O tempo nao me diz nada

 


Os dias não conhecem os meses e os meses não são íntimos com os anos. A soma dos instantes são sorrisos abertos ao imaginário. A melancolia é um negrume da alma. Replicam sinais da torre a um cortejo fúnebre. A missa dita em latim cantada, aquece as almas de lenço preto que se ajoelham à passagem. São contratadas carpideiras que num choro uníssono falseiam, como se falseia um grande amor.

 

Divide a mentira a ténue linha da verdade. As noites escritas aos magotes de palavras coloridas são hoje cinza, onde não deposito sequer a lembrança. O adiamento está ao rubro. Mais adiado do que o adiamento afortunado da miséria material, fica a miséria emocional disfarçada de abraços e pretensas proximidades desejadas. De substrato, conteúdo, musica e poesia cristalizo o conhecimento. As figuras não dão luta. A vulgaridade adivinhada prolifera numa destreza reprodutora cansativa e descoerente.

 

Existem em mim vontade apenas de estar numa praia deserta em silêncio. Existe mais do que o verbo existir. Existe desejo de perceber a lua no céu plantada. Existe vontade de converter o conhecimento complexo em simplicidade. Existe em mim vontade de ser mais emoção que raciocínio. Existe em mim vontade de ser devaneio e meditação. Existe em mim um pai. Existe em mim um vazio esvaziado e um pretenso enchimento. Existe só por existir.

 

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