A paz habita o silêncio

 


A paz habita o silêncio. A paz é gémea do silêncio e siamesa das palavras. Ontem um grito explodiu-me na cabeça, e uma luz forte fez uma planície. Ao longe um bando de gansos guiava-me no alaranjado por do sol. Amo em branco. Sonho com uma escarpa lilás e umas raízes de árvore embaraçadas como um nó cego. Sento me e refresco-me numa fonte que geme agua, de uma encosta virada a sul. Adivinho o horizonte que esta distante. Alimento-me de silêncio tal qual o Almada Negreiros. Tento mudar uma pedra com a imaginação. Move-se. Vejo-a mover-se. Prolongo-me na eutanásia que sonho para a minha vida. Ontem fui caminhante e marinheiro, neste mar inventado na planície. Hoje sou guerreiro. Amanha serei arauto da paz. Invento malditas profecias que dedico aos mais ilustres seres deste planeta. Desejo aquele abraço que não dou. Arde dentro de mim um sonho sem pressa, um sonho feito de tempo e incerteza. Sou muito mais do que o que sonhei ser. Eternamente insatisfeito pelo sonho adiado de ter. O céu já arroxeou as minhas mãos ásperas de tanto escavar a terra. Ardem de um assossegado desassossego. O silêncio incorporou-me de fascínio os dias.

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