Conto de Finados

Ficcionado esta minha forma de estar, ser, pensar e sentir. Ficciono historias que me vêm do nada, Historias. Alter-ego que não é mais do que:


 


- Alter-ego do (latim alter = outro ego = eu) pode ser entendido literalmente como outro eu, outra personalidade de uma mesma pessoa. O termo é comummente utilizado em análises literárias para indicar uma identidade secreta de algum personagem ou para identificar um personagem como sendo a expressão da personalidade do próprio autor de forma geralmente não declarada.


 



Para a psicologia, o alter-ego é um outro eu inconsciente.


 



Num outro sentido, o alter-ego de uma pessoa não é uma faceta escondida ou secreta da sua personalidade, mas sim alguém de muito íntimo, um amigo fiel e inseparável em que essa pessoa se revê e deposita absoluta confiança. O alter-ego é, neste caso, um perfeito substituto em que a pessoa pode delegar a sua representação ou outra função importante, na certeza de que ele pensará e agirá como ela pensaria ou agiria, isto é, como se fosse ela própria. É frequente, na vida política, um dirigente ou governante ter um alter-ego como colaborador destacado, alguém habilitado a assumir fielmente as suas funções.


Juntarei assim todas as definições e hipóteses nesta temática do alter-ego num conto pequenino que escreverei. Não sendo eu sou. Não sendo real, também não é ficção. Não estando presencialmente também não tem funções delegadas.


 


“A noite já tinha entrado na madrugada. O relógio da torre quando o vento está de norte ouve-se da minha janela. Já tinha escutado o bater da madrugada em badaladas que se acendiam de saudade. De quando em vez as luzes dos automóveis entravam pelas persianas da minha solidão em feixes de luz. Uma luz da saudade, uma luz de te saber ali nos braços de outro. Não objectes aos meus anseios. A tua escrita não atinge a minha. Este silêncio foi mais que ouro, foi diamante. Sabia-te dançante e fugidia de ti mesmo e das historias que inventas para fugires ao teu desencantamento. A forma de te esqueceres de ti é dares-te a alguém que se lembre de ti. Isso não faz com que te lembres de ti, porque um dia alguém te vai esquecer. Eu lembrarei sempre, como sempre me lembro de mim. Egoísta como dizes. Egoísmo pode ser apenas a forma de nos tratarmos bem a nós, e aos outros. Era dia de finados e este silêncio calava uma morte que acabara de acontecer definitivamente dentro de mim. Não tinha ainda a certeza de quem tinha morrido. Se tu, se eu., mas sentia anunciada a morte. A morte das nossas mãos tocadas. A morte das nossas desistentes análises criticas, nas nossas bocas e línguas, abraços e afectos. Sabia que a trança se tinha descomposto e que não valeria a pena a reconstrução. Recordava o tecido fresco do teu vestido e o teu decote insinuado que me abateu. As luas fizeram o seu percurso, tantas vezes quantas as semanas de quem te sabia ali, sem sequer saber se por ali estavas. Cheirava-me realmente a morte. Madrugada já dia, cantei a música dos finados dentro de mim, numa orquestra em que fui maestro e músico do medo. A música num final triunfal transformou-se num hino à minha existência. Dormi cinco longos minutos para celebrar, e fui ver-o-mar. Contei-lhe a vida que tinha havido na morte e a presença que tinha havido na solidão. Estavam as nuvens ainda ancoradas no mar, quando a noticia se espalhou e o mar irrompeu numa celebrada tempestade de ondas, que batiam na areia e deixavam marcas de alegria, festa e vida. O sol brotou associado e dançou com a existência que se celebrava ali. Eu, terra, fogo, ar e agua”.


 


 


O meu alter-ego sossegou do desassossego........


 

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