Na verdade estamos juntos mas não estamos misturados
Claustrofobica esta forma de viver quando o betão me tapa a linha do horizonte e os mágicos madrugantes nasceres de dia. O distanciamento à linha do horizonte é a proibição fronteiriça, de uma linha forte e marcada, por onde a minha respiração não passa. Quero ser pastor. Pastorear-me nas manhãs. As manhãs estão mais perto do céu e as noites junto das manhãs. O caminho entre as duas é disforme.
Vou desistir dos ensinamentos. Vou por mim como no fundo sempre fui. Na verdade a diferença é real. O discurso para além das palavras é diferente. As inadequações com os que me identifico são por demais evidentes. Ontem bebi vinho. Estava bom. Fez-me sonhar. Um vinho que me deixou lúcido. Um vinho que me alegrou e carregou sem estar encarneirado numa data de chavões e adjectivos sentimentais. Um vinho que me deu esperança e vontade de estudar até ao final dos meus dias. O vinho é um indutor de processo. O vinho tem a magia e cheiro a desaprendizagem.
Já me habituei a não dormir. Já me habituei a não beber. Gostei de saborear o sonho de vinho. Soube-me a felicidade. A noite quente de sábado último de Agosto saqueou-me e libertou-me. O sono foi com ela, a vontade e a provação ficaram. Dia após dia sozinho fico em mim e comigo. Balanço-me e embalo-me. Sozinho de sozinho mesmo.
Sem me encostar vou carpindo as minhas ideias e solidifico velhos ideais. Antiquíssimas vontades de mim como sou, ilusões de uma verdade que pode ser mentira. Na verdade estamos juntos mas não estamos misturados. Dai-me tu meu deus secreto, a alegria selvagem do desconhecimento das pessoas.
A verdade segundo Heidegger:
E se o ser, no seu estar-a-ser, faz uso do estar a ser do homem? E se o estar-a-ser do homem assenta no pensar da verdade do ser?
Então, o pensar tem de poetar no enigma do ser. Traz a madrugada do pensado à proximidade do que há que pensar.
“...O conhecimento da ciência já anulou as coisas, como coisa(...) a coisa, como coisa, virou nada...”.
Heidegger
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