Espírito sedento e adivinhado

 


Era tarde. A noção do tarde ou cedo é-me breve. Assim como breve é o momento seguinte. Subi lânguidos os degraus frescos da noite quente, apressando débeis pensamentos. Esquinas inversas, outras esquinas esquinam-me o sentir. Aguardam-me beijos soltos. Apanho um a um. O abraço retorcido espraia-se, como quer.

 

Uma música, vinda do outro lado do mundo, dança-me na mente. O espírito sedento e adivinhado contorce-se de prazer. Sublimado percorro a memoria como se fosse momento. A lua crescente ilumina a noite onde vagueio em sonhos arrojados e claros. As noites em bolina ventosa não são de verão. Preparo a viagem que me conduzirá a um deserto de sons ablusados.

 

Oiço homilias preparadas em julgamento. Não julgo, cresço e entendo. Acompanham-me largos de cheiros adocicados da minha infância. Levam-me as palavras ensinadas. O beijo solta a roufenha voz do seu dono. As tardes de por do sol acabam atrás da serra. As manhas adivinhadas crescem a sul. Não me envergonha a verdade. Não me embaça a vontade. Deus me assegure os pés na terra, neste chão que piso e me foge. Serei sempre o que sou. Sendo mais do que sou, sou o que acredito ser.

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