Enquanto houver ventos e mar !

De coração embelezado cortado pelo vento do sul espero-te. Espero pelo dia da coragem. Espero pela noite dentro, sonolenta e prazeirosa, o convite. Não me apresso, gosto assim. Gosto de não te ter. Gosto de te ter perdida, sem encontro. Temo o fogo incandescente incontrolável. Apago-o. Ateio-o. Volto. Fujo. Regresso sem sentir que regresso. Acredito. Desacredito. Analiso, sem querer saber. Mas sinto. Sinto os músculos tensos, e a barriga fria. Domino o medo sem dominar a ânsia de me ligar a ti. Aguardo. Espero. Espero por um dia, que não quero que chegue. Basta-me o que tenho sem me chegar. Quero enrolar-me a ti. Ver o rio a passar e os peixes a bailarem, sentado na relva que imagino fresca. Conversar letras quentes e palavras que escaldem. Palavras que ditaremos um para o outro. Palavras escritas. Palavras ditas. Palavras confirmadas pelos gestos e olhares. Confirmadas pelo timbre. Os dedos enroladas nas mãos que entrelaçamos, dedilhados pelo luar do castelo altaneiro, que se ergue na ilha do meio do rio. São quatro os sentidos. Norte, Sul, Este, Oeste. São quatro, os ventos. São muitas as madrugadas. Sentado, oiço passos silenciosos nas minhas costas. Vejo de relance a tua sombra fugidia. Vislumbro um cheiro que não me é familiar, mas que reconheço. Sinto que me observam, sem me saberem ali. Enquanto houver ventos e mar, a gente vai continuar, enquanto houver ventos e mar!...

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