Vou

 


Bebo-te em palavras que me arremessas aos magotes. Palavras sábias, experimentadas e vividas. Palavras espontâneas não escolhidas. Dos meus dias, fazes peças únicas, esculpidas de desejo e saudade. Sinto as mãos amarradas de uma vontade que não posso desamarrar. Entendo as marés muito mais que a dança das gaivotas.

 

Destruo para criar de novo, e nesse processo criativo / destrutivo habito-me. Não se recomeça o que nunca se acabou. Inicia-se a obra depois do sonho. Visualiza-se o sonho na dissonância cognitiva. Das minhas noites fazes obras de arte. A palavra mais obscena que me disseste, foi “amo-te”. Um amo te baixinho e envergonhado, que sobe de ritmo e tom, à medida que te empolgas na explosão do prazer adivinhado.

 

O vento segreda-me segredos impacientados. Apetece-me viajar, sair de mim, perder o bom senso e as saudações rotineiras e habituais, de quem faz o frete de tão-somente balbuciar um gaguejado e inaudível bom dia. Apetece-me inebriar-me e alienar-me de eufóricas alegorias. Induzidas alegorias. Apetece-me gritar roufenhos brados tranquilos do cimo de uma montanha desfraldada ao vento e sossegar-me. Vou higienizar-me num pinhal, adormecer e acordar com o cheiro a resina e a raios de luar. Vou saber do mar ali. Vou ouvir sons únicos, rústicos e arcaicos. Vou sentir adocicados cheiros no ar. Vou ler um livro e demitir o meu olhar. Vou…

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