Conto da ponte parida do rio
Peguei-te na mão e fui em direcção a uma ponte baixa que tocava no rio. Não entendi nunca se vinha do céu para abraçar o rio, ou se era parida pelo rio numa elegância que não fazia dela uma ponte. Sei que juntava as margens de um labor citadino, com a calmaria da lezíria. Tinha na margem plantada e um largo com árvores espaçadas. Na margem o canavial inventava músicas feitas de vento. Olhavas-me de olhos pregados no chão em movimentos de cabeça afirmativos. Com a minha mão dada na tua caminhamos pela margem de cá. Atrás de nós uma enorme tenda que me fazia lembrar um circo, animava a minha imaginação de arlequins de trompetes empunhados e rapazes do trapézio voador. Imagino um vinho transpirado, uma alma, um ritual e a forte e escura mancha deixada num vazio fingido e cheio. Cegam-me luzes fortes de arrepios provocados pelo teu olhar, pela tua passagem e toque. Escrever para mim é uma luta contínua contra a neurose em direcção ao equilíbrio e lucidez. É uma purga do que não se faz, ou se fez de errado. É um remendo ou uma remediada contra-acção. Escrever é vida, é cristalizar momentos. É auto-conhecimento e o conhecimento dos outros. As mulheres mentem quando falam de homens entre elas, os homens glamorizam quando falam de mulheres. Mas todos, homens e mulheres, são detentores e necessitados de calorias de ternura, ímpetos e afectos. A aprendizagem da humanidade demora uma vida. Dentro da dor pode haver alegria e na alegria um centrismo e a desilusão que o conhecimento encerra. O mistério do sofrimento não tem idade. De mãos dadas debaixo da ponte atravessam-se as sete cores do arco-íris, impenetráveis. Os teus beijos mantêm a virgindade do olhar, debaixo da ponte parida do rio.
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