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Deslizo por mim abaixo

  Desencontro-me com o tempo, É vulgar ser vulgar, Aponto me uma arma e forço-me, Gosto dos meus conceitos, Não cedo, Não deslizo, Não quero, Não posso, Não me altero, Não me adultero.   Não falo de uns, E deixo escondidos os outros.   Não falo do agradável, Insisto no desagradável.   Não me sinto demente, E ao mesmo tempo sou feito de loucura.   Não mostro o que posso, E escondo o que não posso.   Mostro tudo, Não busco sabedoria na perfeição.   Procuro ensinamento em ser menos imperfeito, E tenho tempo, Tenho todo o tempo.   Por isto mesmo:   Para ser grande, sê inteiro, nada teu exagera ou exclui. Sê todo em cada coisa. Põe quanto és no mínimo que fazes. Assim em cada lago a Lua toda brilha, porque alta vive.” (Fernando Pessoa)

Eu…apenas eu

  Tenho o olhar enevoado Anti lúcido, A verdade não é nada.   Cristais caem escorreitos das minhas mãos, Percorro o braço de uma viola, Construo acordes.   Pela noite adentro, Sozinho, Embalo-me.   Distorço a vontade, E as palavras, Ficam da cor da terra.   Os sonhos mesclados, De agonia, Acordam-me transpirado.   Já é meia manha, Ainda não é meio-dia, Rebolo-me e vou.   Aguento outra vez, Um dia dormente, Eu…apenas eu.

Não estou por estar

  Quem de tudo fala nada sabe. Falar do que não se sabe é agorrante e ignorante. Julgar apenas porque se esta turvado emocionalmente é genuíno, mas é mentira. Julgar a vida errónea ou certa dos outros, é apenas e tão-somente não querer olhar para o meu eu. Não tenho nada a esconder.   Comedidamente tenho ate a mostrar. Embora seja minha a escolha, das pessoas e ate do sítio. Achar que sou muito equilibrado porque os outros o não são, é no mínimo duvidoso e incoerente. Perceber isto tudo não esta ao alcance de todos. Porventura e com certeza será preciso tempo, disponibilidade, e viver-se muito mais tempo à sombra do que ao sol. A fatídica e sinistra passagem de bestial a besta é recorrente. Sou imperfeito o que me dá uma enorme margem de progressão.   Continuo pai, mãe e filho. Com papel atribuido e desempenhado. Continuo a trabalhar tantas horas quantas o dia tem. Continuo a não andar encarneirado por qualquer corrente de estados de espírito. Continuo a não colaborar, a rir quando me ...

Deixo o vento soprar palavras vindas da terra

  Deixo o vento soprar palavras vindas da terra que semeei. Palavras partidas de outras terras, com outros aromas. Palavras invisíveis inundadas de universalidade. Deixo os meus lábios saírem desregrados por aí. Os meus dedos pisam cordas juntando acordes, meditando serem os teus. O som do hino aconteceu no telefone. Corri em tua direcção. Não eras. Era um senhor formado em falar demais para me impingir um aspirador, com todas as funções empreendedoras e inovadoras que tal aparelho concebe: “- Não aspiro respondi, o pó faz parte da decoração cá de casa. - Sim mas também lava carpetes, retorquiu. - Respondi: - Mas eu sopro o pó de vez quando, e ate o inalo ás vezes, resmungou e desligou. “ Afinal não eras tu, disse o meu coração ás tripas que entretanto se enrolavam. Este sentir visceral é demoníaco. Retira-me as forças. E zanga-me com o mundo. Encolhe-me. Espanta-me, provoca-me e maça-me. Ai eu, embrulho-me em livros e noites, e mal vejo o dia. Respiro suavemente demência e ...

À espera que a hora se transforme

  Não pertenço a sitio nenhum. Onde me encontro não tem lugar. Inadequam-se-me as palavras. Salvo a excepção que faz a regra. Sentir prazer em estar partiu. Partiu de mim? Não sei, experimento e não flúi. Volto sempre ao espartilho do não movimento, pragmático e anti-sensorial. Não gosto da roupa, nem do cabelo, nem das marcas que enfeitam. Os acessórios não são o essencial. O essencial não se vislumbra. Gosto mais, “do para além de” da “anormalidade”. O que não se entende mas se sente. Sinto-me cada vez mais preso de mim. Num profundo “beco” confortável e seguro, onde existe quem eu escolho existir. Onde habita quem eu não escolhi habitar. Vejo-me a gastar horas à espera do toque À espera que a hora se transforme em hora. Brotam-me assim as palavras. Neste fundo branco que pinto de negro minúsculo. Tenho saudades do monte da alta tensão. Dos chorões da beira do rio. Do alto de Santa Marta Da respiração que se altera ao lá chegar. Da despedida que ant...

Haja o que houver

  Não é pecado, Não é anormal, Nem normal.   É vida em mim, Sentir assim, Sentir sem fim.   Este sofrer, Sofrer assim, Deste sentir.   Sinto me a mim, Em ti, Equação perfeita.   Vida em mim, Raio de luar, No horizonte.   Pedaço mulher, Alma de mar, Quimera grega.   Olhar ternurento, Sorriso mulher, Menina saudade.   Soltas acordes, De teus lábios seda, Quero te assim.   Menina mulher, Feita de mim, Haja o que houver.

vale o que vale

  Farto-me tão rapidamente de pessoas como de mim. Canso me de me cansar. As palavras deviam ser substituídas por nada, ou por tudo. Deviam de haver cobradores de afectos difíceis. Estariam em fila de espera para punir os devedores. Aliviar os emocionais violentados seria a sua missão. Cada vez gosto mais e muito de ninguém. Gosto tanto da luminosidade da minha casa e do cheiro que lhe impregno. Tem alma, vida e alento. Tem um mar e um porto de abrigo. È quentinha. Tem música e suor. Tem paz e madrugada. Tem um nome. Tem verdade. Tem a minha verdade que nem sempre é igual à dos outros. Mas verdade é una, mesmo que cega. Sabe-me bem fumar ao luar e regar a minha flor. Já fiz uma filha, cuidei duma flor, e escrevi folhas em branco. Já quase me suicidei e salvei. Já me alfabetizei. Já parti e regressei. Os meus olhos vêem por eles mesmo, não vêm pelos de ninguém. Penso por mim, decido para mim. A retrógrada ideia de saber de alguém é extemporânea. Piso o mesmo chão que sempre pisei. A coe...