Chove bem
O céu choveu esta noite por mim. Precisava que chovesse. A terra ficou perfumada da minha janela. A água numa solta correria reflectia a luz da noite na estrada negra. Misturei café e bebi. Li esta noite as dúvidas de estar por ser e de ser por estar. As sombras da trovoada pelas quatro da manha faziam os gatos assustados esconderem-se como setas nas esquinas enviesados. Abri as janelas sentei-me e toquei. A chuva vinha na minha direcção mas desviava o trajecto ao chegar. Os acordes doces suaves e brandos desabrochavam da viola. Tinha-te ali comigo e tocava. Via-te de cabelo branco e sorriso pendido de luz. Recordei as conversas que gostava de ter contigo. As diferentes opiniões sobre religião e politica. O quanto te admiro pela diferença. Estou só de um vazio transcendental que me acompanha, somos ainda dependentes, mas a nossa dependência já não é das coisas à nossa volta, é de nós próprios. Apetecia-me este vento certeiro, esta chuva debruçada nas árvores, no céu fechado. Aceito a vida sem achar que alguém tem influência em mim. Sou forte. O processo de dar de mim faz-me sentir forte. Estar presente é ser presente. Não é ser presente de ausência. Quando estou presente estou. Quando estou presente, vou.
Comentários
Postar um comentário