Galicia
Escrevo sobre uma viagem. Uma viagem pode ser uma vida, um sonho, um despertar, uma manhã, uma madrugada, uma noite, um instante, uma travessia, uma hora, um olhar ou um minuto.
Dois sacos, uma seara de quilómetros e uma brisa que me corre na alma. Uma viagem acompanhada de palavras trocadas com um cd repetitivo em que a musica perde importância trinada por diálogos. Alegorias dilaceradas numa Galiza que me espera. O Prestige acaba de tornar o planeta inconsolável de um mar nosso mais a sul. Santiago espreita-me numa beleza e trova que me corta a respiração. Abissalmente aterradores, os sinos replicam encantados. Os adjectivos só estorvam tão indescritível sentir. Os teus revoltados cabelos avermelhados soltos ao vento, são tão belos como a poesia que se entrava na arte das ruelas fronteiriças à igreja.
Os acordes soltam-se sem pressa presos nos dedos de quem os dedilha. Sopradas melodias de uma flauta e de um trompete enchem a praça de um impregnado granítico. De uma fonte, uma sereia jorra sedutoramente água pela boca, num reavivado e reflexivo movimento. Tem expressão a sereia. A norte existe alegria continuada. As ruelas desenhadas a papelão canelado são inventadas e conjuntas de crenças.
É assim que adormecemos paredes-meias com a Galiza. Nos dias primeiros de Julho quente, festejo um aniversário que não sendo o meu, o é. Pela imaginação rebenta-me a vontade. Alicio os museus contemporâneos onde visito e sento. Sento por sentar, e, sentado num degrau revejo o movimento e o burburinho silencioso das pessoas. Imóvel um homem estátua olha-me de esguelha. Troco olhares contigo em sorrisos. Na velha universidade de Compostela as portas e as paredes deitam cheiros que não identifico, almoço no frontispício. No meio do chilrear quente de uma máquina de café portuguesa, saboreio. Bebo três. Santiago não dorme e o fascínio das fortes paredes são eternas e longínquas.
Passo serenamente entre o ruído e a pressa e recordo a paz que pode haver neste silêncio.
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