O relógio de sol da torre
Soube pelos meus olhos. Segui os teus passos em direcção oposta, seguravas os teus cabelos. O mar imóvel esperava-te, As ondas deixaram de existir. O teu olhar misto de dor, não me queria ver. Não me vias. Não te vês. No teu andar de medo, assustadoramente fugias. Não se esquece com a cabeça, o coração. Sabes disso depois de cada copo. Adias a vida como se as horas se esfumassem. Mentes ao sentir ilusão Não me olhas. Um olá, um bom, dia um até logo, são as longas conversas que temos. No cimo da colina olhas cada esquina, como se ao dobra-la, a felicidade se esquivasse. Mas o abraço que teimas desperdiçar está na madrugada. De agora em diante Deus e o diabo são a mesma coisa. Os dois têm a mesma forma mas conteúdos diferentes. Complementam-se. Como a verdade e a mentira. A ilusão e a desilusão.
O enamoramento é coisa vã. O relógio de sol da torre marca as horas com a natureza. È de sol. Não pára com o vento ou nevoeiro. Não adianta com as marés. Tem letras romanas que marcam as entradas e as saídas da porta renascentista. Três saxofones e uma bateria tocam as horas. Tudo negro, muito negro. Uma luz encandeia. A natureza não faz parar o tempo. A paz não se foi com a tua chegada, nem partiu com ela. Os momentos lúcidos assaltam-me. Travam as minhas vontades. Converso de pernas trocadas sentado no chão. A maresia espalhou a caruma onde adormeci. Acordo embalado com o silencio. Vi um olhar num corpo que conheci, que se transforma boemiamente. A pele não é cetim como a alma. A luz é turva. A barriga cresce. O fumo escurece após os anos. O envelhecimento acontece. O amadurecimento não. Os dias são dolorosamente gastos, na ânsia de os liquidar apenas. Isso, matá-los para eles não nos matarem a nós.
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