À fava...

 


Sou ficcionista. Por protecção, por sobrevivência, por segurança. Pelo mesmo motivo tenho um emprego patético, onde represento oito horas diárias de uma loucura premeditada. Uma loucura aceite aos olhos dos outros que a entendem. Eu sinto-me demente. Há os que acham que é um bom trabalho, lavadinho, com responsabilidade e que até se ganha bem. Uma treta. Não é um bom trabalho, a responsabilidade vale o que vale, e não se ganha bem. Pior que isso, suportar a rigidez das ideias, o mais do mesmo diário, a palermice e a representação de um papel social direccionado ao engano. Sou um criativo num espartilho. Visto uma farda que não é a minha, uma pele onde nem me reconheço. Pensamento divergente não é urgente e urgente é o previsível. Massa critica e associação de ideias não devem faz parte, associada à ameaça que o pensar por si mesmo encerra. Uma parvoíce, esta representação diária contra-natura do meu eu. O humor vai-me ajudando nestes dias solarengos de uma cinza interior que sinto ameaçar a minha sanidade mental. E depois tenho o Parracho que nem sequer posso mandar à fava. Ou não devo. Poder posso. Não devo. E como represento bem o papel, não mando. Tenho uma filha que precisa dos meus euros para ser alguém. Como tal vou-me prostituindo profissionalmente. E ás vezes até sinto prazer, como as prostitutas.

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