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Numa esteria colectiva o paredão passeia as tias. Os cães abanam-se vaidosos olhando de soslaio os rafeiros junto aos caixotes do lixo. Cães amaricados, vestidos e penteados. Os do caixote são elegantes. Têm amigos em vez de donos. Eu sou um cão vadio, não tenho dono. Gosto mais dos cães dos caixotes do lixo e de crianças. Sentado ali na marginal passa várias vezes o mesmo cão apaneleirado com a dona pela trela, ambos se abanam em tons rosa chock intragável e perfumado intenso, de sandálias brilhantes a condizer. Gosto dos hippies, não adoptam cães de marca, cuidam-nos.
Do outro lado da rua um arrumador faz-me um sinal. Leva dois dedos à boca em sinal pedido de um cigarro. Dei-lhe três e meti conversa. Dei-lhe sinais. Ficamos amigos. Falei-lhe de mim e ele ouviu-me. Ouvi-o também. Sabe viver na rua e não ter amigos, mas quer uma casa e amigos também. Não sabe se sabe. Mas precisa. Não sabe até se quer. Sei disso. Sei o que é não saber. Sei o que é não saber se se quer. Disse-lho. Olhamo-nos numa piscadela de olhos, cúmplices do mesmo dialecto. Mandei abraço para o Steve.
Mais à frente uma mulher de preto lia a sina aos que passavam. Um malabarista doava a arte de parecer ter quatro braços. Outro cuspia fogo pela boca sem se queimar. Um rapaz ainda novo de cabelo comprido e chapéu de feiticeiro, marionetava um casal de marionetas, embrenhado numa história inventada e encantada. Uma mulher elegante e cor muito morena dançava. Ouviam-se flautas encantadas. Os turistas passam descompassados. O paredão espiado pelo mar e o sal tem mil histórias guardadas. Historias observadas de vaidades e simplicidades. Historias. Estórias.
Até para se ser cão é preciso ter sorte!..........Mais logo Kusturica!...
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