Apaciento-me

 


Marquei o número. Atendimento de excelência. Nome, “em que posso ser útil” com a sugestão de um “à sua inteira disposição” identificação do problema, reformulação, fecho e despedida, fazendo-me crer na total disponibilidade e de um que “serei sempre bem-vindo”. Chamada de valor acrescentado que fica em cinco euros à hora. O problema está no problema que parece mesmo não ter solução. Mas tem que eu sei que tem.

 

Descabida ameaça de injunção e tribunal. Huuuuuuu. Ai que medo. Já vai em mais de cem euros a quantia de vinte e picos que não foi paga. Já me vejo em frente a um colega juiz, algemado a sair de um carro celular. Vou tratá-lo assim mesmo colega, porque eu já fui juiz das festas da minha terra. Televisões, rádios, jornais, policias, redes secretas, generais, protecção civil, helicópteros, marinha de guerra. Tudo tudo. Mesmo assim vou lá. Documentado e de elaborada fundamentação. Sonho ainda ser indemnizado pelo dia de não trabalho e pelos vinte e cinco tostões que ganharia no meu segundo emprego, mais uma data de coisas que deixei de fazer pela imbecilidade do sucedido. Sonho até ser herói nacional e ganhar as próximas autárquicas “cá na nha terra”.

 

Enquanto isso o processo anda de carta lá, carta cá, e-mail lá, e-mail cá. Pode ser que prescreva o que na maior parte das vezes não é mais do que a desresponsabilização do não pagamento de um valor que em consciência foi gasto. É o meu caso, gastei / pago. Não gastei por incompetência, foi os dias que eles dizem que eu gastei. Tenho um documento assinado pelas partes de uma rescisão com mais de cem dias de diferença e de desacordo entre mim e o fornecedor.

 

Claro que não me preocupo com isto, mas aborrece-me. No fundo também me dá um certo gozo. Afinal soluções para a identificação do problema não existem. Existem sim, técnicas de entendimento que perdem o sentido por não ser ……. um atendimento. Enquanto isso a fibra óptica prolifera e tem dias que até me apaciento.

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