O tempo não me diz nada

 


O tempo não me diz nada. Espero na encruzilhada e não aparece. Fugidias lembranças assolam dentro de mim. Finjo acreditar. Umas a seguir à outra estouram-me no pensamento. Balbúrdia de ideias. Labirinto de desejos. Conspurcação de decisões.

 

E se fechasse os olhos a 180 km hora? Onde acordaria?

 

Insano vislumbre da minha competente poluição. Atormentam-me as pessoas e os ácidos acinzentados que expelem pelo olhar. Ocorrem-me jardins fantasiados. Vejo-me de mãos dadas com uma mulher que não identifico, que desejo que seja o meu prolongamento. Que veja nas mesmas cores e cante no mesmo timbre. Que a solicitude da alma se desvaneça em mim. Que a união dos corpos seja o apêndice apenas do encontro. Que o amor seja antes de o ser. A saudade a presença e o tempo coisa nenhuma.

 

Vejo uma floresta rasgada por raios de sol entre a folhagem. Vejo a lua misturada na fresquidão sôfrega de uma boca salivosa e saciada. Antevejo duas lagoas translúcidas onde depositarei a minha confiança sem reservas. Onde perceba que hoje sou lago e amanha um rio bravio e enrugado. Semearei duas pedras que serão montanhas. A terra castanho escura, cheirosa e húmida, será a minha cama. Imagino acordar ao cheiro das flores e escolher os intérpretes das minhas melodias. A passarada gentil acordar-me-á. O vento de assobio esverdeado e suave adormecer-me-á.

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