A irritante historia dos Gps

 


A irritante historia dos Gps. Conduzia eu atrás de um Skoda não sei das quantas, vislumbrei um aparelho desses que sei marcar o trajecto de casa para o trabalho, e do trabalho para casa, antes que se percam no itinerário que o carro faria até sozinho sem o idiota ao volante que o conduz. Para ir a qualquer sítio neste País será preciso tal aparelhómetro. O prazer de nos perdermos foi substituído por uma voz irritante que analogamente só me faz lembrar uma boneca insuflável, vá-se lá saber porquê. O conceito no meu entendimento é o mesmo. Se não vejamos. Perdermo-nos, dá-nos a oportunidade de descobrimos os nossos próprios itinerários, e o prazer de fazer as nossas próprias escolhas e caminhos. Foi sempre assim comigo. Foi perdendo-me que me encontrei e escolhi. Como sou muito teimoso, estou-me a ver ao comando de uma voz certinha e irritante. Se me mandasse para a direita iria para a esquerda e vice-versa, certamente. Vejo-me ao fim de dois quilómetros a parar e mandar o aparelho ao chão. Saltar-lhe em cima aos pés juntos até ver as tripas, o esófago e o fígado separados numa morte irrecuperável. Imagino-me a espumar-me pela boca repleta de palavrões. Morte ao Gps, que voltem os mapas, mesmo os desactualizados. Que volte o espírito de viajante mais do que o de turista. Que o direito ao erro e o engano volte, e nos faça saber mais do que um carreiro sinalizado por satélite que nos retira liberdade. Que os alternativos sejam circulados e visitados e não se enviem todos pelo mesmo caminho. Desceriam os engarrafamentos e até as mortes na estrada. Que nome mais paneleiroso, tomtom. Com voz de boneca insuflável de lábios grossos e vermelhos. Vivam as estradas de terra batida, os atalhos, e os montes. Nós quinhentistas que demos novos mundos ao mundo de gps tomtom.

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