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Mostrando postagens de setembro, 2015

Noite

O sono esta noite não me adormeceu, O meu corpo repousado pernoitou com a lua, Acordado, E eu às voltas com a saudade, Adormecido e despertado.   Aos primeiros raios de sol, Lavei os olhos com o cansaço, Abracei a chuva, Que me espera com o dia, Na noite já acordada.   Deambulei pela cidade, Sem luz, Sem alma, As máscaras na face de quem passa, Não me sorriem, nem me abraçam.   Bebo um café quente, Sempre o café, Que me conforta, Da noite já esquecida, Num dia que não tem norte.

Excerto de palavras desconstruídas por ver o sol um dia_II

O sol brilhante embacia os meus olhos. Não te vejo. Não te sinto. As palavras são meras letras amontoadas sem sentido, quase que me sinto alienado, esta loucura é equacionada, com um: - será que estou mentalmente são?   Entra-me pela alma adentro a minha verdade e a tua, sabendo eu, que não existem duas verdades para a verdade, questiono as palavras que silencio.   Mil vezes pensei em morrer desta vida descontinuada e, mil vezes regressei pelo sentido que queria que as palavras tivessem. Perdi sempre. Perdi-me sempre na floresta do meu entendimento.   Também ganhei. Ganhei na solidão que me enche, ganhei-me nos luares que decifro, ganhei-me nos acordes que dedilho, ganhei-me no desentendimento das palavras no condicional, ganhei-me no entendimento transumano, ganhei-me em humanidade, ganhei-me nos abraços dos amigos e na selecção natural, feita pelo entendimento do sentido das palavras.   Não existe uma mentira e uma verdade para a verdade, não existem duas verdades para a verdade.

Excerto de palavras desconstruídas por ver o sol um dia

“Foi no último dia. O último dia do mês. Seria o primeiro dia de um último por anunciar. O mar plantado depois do pinhal, uns acordes entoados, a pele tocada com pele, e as nossas almas arrebatadas.   Tivemos um rio, uma nascente, noites de nevoeiro e gelo que derretemos de corpos dados. Tivemos um castelo erguido que nos albergou, mas nunca alcançámos a paz que a paixão retirou. Existiu sempre em nós, um “fora de tempo”, um “fora de horas”, uma anormalidade seduzida e uma vida fora da gente, e, gente.   Fora de nós existiu a impossibilidade da fusão das almas. Não cresceram as manhãs com cheiro a café, e as gargalhadas palermas avizinhadas de nada, e não floriu o “querer-bem mais do que bem-querer”, o conforto do abraço e a intimidade criada, não foi sequer semeada.   Entre nós existiu, existe e existirá, o afastamento adiado da alma, o último dia e os corpos suados de nada. Depois, tudo será desdito por percepções anormalmente díspares e expresso em palavras diferentes, não entendív...

coração

Nunca entendi os humanos ou nunca fui entendido. Já o mar, a lua grande da noite passada, o vento, o som da bicharada no mato, o desfiladeiro, o rio e a imobilidade da paisagem entendem-me, como se de mim fossem, prolongamento.   Os mais gostados pelo meu coração e os amigos que partiram, não compreendem o meu fascínio e a minha alma. As paisagens salpicadas de natureza, a perfeição de cada folha ou grão de areia, pertença do seu local e não a outro lugar qualquer, não me falham.   Já a humanidade despertence-me cada vez mais e existe a forte possibilidade, de um coração sangrar no esquecimento, de por quem o meu coração sangrou.

somente descubro o que detenho

Descubro-me ou identifico-me com o que descubro? Leio o que possuo e por isso me descubro?   Não. Sim. Procuro e encontro, Porque somente descubro, O que detenho!

um dia que é só feito de um dia

Posso ser a chuva no teu choro, A melodia e o encanto,   A parecença com a madrugada, A gaivota e o mar brando,   Na areia que marca os pés, Escrevo a direcção e o rumo,   Posso ser o farol que te falta, O sal, a brisa e o pranto,   Posso tudo e nada posso, Num dia que é só feito de um dia.  

Frescos pedaços de Outono

Soltam-se pedaços de Outono fresco dos teus olhos, A erva seca definha como o fim de tarde, Agora as noites vão ser mais noite, E os dias divididos pela madrugada feita mãe. Acordo breve, As folhas das arvores acenam para o chão, E de dentro dos teus olhos adivinho que se soltarão, Frescos pedaços de Outono.

Por vezes, até as raízes da minha árvore desentendo

Não será meu instrumento esta vida, Mais do que me modificar e transparecer, Os outros, São os outros, E eu deles, nada sei.   O que dos outros oiço dizer, Não entendo, Não oiço.   O que dos outros vejo fazer, Não concluo, Não vejo.   Estes meus anos plantados de vida, Explicam que não conheço ninguém, Não sei nada acerca de gente, E pouco me surpreende, O pouco que não sei.   Por vezes, até as raízes da minha árvore desentendo.  

Rompe

E disfarço-me, E escondo-me, E enfrento-me mascarado, E o corpo rompe, E a face mostra, O que eu quero distante. E o medo dita, E eu não obedeço, E a raiva range, E eu não cedo, E faço por ser, E o corpo rompe.

