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Mostrando postagens de agosto, 2012

Um eu de mim abraçado,

Sigo-te pelo perfume que os teus passos deixam ao passares. Sigo-te pelas palavras que os teus olhos dizem quando me olhas sem me veres. Sigo-te pela voz que oiço das palavras que não pronunciamos. Alimento-me nos sonhos invisíveis e secretos que me embrulham. Enlouqueço-me neste fim de tarde na espera que, visível me reconheças. Sinto-me escondido do mundo desassociado de ti. Presença estranha e recôndita de um presságio sem anúncio. Idealizo mil momentos, frases, gestos, olhares, sons, sorrisos, nasceres de sol, luares exclusivos, montanhas de riachos cristalinos, mares revoltos, sedução da natureza passeando à minha frente envaidecida e gloriosa, pedaços de neve, gentes de luz, invasão de nós, pronúncia e línguas desenfreadas nos nossos beijos. Sentado sob esta ilusão, espero que repares em mim sentado no areal, como se de mim, saíssem labaredas em sinal de presença, fogo e marcas de vida que não vês. Cada vez mais azul o mar distancia-se na maré vaza. Na espuma branca balançam-se g...

É no cair das folhas húmidas de Outono ...

O passado, essa oferta envenenada do presente. O presente, esse adiar constante do passado. As amarras cravadas erguem as fundações que sustentam o meu aqui e agora. As mãos já negras de tanto pisadas, ensanguentam-me a alma de medo, essa imagem invisível presente e envelhecida.   Um dia, num bosque perdido de mim e de caminho, vislumbrei entre as folhas cerradas das arvores um raio de luz. De já nada ter a perder por já tudo ter perdido, ergui-me e segui-o dentro do escuro, às cegas, aquele breu foi ficando menos negro, clareou, e embranqueceu cada vez mais. As dores passaram-me, os suores ficaram indolores, e a cegueira menos autista. Entre as folhas rarefeitas, não procrastinado, dei-me com o azul dos olhos do meu pai, chorosos de ausência, risonhos de presença. Deu-me o seu braço, que acabava na sua mão apertada na minha, e caminhou comigo até aqui.   Num outro dia semelhante, abracei a minha filha, vida da minha vida, vida que gerei numa madrugada à beira de uma fonte. Nascente de...

Por isso eu tomo ópio ...

Restos de bocados de homem despedaçado em fragmentos de dor, passeia-se vagabundeando pela cidade tardia. Melindrado pela angústia de uma lacuna parte de si, insensível e roubada, pela necessidade de numa noite se ter ausentado de si mesmo, aniquilou o sentir e não mais voltou. Estilhaçado, procura as porções de si, em cada vida dos outros. Parece inteiro por fora, sem passado e sem memória, fala fluente, mas não ri. Lê e escreve, faz canções que não canta, mas que guarda em cada estrela de baú. Sofre-se mais do que se devia e do que se devia mais de sofrer. Encanta mais do que sorri. Fascina-se nos olhares fixos e longínquos, meios esquizofrénicos e absurdos, não ouve por aí além. As palavras ditas são o seu cansaço e as escritas a sua liberdade. As horas são mais transferências de quebranto do que de momento. A sedução tem-na na natureza. O passado é um presente inesquecível. Bairros amargurados de crianças recordadas pela miséria de se ter nascido sem merecimento. Homens e mulheres ...

O segredo é o recato das palavras

De repente, na calmaria da noite na baía, ergueram-se ondas. Corpos submersos e amados rebolam-se no chão de lodo e areia grossa que deixa marcas nos nossos corpos. As estrelas tocam-nos na passagem da noite para madrugada. Semi-nus antes, nus depois, rimos, nadámos e não dissemos nada, vociferámos silêncios, e trocámos as nossas bocas de língua. Cheira a lenha ardida e fumo repousado na outra margem. A noite não existe, excepto ali. Não está frio, nem faz calor. O tempo está descansado com o céu em nós, junto com as nossas mãos, desbravando a isenção de peso na lagoa fundida connosco. Sabe-me bem o cigarro e o sorriso do inesperado. Nada é novo, quando os dias não se separam dentro dos anos. Nada é novo, se um dia já o foi. Nada é novo, se uma noite te acariciei a alma com o coração. Nada é novo, quando posso ser eu existência. Nada é nada. Nada é a simplicidade de muito e tanto. Os teus orgasmos mantêm-se em tremor, gemidos, com a mesma entoação de sempre A saudade cresce no momento ...

