Hei de seguir eternamente a estrada

Hei de seguir eternamente a estrada 

Viver sempre também cansa


As paisagens não se transformam


Não cai neve vermelha


Não há flores que voem,


A lua não tem olhos


Niguém vai pintar olhos à lua


Tudo é igual, mecanico e exacto


Ainda por cima os homens são os homens


Soluçam, bebem riem e digerem


sem imaginação.


 


E há bairros miseráveis sempre os mesmos


discursos do cavaco, guterres e carvalhas


guerras, orgulhos em transe


automóveis de corrida...


 


E obrigam-me a viver até à morte!


 


 


Pois não era mais humano


Morrer por um bocadinho


De vez em quando


E recomeçar depois


Achando tudo mais novo?


 


 


Ah! Se eu podesse suicidar-me por seis meses


Morre em cima dum divã


Com a cabeça sobre uma almofada


Confiante e sereno por saber


Que tu velavas, meu amor do norte.


 


Quando viessem perguntar por mim


Havias de dizer com teu sor


Onde arde um coração em melodia


Matou-se esta manhã


Agora não o vou ressuscitar


Por uma bagatela


 


 (fim)



Jose Gomes Ferreira

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