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Consubstanciar

Sou sempre pequeno de idade, insuficiente em sabedoria, parco de ideias, escasso nas decisões mas abundante em ideais, assim me descrevo como homem. Tenho poucos amigos e gosto muito, de poucas pessoas. Por vezes entendo-me como uma aberração desprovida de sensatez, ou capacidade de criar laços. Sou demasiado exigente, pouco normal, mas cheio de uma normalidade que acho tão comum e rara. Não gosto de “bons gostos”, de bom senso, de moda, carros, telemóveis, essas coisas. Não me dizem nada, essas mundanas iguarias. Uma parte de mim quase não sabe falar, outra não se cala. Meia parte de mim é alegre e raramente ri, outra chora por nada e por quase tudo.  Estar sozinho é a minha companhia, quando acompanhado fico enfadado, sem espirito de identificação ou pertença. Conheço-me tao mal que, acho que ninguém me conhece. Não tenho crises existenciais, mas sinto transmiti-las a quem me julga conhecer. Gosto de viajar sozinho, ver concertos sozinho, ir ao futebol sozinho. Estar acompanhado assu...

Incas

Justiniano era o Incas, um engraxador que não falava, só sorria. Demorava horas a fumar um cigarro, que se lhe apagava no canto da boca e por ali ficava, húmido e escuro. O Incas era amigo dos que não tinham amigos, dos do gueto. Para a idade que tinha era muito idealista e visionário. Acompanhava os foragidos da lei como o Jeremias e a Etelvina, criações humanizadas pelo Sérgio Godinho. Não falava, mas do fundo do seu olhar olharento, balbuciava palavras que entendíamos conforme as queríamos entender. Ele não se importava. A sua filha fizera um filho num interail, como bónus do conhecimento europeu. A sua mulher vendia verduras no mercado diário e depositava as moedas no avental, e as notas no peito dentro do soutien. O Incas ajudava-a, sempre de sorriso misturado com um cigarro, sem palavras, mas vertendo no olhar um sorriso. Bebia mais de mil copos pequenos de vinho ao dia. Era o seu momento repetido, tão natural como a forma como respirava. Nunca o vi comer. Nunca. A forma como cam...

Menos terra que falta à fome

A sazonalidade repete-se a cada estação. Jogam-se as sementes na terra remexida, como se remexe o coração com a paixão. Colhe-se o elixir, dádiva da estação, pronuncio abundante e sôfrego, recebimento da terra. É a admissão do milagre que se transforma nas mãos rudes do amanho apaixonado do sustento dos filhos feudais e latifundiários.   Nas sombras, dormem crianças filhas da terra. Uma cadela com ar terno olha-as, e de cada vez que um suspiro mais forte se respira, ou um dedo treme, as orelhas endireitadas e atentas escutam a vida pelo amor de somente cuidar. Os cantos do trabalho ouvem-se cada vez mais distantes num murmúrio de força colectiva, quando mais de longe se ouvem, menos terra falta por julgar, menos terra que falta à fome.   Faltam três quartos de sol à esteira. A água tem a hora da nascente presente. Numa enfusa de barro moldado bebe-se fresca pela cortiça de uma mão concha. Mais longe, despenteados os sobreiros testemunham, o sono, a escravatura, o sol cego e vermelho, a...

Sazonal

Serpente do pecado, Estilhaços, Mesopotâmia, Terra entre rios, Formato de lua, Nascente. Foz da mesma água, Céu dourado, Entardecido, Abutres caídos com a noite, Outrora género fêmea anunciado. Colina verdejante, Avistada pelo mar, ao longe, As rugas perduram, Num rosto invisível, Existente, Clareado de noite, Amadurecido, Sazonal.

Se eu mesmo tivesse nascido eu

“Louca dor insuportável que me altera a expressão, que me entorta os olhos e denuncia a minha face afogueada. Uma droga qualquer aliviar-me-ia deste sufoco quase irrespirável. Suporto-me bem, aguento normalmente o meu corpo, mas cortava a minha cabeça …. E assim continuei disparando palavras fortes e imperceptíveis ”   O meu amigo de sempre olhava-me fixamente. Eu, não conseguia parar, enquanto não detectasse nele, algum tipo de sentimento reactivo a mim próprio. Ao invés, sabiamente, ele não me ligou nenhuma e começou-me a falar de um qualquer e endiabrado romance acerca dele próprio, com poucos, mas maquiavélicos intervenientes. Como gosto de estórias, ouvi-o com atenção. Construi e destruí várias vezes os meus conceitos opinativos acerca da sua estória, que, pelo avançar dos meses se transformou em história. Numa base de criação disruptiva, imaginei-me em cada um dos seus personagens, que já eram mais externos do que internos, e, apenas consegui não alcançar nada, a não ser a sabedo...

Essa lei vigente

Torturante esse teu beijo adiado, Essa tua boca de sal, Vigente lei de amar.   Espera-me na praia de sempre, Onde a foz e as arribas, Se denunciam nas sombras.   Estou à distância de ti, Entre o verbo e a palavra, O abraço e a madrugada.   Transporto-me no engano, Esperançosa de ouvir somente três silabas, Saudade da verdade.

Repetição ou adesão

A vida é feita de repetições sentidas de maneira diferente. É cíclico a forma de nos sentirmos, embora os acontecimentos possam ser desiguais, pelo contexto inerente ou temporal. Chocam-me as repetidas frases retiradas de pensadores publicados no facebook. São procuradas e interpretadas, pela cruel necessidade momentânea, de justificar as repetições sentidas, as vivencias que quase se acreditam ser reais. Na verdade, ter uma janela escancarada ao mundo de mim, não é ideia que me agrade por aí além. As pessoas podem construir e modificar as suas opiniões a respeito de si mesmas, as pessoas usam a sua experiência para se definir, para se auto-iludirem. A vida acontece, do lado de fora da vida, do lado de fora de nós próprios. Acontece nas montanhas, sitio onde o sol queima e o vento despenteia, onde a coragem impera, e sobra pouco de conforto. Sobre este processo de identificação, acontece um “mapa de percepções” que não espelham a própria realidade, ou o campo de experimentação humana, ...