Há que deixar gritar o silêncio

Irei edificar um altar à nossa senhora do silêncio. Não me conste que exista essa santidade, tal é árdua e inexequível a sua manutenção na tarefa do silêncio, esse bem precioso, magnífico, desusado, que escasseia, e é cada vez mais raro. No Livro do Desassossego, Bernardo Soares bem tentou desfolhar os seus sonhos silenciosos em folhas secas de palavras ditas. As palavras são isso mesmo, as necessárias, e não mais do que as necessárias. Há palavras em demasia, usadas demasiadas vezes, em desregramento e de uma forma desconjecturada. Quando era miúdo, a minha avó pedia-me para ir comprar qualquer coisa, ela dava-me a demasia, e a demasia, era a demasia, era o troco do que sobrasse da compra. E as palavras são isso mesmo, o troco do pensamento, do sonho, de um reposta. É a demasia que, com conta, peso e medida, medida pelo silêncio, nos vigora as oportunidades.   O excesso polui, é supérfluo, e torna-se numa necessidade psicológica de divã. Leio, cada vez mais, na intemperança das palavr...

Um dia feito de ti

Parcas, suaves e singelas são estas palavras que te dedico sob este silêncio da noite, para que não as escutes ou as saibas aqui, tao longe de mim quanto de ti, que os meus dias nunca mais foram iguais ou parecidos com o nosso futuro já longínquo de passado que me entregaste. Nas mãos tenho umas linhas fundas e profundas, a que os magos chamam destino, não crente, creio nos âmagos dos beijos que me deste e na devolução das noites em que te amei. Possuo em mim, do lado de dentro da minha pele, um cheiro impregnado que nunca ousou ausentar-se nem satisfazer-me, constituindo-se pela verdade e ausência, em saudade.   Gozo a memória do meu arrepio e prazer, do deslumbramento poeirento da seara onde se ergueram as musicas que nos tornaram autistas, desconstantes, descoerentes e coloridos, numa falência humana desorganizada sentimentalmente, única e irrepetível.   Sinto em mim esse verão feito de um frio descomandando e visceral, logo seguido de uma tórrida dor no peito. As casas semelhantes ...

Reergo-me

Não sendo, estou de bom senso, estando ergo o momento. Os deslumbres interiores produzem-se a partir de estereótipos, ora sonhados, ora transmitidos ou apreendidos. Nenhuns destes estágios são definitivos. A sociedade organiza-se em fundações analógicas, depende sempre do lugar onde nos inserimos e da perspectiva de onde observamos. Os pressupostos que partilhamos ou defendemos são meras utopias induzidas e calculadas. Numa visão egoísta suplicamos o que necessitamos, despreocupados com a justiça social ou as síndromes e inquietações provocados em alguém. Conjecturamos humanamente o futuro, sustentamos em palavras felizes a nossa própria necessidade ou vontade, desculpabilizando-nos pelos acessos concebidos, nas atitudes usadas, nos nomes trocados, nos autores que nos amparam o momento ou a frustração idealizada castrada. Socorremo-nos de Gandhi, de Pessoa, da Madre Teresa, sei lá, de todo e qualquer pensador que admitimos que pense por nós, retirando do contexto, o alterando a pontuaç...

Gralha

Quente esta imensidão de oceano, Rocha espreguiçadeira, Noite e luar, Maresia, companhia, Verde encosta, Tu, eu e o mar.   Brota nascente, Gemida de agua, Pinhal presente, Descanso e calma, Invento um poema, De cheiro a alma.   Na noite caída, Adormecidos sentidos, Despertam-se em acordes.   O tempo não equivale ao tempo, Vale o olhar firmamento, Na madrugada da noite, amei-te.

No elevado do monte ...

No elevado do monte sublime a lua fica mais perto. Quase que lhe consigo tocar. Iluminada, a escuridão fica límpida. A alma leve, transparente e cristalina. Os olhares ofuscam-se encandeados e brilhantes. As folhas das árvores tornam-se luminosas e a brisa fascinante. Nos poros da terra a esperança vigora rejuvenescida. As rochas amontoadas gemem húmidas, a luz que se reflecte nas sombras dos corpos nus, despidos de preconceito, e das mãos apalpadas pelos corpos igualmente. Parou o mundo cinco minutos, não, vinte cinco minutos, trinta minutos, sei lá quanto foi o tempo. Os pólos não degelaram também. Ao longe, as luzes tornam-se ténues e candentes pela distância, assimétrica. Houve-se roufenhos ruídos de animais residentes no seu habitat, a espaços, no seu espaço. Pousada no céu, a lua, não tardará a juntar-se ao mar, como horas antes o sol o fez, sossegadamente.   O momento é de vislumbre, o teu rosto cândido antes, fogo depois, o teu olhar a pedires-me, a tua respiração a despedir-se...