Fumo enrolado em saudade
É bom rever a saudade, inundada de beijos, novas palavras e velhos sabores. Entusiasmadas novidades e gargalhadas frequentam o regresso. Os velhos abraços são novos. É bom rever a saudade por onde o tempo não passa e demite. Os abraços não se desabraçam nunca, nem se desembaraçam. A saudade é como uma árvore plantada e afagada em terra farta. Cresce, engrandece, ganha raízes, seiva e sabedoria. Tem vida e dá existência à vida. A saudade é como um papel de poema amarelecido pelo tempo, mas guardado com alma. A saudade é secreta e aparece de enxurrada. Tem abundância e vontade. Quero encontrar-me com a saudade de olhos negros e brilho nocturno. Falador de frases mudas fantasio a saudade. A saudade é o intervalo vivido entre o ser e o estar. Um cigarro arde um fumo enrolado, calmo e baço, após a partida. Ausência adivinhada. Ausência regressada.
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