Tenho-me a mim

 


Quando preciso muito de alguém, conto comigo. Quando tenho que tomar uma decisão, conto comigo. Já há uns anos aprendi a cuidar. Aprendi a cuidar de mim, da minha filha. Sem rodeios ou escolhas simpáticas de palavras sou pai e mãe. A mãe demitiu-se. Estou a aprender a cuidar dos meus Pais. A minha mais dolorosa experiência nesta vida renascida. Não é fácil sentir que quem nos gerou e segurou, precisa agora que os segurem. Não são fáceis nem doces as lágrimas da minha mãe. Não é dócil a lucidez dar lugar á confusão do meu pai. Não é fácil ao meio-dia achar que são cinco da tarde. Ou que um sábado é uma quinta. Não é fácil saber que pode cair de uma escada e mudar o quarto para outro piso. Não é fácil preparar as doses diárias de medicamentos para os dois. Lembro-me todos os dias que sou hoje o que eles fizeram que eu fosse. Pensamento pródigo de sentimento. Apesar de tudo, enche-me o coração de amor. Depois, o vazio de estar em casa. A minha filha já voa sozinha o que me faz feliz. Olho para o lado e tenho-me a mim, sem queixumes, cobranças ou lamechices. Sei como ajo. Aprende-se até aos oitenta anos. A Aprendizagem é eterna. Continuarei o meu rumo sem me desviar. Tenho um projecto em mãos que no verão estará pronto. Até lá muita água passará por debaixo da ponte, mas tenho-me a mim em aprendizagem.

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