Opiário

 


Opiário devia de ser a minha sala de estar. Não o sendo, não deixa de estar instituído no meu sentir, o conceito que entendo por opiário. Opiário mental, definitivo e volúvel. Opiário fugidio e arisco em forma de opinião. Fixação olharenta e obsessiva num sinal imaginado e vertiginoso. Um instante horizontal onde retrato os meus momentos. Opiáceos são os meus sentimentos e conhecimentos. Deslumbrantes. São os meus ignorados sentires, dementes e dormentes. Opiáceos.

 

Enrolo no meu olhar vidrado uma pasta preta. Maleável que arredondo entre os dedos, a que chamam como significado metafórico e adjectivado, religião do povo. “Ópio bendito ópio”.

 

Adormecido ópio curandeiro, deus, feiticeiro, benzedor e charlatão, velhaco, impostor e amor. Afecto de maleitas emocionais e físicas. Tenho um opiário dentro de mim, adormecido, impunível, impurgável. Vou assassinar a minha boca. Ceifar o meu pensamento. Desembarcar esta nau num cais abandonado. Num porto desregressado. Vou desengrossar este mau vindo e suspeito pressentimento adormecido e opiário. Vou da solidão para o Amor, desassossego-me sossegando-me. Um dia vou arriscar tudo. Vou ao jogo. No escuro, sem trunfos. Vou todo. Por inteiro. Estou no caminho.

 

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