Dimingueiros

As páginas já são tantas. As que escrevo. As que invento. As que sonho. As que leio. As que observo. Tenho dentro de mim fatias de carne viva que ainda sangram. Tenho dentro de mim, corais coloridos sarados e guardados de momentos e pessoas. Tenho vontade, decisão, e sei o caminho. Sei por onde se vai. Não invisto em feiras de vaidades ocas e desprovidas de substrato e conteúdo. Melhor, inundadas do que não quero. Bronzeados, conversas desconversadas, marcas e ostentação, não são o meu reino. Não são o meu mundo.


 


Gosto de acordes simples. Maiores, menores, sétimas e diminutas, sustenidos e bemóis. Dominantes. Gosto de vozes fortes, de encantamento. Gosto do estado que é invisível aos olhos. Gosto de ler nas entrelinhas. Gosto de olhares, pedidos e cedências.


 


Estou sem vontade de novidades. Arrecado-me no que conheço e é seguro. Os domingos são dias onde se circula melhor nos caminhos costumeiros e há mais tráfego nos acostumados.


 


O rio espelhava sabedoria e melancolia, saudade e promessa. Os putos chilreavam desassossegadamente Os cães doidos pela liberdade de domingo, faziam tangentes a tudo o que estava imóvel. Os perfumes engalanavam as senhoras. Os maridos sorrateiramente, espreitam os peitos desnudados que se passeiam à sua frente e aos seus lados. Conversam sem ouvir. Abanam a cabeça afirmativamente sem desejo. Elas abanam-se com o despropósito domingueiro. E ali estou eu a fumar um cigarro para o rio, encostado à minha amiga 750 cc, imaginando a vida domingueira, sorrindo de mim para mim, sem me conseguir imaginar ali. Assim, daquela maneira domingueira do tipo é mas não é, estou mas não estou.


 

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