Conto de S.Gião
A correria tresloucada das crianças não pára. Satisfaz-me saber que na hora da merenda se aquietam. Lá fora o sol catraio dorme repousado à espera que o entardecer volte cansado e se acame. Salpicam sóis à cabra cega. No jogo do “lá vai alho” o caixa de óculos é sempre quem leva com os outros em cima, também por ser gordo. Cruéis os petizes. O mais aplicado dos alunos é pobre em sais minerais e rico em polisaturados. As meninas de saia rodada e soquetes pelos joelhos fazem uma roda e cantam. Os rapazes travessos gritam mais que o mar em rebuliço. Dentro do meu carro leio um livro à espera do toque que traga a minha filha, e do abraço expressivo da palavra, Paiiiiiiii…! As auxiliares na ombreira da porta apanham os restos de sol amarelecido que trespassa as nuvens lilases e conversam desenfreadamente sobra a vida alheia. A professora mais evoluída fuma um cigarro de aborrecimento de ver-se ali plantada de catraios à ilharga. Observo os meus joelhos esfolados da bola com que marquei os meus primeiros golos triunfais, recordo o Zé Manuel, o Aníbal, a Casquilha e o Francês. Vejo-me quarenta e tal anos atrás naquele recreio inundado de vida onde pensei ser jogador de futebol ou estrela de rock and roll. Fui aprendiz de feiticeiro, sem escolha.
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