Na verdade fazemos muito mais falta quando somos precisos.
O nevoeiro translúcido pousado na seara já seca depois da época fértil, acalma o cheiro intenso da terra. Embargados os mandados domínios das funções dos sentidos esperam o uivar dos lobos da serra, que não se ouvem. Um nevoeiro que não vinha do céu abraçava a terra. Um nevoeiro que saiu da terra e por ali ficou adormecido formando uma planície, na já acordada planície. Uma estrela cadente riscou de fogo o céu. Escreveu uma letra, um sonho e seguiu. Saltitaram as estrelas com movimentos abraçados da minha cabeça, de olhos emprestados e sublimados no céu. Lhasa de Sela rima uma canção de letra gemida, de um sentir que me acompanha, de um pensamento em perspectiva. Ali em campo espacialmente aberto de um soberbo escuro, de um frio apetecido, numa reserva de mim próprio exaltada e natural.
“Haveremos todos de ser como o milho seco e carcomido”. Sorrio com a figura de estilo.
- Claro que sim. Haveremos de ter a sabedoria das noites. As noites observam mais que os dias. As noites são mais sábias.
- Claro que sim, haveremos de saber das marés pelos ventos.
- Claro que sim, haveremos de saber uns dos outros pelo vento que a saudade traz.
- Haveremos de pedir, sem achar que pedir é um acto menor.
Embrenho-me num rodopio sensitivo atroz e fantástico. A minha cabeça explode em ideias feitas tão-somente de ideais. Não me sinto entendido na minha simplicidade complexa de ser. Sinto-me diferente, até dos mais afastadamente próximos que comigo cresceram. Já não estou ali. Já estou de viagem.
Na verdade fazemos muito mais falta quando somos precisos. Os meus sonhos não são nem parecidos com quem comigo cresceu. Modifiquei-me. Modifico-me na solidão que a oportunidade da mudança me oferta. A mudança afasta as rotinas. Cada livro é diferente de palavras do anterior e do próximo. Não quero beber café na mesma mesa do mesmo sitio diariamente. Quero outros sabores e devaneios, outros parágrafos e hipérboles. Hei-de me entender um dia, na redundância do pleonasmo. Hão-de me entender um dia, quiçá o tempo não se esgote. Quiçá a falésia não desmorone. Na verdade fazemos muito mais falta quando somos precisos.
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