Ontem fui ao jazz
Do nada o contrabaixo gritou com a mulher. A guitarra estridente rabujou. Ontem fui ao jazz. Partiram-se copos em desvario ao dançar. Uma rapariga de pernas altas, recolhia em cinza, os cigarros que nublavam o aroma, e o ar misturado de camomila a ferver em água. O senhor vidrado nas baquetas ritmadas, enfurecia-se com as palavras ditas altas, que destroçavam os acordes suados que não se perdiam no sentido. O caminho para a casa de banho era uma passerelle, embrenhada em sons quentes. O meu sonho continuava ainda antes de começado. Iniciara-se naquele momento, vermelho como os cortinados caídos pelas paredes. Não reclamo, não existe cláusula vigente e outorgada para o fazer, não existe razão, não existe legislação aplicável. Existe somente os acordes cada vez mais suados e roucos, do contrabaixo com corpo de mulher. Existe o som estridente da guitarra, ritmado e partido pelo bombo e o prato de "chocos". Existe isto, existe aquilo. Existe o teu olhar, o meu olhar, o baixo olhar, e o alto olhar. O contemplar sem ver e o ver sem contemplar. Existem montes debruçados em carreiros estreitos para as salinas. Adivinha-se a maresia que o mar empurra. Existe o céu que baixa com a noite, feito aqui e agora sem me prender. Embora tenha ido ao jazz ontem á noite, ainda lá estou. Fiquei por lá.
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