Esboço um sorriso
Trio azul. Hoje dia mundial da música correu em bica do contrabaixo do Carlos, num teatro deserto de pessoas. Sem falsa modéstia ajustada, existe boa musica e má musica. Existem bons poemas e maus poemas. Existe o direito ao contraditório bem sei. Hoje foi fantasiosa a noite, deserta de pessoas, inundada de boa música. Um português, um norte-americano e o alemão provaram que a escala de sustenidos e bemóis é universal. Tenho saudades das chuvas de Abril e da força de Maio. Estou calmo. O jazz tem esse efeito em mim. É introspectivo e faz-me sentir. Não quero sofrer pela diferença mesmo que seja solitária. Revi em cada vinte minutos de música uma vida. O eu pequeno, o eu pré-adolescente cheio de energia, desporto e musica. O eu adolescente cinzento de adormecimento induzido. O eu insistido e adiado. O eu vivo, descoberto e inaceite. O eu aceite de factura por cobrar, daquilo que fui e já não sou. O ser pai, filho, profissional e academicamente igual, tem maior provação intrínseca e analítica aos olhos de mundo que os demais. Os acordes desta noite e a semi-ausência de pessoas acalmaram-me. Apetece-me um abraço sentido e um colo. Não tenho pessoas por aquilo que eu sou. Tenho pessoas dispostas a receber o que eu não tenho para dar. Faz-me falta o rebento primogénito. Acredito que a soma dos dias rebentam como as ondas do mar na praia. Os dedos tocados e entrelaçados de gargalhadas espelhadas na lua crescente do meu rio, sabem melhor que um orgasmo animalesco e físico desprovido de conteúdo. É demasiado minimalista para o que sinto ser a necessidade da minha humanidade latente. Sei que existe uma reserva de felicidade que me espera. Aguardarei pacientemente sempre que consiga. O meu eu irá limando as lacunas de ego num processo reformativo. Celebro a existência, folheio um livro, olho para uma foto e preparo-me. Vou preparar disponibilidade, autenticidade e a coragem da nao desistência. De mim, nao de alguém porque valho mais do que ninguem. Como diz a minha amiga, eu sou rijo. (esboço um sorriso)
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