Esburacada casa
Vou esburacar uma gruta para habitar. Construirei um espaço onde os jardins sejam a continuação do paraíso. Escolherei para viver nele, ninguém. Será cheio de ninguém. Todas as músicas serão de ninguém e tocadas por uma multidão. O ar será puro lavado pelas entranhas da terra. Gemerá água da rocha que me alimentará. A temperatura será amena e constante. Cavarei a terra com as mãos para a semear de liberdade. Existirão permissões e não haverão domingos nem terças. A quinta será um regaço de pousio cultivado a cereal. O pão cozerá num forno purgatório. Adocicado será o acordar e desprendido o adormecer. O amor far-se-á sem obrigação, somente por devoção. Não existirão olhares fermentados de risos à passagem nem abraços à despedida. A despedida será exaltação e festa. A vida celebrar-se-á com vinho. Os jardins de nuvens e lagos serão as marés que se irão levantar, serão o balanço que rebolará esse mundo inventado e esburacado, num pedaço de terra fértil de humanidade. Será habitado por ninguém para se auto-preservar.
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