Posso escolher morrer á desgarrada como o fado.

 


Uma travessa miserável junto ao Palácio da Ajuda numa “villa” cheia de podridão, de mau cheiro e doença, encontrei-me comigo próprio por lá. Irreconhecível. Uma idosa farta de idade, morta de espírito e alma, suportava-se dose atrás de dose. A “villa” tinha vigias, milícias, e um veneno tão bom, que matava de quando em vez um ser humano. Matava rapidamente e aos poucos, é como se queira, mas aniquilava sempre. Cadáveres de olhos fundos e olhares perdidos e angustiados, visitavam num corrupio a casa suja de desgraça e faminta de vida. Prostitutas e ladrões que não o eram, estavam por ali nas horas mortas. Mortas de vida e vivas de uma necessidade sem espera, sem tempo e horas. O cheiro nauseabundo amontoado e sórdido entranha-se e desaparece pela habituação. Uma romântica visão, é dada por velas acesas e sombras reflectidas nas paredes. Sombras curvadas em rituais repetidos. Saudade deste sentir adiado, sabes. Destas lágrimas guardadas e vertidas anos depois. Destas imagens podres de um existir que não renego. Sou muito mais isto, do que uma fantasiosa imagem lavada de uma pessoa qualquer que se arrasta num sonho que começa hoje ás 17.30h. Sonho em conclusão mas duvidado. Reconstruam o casal ventoso e legalizem a morte por escolha assistida. Cada qual morre como quer. Cada qual escolhe morrer entre amigos e iguais ou não, mas pode escolher. Posso escolher morrer á desgarrada como o fado. Por tentativa. A minha diferença não é hoje. Foi ontem. Para ti amigo, aquele abraço. Entendo-te. Quem sabe se não te irei visitar um destes dias. Respeito a tua decisão. Invejo-te até pela coragem. Atulhaste-te, cansaste-te, desesperançaste. Sei que as minhas palavras chegaram até ti mas não foram suficientes. Entendo-te mais a ti do que aquelas merdas daqueles discursos do: - “eu agora sou isto” e “sou aquilo” e “fiz isto” e “fiz aquilo”. Sem genuinidade, sem frontalidade, sem coerência, sem verdade. A história do “eu cá sou muita bom”. Pertenço aí também. Gostei da tua última mensagem do “mestre”. Caga nisso …. Mesmo. Chorei por ti, já de saudade. Aquele abraço.

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