A solidão não é solidão, faz companhia a ela própria
A silhueta do teu corpo adormece-me e adormenta-me. Solto abraços por dar num continuado descomprometimento. Na senda da direcção errada tatuo o caminho.
Alma voante que parte. Escuto vozes no ar, num emaranhado de veias cerebrais, que me ajustam no tempo e no espaço. O respirar é sôfrego e descompassado. Mais do que um astro, vi no céu riscado um sinal ardente de fogo. Ali, à minha frente, o firmamento incendiava a madrugada estrelada e cadente. O teu perfil quedou-se desenhado. Desenhado de luz. Narcotizo.
Observo as luzes semeadas do alto do monte, tremulas pela intensidade da distância. Ao longe as cidades pacificam mais um dia. Dorme a urbe no vale e na colina. As horas sossegam igualmente. Sinto os cheiros agrestes e a natureza conjunta a vibrar. O vento passa por mim numa vénia fresca que corta o Agosto já estafado. Foge-me o pensamento, não o agarro. Desmaia-me entre os dedos incontrolável como a areia da praia do vale que frequento.
Estoira-me na cabeça, o estrondoso rebentar das ondas de encontro á duna, bem como os sonhos que invento por realizar. As gaivotas velam o meu sono junto do canavial onde adormeço tantos minutos, que invento uma noite prazeirosa e descansada de mim. Ao chegar, na praça, tudo igual. As mesmas mesas, as mesmas pessoas, as mesmas conversas configuradas de há semanas atrás. Imóveis de uma vida que parece ser vida, os corpos balançam sem ritmo, amorfos. Revejo a silhueta num olhar esguio e fugido e fujo dali.
A solidão não é solidão, faz companhia a ela própria.
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