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Vou naufragando navegando!

O silêncio são as horas em que a dimensão da sabedoria me possui em reflexão e cheira a pinhal arenoso e mar na minha cama.   Vou naufragando navegando!

Se as árvores chorassem as horas, plantava no fundo do corredor da minha casa - um relógio -

Gostava que as árvores dessem horas como os relógios, preferia ser acordado por árvores, rasgado do meu sono por ramos e folhas a caírem delicadamente na minha cama, gostava de, destrambelhado com a manhã, me cruzar nos olhos de cheiro a inverno.   Se as árvores chorassem as horas, plantava no fundo do corredor da minha casa - um relógio -

As casas com as portas desabotoadas até ao decote

As mãos, As pálpebras, Os rios, A chuva, As casas com as portas desabotoadas até ao decote.   Os cheiros, O café misturado com preguiça, O ópio torturado de recordação. Os romances, A vida de um amor inesperado.

Vida (s)

enquanto a madrugada se detinha entristecida, o mundo impacientava-se com a vida adiada sem vislumbre.

Avó

Lembro-me da minha avó sentada, já morta pela vida, adormecida à minha chegada.  Lembro-me dos olhos que riam de azul. Dos lábios finos e esguios como o seu andar.

Despertar dos meus olhos

No despertar dos meus olhos existe mais do que ver, existe toda a cegueira do mundo aos bocados de sentir.

Honro esta cidade

Honro esta cidade não saber de mim, este mar ser a janela onde me debruço, este cheiro a norte, este imaculado anonimato, onde deambulo irreconhecível na proximidade do desejo, adoro ver homens que nunca vi, mulheres que nunca me viram, e a virgindade de não ter amigos, carregada de toda a necessária solidão.   Saúdo uma rapariga que não conheço ao café da manhã, ajusta-se em mim esta cidade que me alberga estes dias.