Tenho quarenta anos e tal

 


Tenho quarenta anos e tal. Duas vidas de uma já morta. Experiência de óbito em vida. Vivo por tanto ter estado morto. Hoje a vida sabe-me a alegria e a morte a tristeza. Aculturei-me e aderi. Tenho uns papéis escritos que dizem que sei coisas, me avaliam e me nomeiam. São caros. Tenho uma percepção socrática sofista de que nada sei. Ignorante, humilde, pragmático. Falsa vaidade fingida de segurança. Cognitiva. Sou esperança projectada no análogo. Mais do que eu sou o outro. Durmo bem comigo. Passeio-me em florestas de lírios que estremecem ao acordar. Arvoredo solto na minha imaginação. Não durmo aos quarenta anos e tal, mais do que quatro horas e tal. Associo a necessidade de estar acordado, ás coisas que tenho que resolver, nesta vivência viva de vida. Impulsos de acordes quentes acompanham-me já roufenhos e gastos de beleza melódica. São a minha companhia, palavras brotadas e anti-monocordicas. Sou mais do que pareço ser e menos do que acho que sou. Lá fora chilreiam nas árvores estrelas dependuradas. A norma, a regra, a ética e a moral falecem em mais uma noite inalterável e inundada. Ressuscito da dose metida no meu sentir e deposito-me no sono aguardado.

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