Acreditado de destino

Acabou a estrada e eu não quero voltar para trás, Neste caminho desconhecido de atalho, Acreditado de destino.

palavras silenciosas e recheadas

Os teus olhos não precisam de palavras porque a tua boca contempla em cada olhar o silêncio,   E, em cada olhar, E, em cada silêncio,   Mais de mil palavras nos abraçam, Silenciosas e recheadas.

Abraçados

O arco iris é a recompensa dos elementos discordantes, A chuva desafiou o sol, O sol rasgou o céu meigamente, Não destruiu a chuva, Convidaram-se, E unidos embelezaram o dia, Abraçados.

Devolva-se a poesia às ruas e as canções aos paredões

Ver-se-á o resultado do capitalismo nas marcas e nos modelos que alienam o pensamento, no imediatismo do ter, pensando que se é.   Ver-se-á o resultado da devolução da miséria ao povo, quando o povo se alastrar, aos olhos de quem olha para o povo como povo.   O analfabetismo de quem sabe ler e não lê, ver-se-á após a distracção de não olharmos para quem nos subjuga. Devolva-se a poesia às ruas e as canções aos paredões. A canção é uma arma e a poesia uma bala,para quem nos quer apagar …

em nenhum lugar

Rabisquei uma flor, Uma gaivota, E a paz segurada num sorriso, Sobrou o ódio. Sobrou tudo e restou nada.   Já dancei com mulheres, Irmãs do meu igual, E na escola, Na cadeira junto à minha, Deu-me a mão o irmão que a minha pátria acolheu.   Desenhei olhos negros, E belas mulheres, Defendi habitação e igualdade, Pintei de escuro o racismo, E ergui o punho pela liberdade.   Morremos todos mais um pedaço, Sem desculpa ou ajustamento, No nome que tem a palavra, Assassino, Porque nenhum profeta desenhou a guerra.   Porque em nenhum lugar foi construído, O lugar que jihad executou, Pela paz, Pelo direito, Pela vida.

Filha

Enfrentarei todo o sal que os meus olhos desejarem deitar, Todo o mar e o universo, Hipotecarei todas as recordações do teu berço, No teu andar pelo mundo, E em todos os teus sonhos adormecerei, E em todas as manhãs saberás que estou a teu lado, Como todos os dias, Por toda a vida.

A paz adiada

Sonhei que as prisões se tinham aberto nos corações de quem olha para os iguais como diferentes.   Sonhei com reciprocidade do abraço entre a gente. Entre gentes.   Sonhei com uma linguagem universal e as mãos dadas sob as lágrimas.   Sonhei acabar com o capital, com a religião, e, plantar flores no peito de todos os seres.   Despertei ! No mar abundava uma tempestade de razão em cada ser, como se fossem os únicos habitantes do sonho.   A paz ficou adiada por pensamento indeterminado.  

serei o louco

Se até as pedras falam e sentem na voz de Torga, Como podem os meus pés não se cansarem deste caminho, deste vale prometido que é a vida, desobrigada de paraíso?   Se até as pedras choram nas encostas que gemem inverno todo o ano, Como pode o meu peito ser flor em Setembro, mar em Janeiro, e luar de quando em quando?   Nas doces cascatas de cheiro a giesta vivo mais um pouco, que a amanhã voltarei e ... serei o louco.

A decisão é inimiga do pensamento

Morro por dentro de uma forma quase imoral numa procura de réplicas e contradições emocionais. O pensamento é anti-inimigo da minha decisão. O chão salpicado de folhas amolecidas silenciam o meu caminho. Os beijos desprendidos prendem-se de recordações parcas e soltas. A minha aldeia está cada vez mais sossegada e fascinante. Jorra nesta esta época do ano a saudade. Geme das pedras que forram a montanha e dos olhos dos que abalaram depois do verão. Sangra das bocas de quem fi ca e do sossego da lenha no telheiro arrumada para o inverno, que já faz frio mais a norte.   As estações são como as contradições perturbantes do espírito. Nunca se ajustam, jamais se encaixam, ou satisfazem. São como um rio que nunca desagua. Como a trovoada que se adivinha. O pôr-do-sol adiado, ou uma gravidez inexistente, no compasso biológico de uma mulher descontente e infértil. A infertilidade é o que nos magoa. Não sermos pródigos e plurais é o que verdadeiramente nos castra sob forma de adormecimento. Nes...

Em mim e nos meus olhos

Esse abraço que me juras quando por mim passas, Rebenta em mim como uma nascente, E dos meus olhos choram sorrisos que nem reparas.   Os meus olhos, Abraçam-te quando te olham, Os meus olhos gritam-te beijos em enxurrada.   E esse abraço que nem sabes prometido, E essa ausência que nem sabes pressentida, São em mim e nos meus olhos,nascente de vida.

A poesia é uma arma carregada de futuro!

A poesia explode e faz-me arder, Como labaredas em que me decifro.   Em palavras descondizentes, Que anunciam pedaços de mim.   Viva é, de entendimento e súplica, De amor e desgraça.   De florestas e de vento, Como igrejas decoradas.   De colares de flores com que me enfeito, E as palavras são as lágrimas que devoro.   Os sorrisos que embargo, As vontades com que me impeço.   A adequação do que não sou, E a verdade que me rege o pranto.   A poesia é uma arma carregada de futuro!