Conto da peixeira
Já não há bancas de peixeiras a apregoar o pescado. O conceito de peixeira é actualmente instituído a alguém que tem a coragem pública de descompor arruaceiramente, utilizando linguagem aliviante de mão na cintura a condizer, de preferência na via pública, e, aos olhos do mundo e povo. Peixeira é quem o é não tendo imagem para o ser. A peixeira do chavão subentendido, de cariz popular e vernáculo desapareceu. Já não existe o apregoamento de indução sexual, que divertido e agilizado se tornava. O peixe e as peixeiras desapareceram dando lugar ás vendedoras de peixe iluminado, em bancas de hipermercado com luz apropriada que torna o peixe enganadoramente fresco. Tenho saudade das peixeiras e dos mercados de calão apregoando o fruto do mar. Saudade do “ai freguesa aqui a sarda é boa e tão fresca que parece viva”, “ ai freguesa a sardinha é de prata”. Vozes gritantes enfeitadas de lenços à cabeça. Mãos sabedoras e conhecedoras. Vê-las amanhar o peixe sem segredos, era uma obra de arte que eu assistia encostado à banca escorrida de água, sal e escamas. Que saudoso bocado ali encostado na praça do Peixe. A Magnifica fazia-o com mestria. Gosto de peixeiras.
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