Outra margem

 


O barco balança ritmado pela maré. A viagem para a outra margem começa onde o sol me acena crescente. O dia quase rompe dentro de mim. De olhos impenetráveis, estoura dentro de mim imagens felizes da minha alma. Balanceiam-se ao vento cabelos longos de um Maio já maduro. Descalça num chilrear alvoroçado, as gaivotas fazem tangentes. Malucas. Num divertimento de quem não tem preocupação. A margem insinua-se cada vez mais, ali num fumegante nevoeiro que se espreguiça e levanta. Aprendiz de feiticeira esta luz inconstante, velha e sabia. O oriente sonha com a forma como me conduzes e guias. Sonho com o teu abraço incestuoso, até. Com as tuas palavras molhadas de desejo que reprimes num jogo alucinado que me fascina. Prendem-me decisões que adio. Tomadas e adiadas sem coragem, de um bater a porta digno e definitivo. Escrever diz me tanto, tão mais do que palavras ditas de incongruência de um sentido duvidoso. Escrever adequa me e ajusta-me, à verdadeira forma não dita, de um conteúdo adivinhado, carente e obvio. Hoje por motivos não descritos é realmente o dia mais importante que tenho. Apenas porque não tenho outro. Desejo agora um mar de afecto à minha frente, um livro, um cd, e tu doida inventada por mim. Ser por inteiro. A forma de te mexeres esta dentro de mim, os teus sons e gestos, a forma presa de sentir. Um sentir de desprendimento. Acredito na normalidade das coisas. Afinal sou um tipo normalíssimo. O sol escondeu-se. 

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