredo-te desejos de uma verdade que não entendes. Junto da mais bela serra existe a mais bela aldeia. No xisto desejo dormir, e jorrar de amor sem parar.   Se eu fosse um dia Rei e tivesse o meu reino, jamais esta beleza sairia do meu trono. Mandaria encarcerar todos os arquitectos do mundo soltar todos os criadores. Abriria todas as ruínas e deixaria brotar a sabedoria nelas guardada. Não haveriam torres habitacionais, guetos e morte. Não haveriam seres livres na prisão. O acordar seria com o galo, o adormecer com os pássaros e o vento seria música. Tu serias a rainha do meu reino.   Terra de costumes, tí...