Entontecimento !...

 


Deus sabe porque ditou. Num palco improvisado de tons doces e um olhar parado, perdido e sucumbido, todos os sentidos se perpetuam na audição. Descalço deambula vertiginosamente num violino sabiamente velho e capaz. Responde a uns imitados sons de pássaro. Que felicidade desentender as palavras e entender os pássaros. Já não oiço bem, cada vez oiço pior. Agradeço a Deus poupar-me ás palavras. Mas oiço o mar, os pássaros e as arvores. Tudo o que preciso para realmente ouvir.

 

Palavras ditas cansam-me e fartam-me. As escritas, tolero-as. Palavras sem consequência deixam de ser palavras. Palavras sem vida imobilizam-se. Não são nada, a não ser isso mesmo, palavras. Palavras lindas são lindas, mas apenas lindas. Palavras feias não há.

 

Os acordes têm movimento e vida. Como os rios. A solidão também tem movimento e ampara o entontecimento chilreante. Entonteço e engrandeço. Entontecimento é uma palavra linda que me seduz, que me ajusta aos actos. Difere-me a capacidade de ver a luz.

 

Como pode uma luz tão forte cegar? Como se pode cegar numa ténue luz, assim? Como se pode admirar o inadmiravel? Como se pode escutar o ruído e não ouvir o silêncio?

 

Palavras, palavras, palavras. Gastas. Já fiz de tudo sem palavras e cego. De olhos reclusos conversei comigo sem ver e falar, fiz. Queria. Fui feliz. O mais feliz de todos. Estava finalmente comigo. Voltei a ver e a ouvir e como diz um dos “Pessoas” o "Campos":

 

 

 

 

Começa a haver meia-noite, e a haver sossego,

Por toda a parte das coisas sobrepostas,

Os andares vários da acumulação da vida...

Calaram o piano no terceiro andar...

Não oiço já passos no segundo andar...

No rés-do-chão o rádio está em silêncio...




Vai tudo dormir...



Fico sozinho com o universo inteiro.

Não quero ir à janela:

Se eu olhar, que de estrelas!

Que grandes silêncios maiores há no alto!

Que céu anti citadino!

Antes, recluso,

Num desejo de não ser recluso,

Escuto ansiosamente os ruídos da rua...

Um automóvel! Demasiado rápido!

Os duplos passos em conversa falam-me...

O som de um portão que se fecha brusco dói-me...



Vai tudo dormir...



Só eu velo, sonolentamente escutando,

Esperando

Qualquer coisa antes que durma...

Qualquer coisa.

 

Álvaro de Campos

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